
‘Não posso dizer que à primeira vista me seduziu. Mas desafiou-me a olhar “mais dentro”, quase que numa prece.’ Foto de apresentação da Exposição “densidade. e memória”, CaRlos Nogueira . Site Brotéria
A iniciar a saison com algum atraso, no espaço de dois dias mergulhei na arte, a arte que há-de salvar o mundo e nos alimenta a esperança, assim acredito.
Uma pessoa amiga alertou-me para uma exposição interessante no espaço Brotéria (da Companhia de Jesus), em Lisboa: “Tens de ir ver para escreveres para o 7MARGENS.” No pequeno espaço, tornado ainda mais pequeno pela dimensão intimista da exposição, Carlos Nogueira apresenta Densidade e Memória: uma interpretação/recriação das catorze estações da Via Sacra enriquecida por mais uma a que adiante me referirei. Muito interessante, mas difícil. Não posso dizer que à primeira vista me seduziu. Mas desafiou-me a olhar “mais dentro”, quase que numa prece. Na parede vazia do lado direito da galeria, uma instalação de catorze “caixas” em ferro – ferro, vidro, espelho e esmalte de 24x30x12 cada – de onde sobressaíam estranhas e subtis formas em tinta de esmalte negra, nenhuma igual à outra; as diferenças no traçado eram extremamente subtis, o que nos convidava a demorar a atenção a cada uma, desafiando-nos a tentar interpretar, perceber, imaginar. A meus olhos não era preciso interpretar porque cada uma delas, bem distinta, podia ser qualquer uma das outras. [Terei visto bem? espero ainda conseguir conversar com o autor para ele me ajudar na forma como me apropriei de tudo isto.]
Iluminadas por lâmpadas néon no teto, a diferença dos traços das estações era acentuada pela luz que incidia sobre elas. A posição em que me encontrava frente a cada “caixa” acentuava as subtilezas da luz. Por vezes o negrume total ao lado de uma luz ténue iluminando parte da pintura, ou uma luz vibrante quando toda a lâmpada incidia sobre ela.
Na parede do lado esquerdo da via-sacra emergia uma “caixa de forma e dimensões semelhantes mas em que o negrume era substituído por uma luz emanada de uma cartolina branca, no seu reflexo a partir do teto. Esta última parede situava-se na parede central da galeria. Num primeiro olhar sugeriu-me a Ressurreição – uma 15ª estação que sempre desejei que houvesse quando rezava a Via-Sacra, em geral com outras pessoas. O sentido da morte, o real tormento de Jesus, desagua na Ressurreição, para um/a cristão/ã só pode ser assim – um sentido para a morte. Olhei especialmente para a estação em que Verónica enxuga o rosto de Jesus com uma toalha (6ª) e a de Simão de Cirene, num gesto espontâneo ajudando-o a carregar a cruz (5ª estação), sem desprimor de quando Cristo abraça a sua Mater Dolorosa (4ª estação) – gestos aparentemente inúteis de profunda compaixão ou de cuidado, tentando ajudar Cristo a viver a sua própria dor.

“Olhei especialmente para a estação em que Verónica enxuga o rosto de Jesus com uma toalha..” Pintura: Santa Verónica com o Véu (c. 1655-1660), de Mattia Preti, Los Angeles County Museum of Art, Domínio público, Wikimedia Commons.
A Luz da Ressurreição um pouco afastada das outras estações é a certeza de que, apesar do sofrimento em nossas vidas, Cristo nos promete a plenitude da Ressurreição. Densidade e Memória, que quererá dizer o título desta exposição? Sobre a densidade, não tenho qualquer dúvida: experimentei-a, debati-me com ela, por isso a exposição me foi difícil de início. Tive de olhar apesar de já olhar. Tive de prestar uma densa atenção ao que via. De ver, passar a olhar. Mas a palavra “Memória” torna-se interrogativa. E as vias-sacras que vivemos aqui e agora: a guerra na Ucrânia e o genocídio de Israel contra a Palestina, no Iémen ou no Congo, na Síria, na Nicarágua, a prevalência do mal na emergência de movimentos e votações que fazem subir a extrema-direita, Moçambique e a luta pela democracia, as perseguições religiosas. E a pobreza, a indigência, os sem-teto, os párias que buscam segurança, pão e trabalho e não-discriminação noutros países, a violência nos bairros periféricos… e as crianças dizimadas pelas guerras?
É aqui que encontro a memória, é aqui que revisito as estações dolorosas da cruz. Entre nós, à esquina da nossa casa, encontramos aqueles que vieram (vêm) da “grande tribulação, os que lavavam as túnicas e as branqueavam no sangue do cordeiro” (Apocalipse 7, 9-14). Poderia continuar incessantemente esta via-sacra dos dias de hoje – felizmente tenho participado em Vias-Sacras que trazem ao presente e ao jeito de Cristo Jesus o que se passa à minha volta. O padre jesuíta João Norton, no folheto que acompanha a exposição, fala de “um pathos originário”, e por isso atual, como uma “geometria do tempo onde o eterno e o temporal coincidem”. Isto foi o que consegui ver. João Norton refere que “numa espécie de ascese ou imediatez empírica, sem procurar uma beleza aparente, oferece apenas um fundo para o mistério, à espera dum rosto refletido, fragmentado, fragilizado, ou de uma emoção absoluta, onde cada espetador se possa rever”. Curiosamente “vi” o meu rosto refletido na 6ª estação, a Verónica que tanto me inspira.
No dia seguinte “inaugurei” a temporada de música da Gulbenkian com o Requiem Alemão, de Brahms (1889), a dois pianos, com o coro na sua pujança sublime, de uma densidade criadora, em vozes alternadamente luminosas e graves.
Este Requiem, liturgicamente, não é uma missa – Brahms era luterano – e foi escrito para crentes e “não crentes”. Usa textos da Bíblia luterana escolhidos pelo próprio Brahms (ele mesmo não era praticante). Não se detém na expiação dos pecados, é um texto de consolação aos vivos. Repete as palavras: “Oh morte onde está a tua vitória, onde está teu aguilhão? Inicia-se com o maravilhoso texto Bem Aventurados os que sofrem porque eles deveriam ser confortados. Continuando: Ninguém deve tirar tua alegria/ não vamos todos adormecer/ na hora da última trombeta/ a morte é tragada pela vitória/ Bem-Aventurados os mortos de agora em diante (…)
Que forma tão bela de ver a morte! Vale a pena ler todo o libreto. Oposto a uma visão sobre a morte como irreparável, trágica, sem regresso, este Requiem de algum modo estará relacionado com a via-sacra de Carlos Nogueira em que tudo caminha para uma Luz inefável, libertadora, que é a Ressurreição. As estações tradicionais do caminho da Cruz, elas sim, no seu esplendor, anunciam algo que vai além da morte, que é a certeza da Ressurreição, a Alegria Total, “um terraço sobre outra coisa ainda, e essa coisa é que é linda” (Fernando Pessoa) – a caixa branca de Carlos Nogueira; quem semeia com lágrimas colherá com alegria acreditando num Cristo que nos convida a sermos ressuscitados com Ele, na certeza da vitória sobre a morte, sobre a escuridão, a desesperança, as lágrimas. Um hino à Esperança porque somos “Filhos da Luz”, como afirmam as palavras do libreto:
Tu estás triste agora
Mas eu quero te ver de novo
Teu coração devia se alegrar
Ninguém pode tirar a alegria de ti
Teresa Vasconcelos é professora do ensino superior e integra o movimento do Graal; contacto: t.m.vasconcelos49@gmail.com










