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[Vitral (detalhe) do padre Kim En Joong o.p., Capela do Convento de Santa Sabina, Roma © Fotografia: Joaquim Félix]

[Ensaio]

Da liturgia de bem lutar [a] toda a arte: Se nos deixássemos vencer assim? (I)

| 20/06/2026

Da autoria do padre Joaquim Félix, o 7MARGENS publica, em duas partes, o Prefácio em jeito de ensaio ao livro “Da luta desiderável. Interrogação poética do combate na arte e na liturgia”, de Bruno Pinto, diácono de Braga.  O livro, editado pelo Secretariado Nacional da Liturgia, corresponde à dissertação de Mestrado Integrado em Teologia realizado na Faculdade de Teologia da UCP.  

 

«Este é o anjo do Antigo Testamento, noite e dia,
que aos lutadores aprecia:
quando os tendões dos seus adversários daqueles dias
ficavam tensos, ao lutar, e qual metal
sentia-os debaixo dos seus dedos, afinal,
tais cordas de profundas melodias».

[Rilke 2025, 60]

 

 

 

Desiderável? Sem dúvida, este ousado livro proporcionará a fruição de um corpo textual-imagético-sonoro apetecível para os leitores. Liber desiderabilis, livro desejável, assim se perspetiva a promessa para saldar em sentidos complementares. Almejável, sublinho, até porque ele poderá joeirar a exacerbação de certos sentimentos ― espúrios e, por desgraça, desviantes ― com que, nos nossos dias, a liturgia é vivida e pensada em forma de esgrima. Com efeito, na limpidez de intenções, Bruno Pinto propõe-se reabrir um sensível itinerário teológico-litúrgico, só na aparência estreito, libertando-o de armadilhas ideológicas e de equívocos que, quiçá, a colação de um inesperado léxico ― muito dele antigo, mas esclarecido desde a sua luz filológica e despoluída ― poderia potenciar. Inabitual é o léxico. Atrevido será o tema? Pois, que seja! Se a uma iluminação aportar, bem-aventurada seja a travessia deste audaz ensaio, raro na área da liturgia, que tem tanto de crepuscular como de noturnal e amanhecente.

Supondo esforços e entregas, a reflexão desenvolvida neste livro não evita os lugares da luta, do belo combate (cf. 2 Tim 4,7), para guardar e acender a fé nas feridas e nas cicatrizes, segundo a ars celebrandi, a arte de bem celebrar. Da luta desiderável. O título é uma convocação para a luta, sem apelos para tréguas pascais e conversações diplomáticas. A luta, sim, na verdade da arte do combate litúrgico. Sem ser uma intimação para o exercício das artes bélicas tout court, o sentido explorado prende-se, em certo sentido, com categorias que se enraízam na antropologia e na espiritualidade teológica, como, por exemplo, a dança, a obra de arte ou o jogo (cf. Guardini 2017, 65-79). Ainda que ostente naturais diferenças, sempre a discernir sem confusão, poderia assemelhar-se ― na ética, na espiritualidade e na performance ritual ― a aprendizagem da arte de bem lutar liturgicamente ao tratado quinhentista, escrito por D. Duarte, rei de Portugal, intitulado Livro da Ensinança de Bem Cavalgar Toda a Sela (cf. Duarte 1986). E, assim, de paráfrase para paráfrase, o título que cunhei para este prefácio ― Da liturgia de bem lutar [a] toda a arte ― aplicar-se-á a esta obra de Bruno Pinto. Por certo, sem as rebuscadas etiquetas da arte de cavalgar, mas com rituais não menos exigentes, típicos da ação litúrgica.

Amadeo de Souza-Cardoso

[«Combate» de Amadeo de Souza-Cardoso, na Exposição «Xerazade, a Coleção Interminável do CAM», Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa © Fotografia: Joaquim Félix]

Prolífero em imagens multissensoriais e, também, pela manifesta arte de inovação literária, este prazeroso artefacto teológico rompe com expressões rotineiras, por muitos justamente denunciadas como exauridas de sentido e desilusivas. Nesta irrupção, tão desejada quanto urgente, ele inscreve-se na atenção a dar ao progresso das linguagens, para ser fiel à grande Tradição. Ainda que assim possa parecer aos menos avisados, Bruno Pinto não se deixa arrebatar por uma criatividade selvagem, nem, pela menor frequência de certos temas, pré-fabrica o interesse, maquilhando subterfúgios esotéricos. Relevo isto, porque vai-se constatando que, ao abrigo da sadia dimensão mistérica da liturgia, alguns neognósticos e pansacralistas fomentam efabulações com misticismos e cultivam a lei do arcano. Por este e outros motivos, o presente livro despertará o gosto pela leitura profunda. Sim, a alta voz e silentemente. E, nessa degustação, jamais insípida, promoverá a liturgia, na lide de bem celebrar.

 

Das variações de «La lutte avec l’ange» e do poema «Jacob e o Anjo»

Quando Bruno Pinto começou a apresentar o tema para a sua dissertação ― refletir sobre a liturgia a partir da categoria do combate ―, imaginei algo que poderá suceder igualmente aos leitores deste livro, isto é, que ele pretenderia explorar a dura e, por vezes, áspera discussão sobre certas polarizações litúrgicas. Polarizações, nomeadamente em relação às formas de celebrar a eucaristia e os demais sacramentos segundo o rito romano. Estava enganado. O combate é outro. Bem mais desiderável.

Conhecedor das tensões e problemáticas que atualmente assolam a reflexão sobre a liturgia, Bruno Pinto prefere uma via outra: aprofundar o sentido teológico da liturgia, na linha de pensamento apresentada pelo Papa Francisco, na Carta Apostólica Desiderio Desideravi, sobre a formação litúrgica do Povo de Deus: «Com esta carta gostaria simplesmente de convidar toda a Igreja a redescobrir, guardar e viver a verdade e a força da celebração cristã. Gostaria que a beleza do celebrar cristão e das suas necessárias consequências na vida da Igreja não fosse deturpada por uma compreensão superficial e redutora do seu valor ou, pior ainda, por uma instrumentalização dela ao serviço de uma qualquer visão ideológica, seja ela qual for» (DD 16).

A luta do Anjo com Jacob

[«A luta do Anjo com Jacob (detalhe). Vitrais de Marc Chagall, igreja Fraumünster, Zurique © Fotografia: Joaquim Félix]

Infelizmente, na atualidade, não faltam instrumentalizações da liturgia, de tal forma que muitos a consideram um problema que cinde a unidade da Igreja. Na sua obra O sentido espiritual da liturgia, Goffredo Boselli esclarece o equívoco, redirecionando a atenção para o verdadeiro objetivo: «Tem-se, com frequência, a impressão de que hoje a liturgia é apreendida mais como um problema a resolver do que um recurso a que chegar. E, no entanto, o futuro do cristianismo no Ocidente depende em larga medida da capacidade que a Igreja terá de fazer da sua liturgia a fonte da vida espiritual dos crentes. A liturgia é, pois, uma responsabilidade para a Igreja de hoje» (Boselli 2019,15).

É particularmente significativo que, com este objetivo eclesial em mente, Bruno Pinto tenha despertado para o tema ao contemplar obras de arte. Como num lucernário a jorrar das telas e das páginas, a luz das refregas fulgurou o seu espanto. Deslocando-se nesse arquipélago de nuances brumosas imergindo ao pensamento, assentiu ao anúncio do anjo. Sim, com humilde obediência, permitiu que a luz calasse no seu inocente assombro. Nessa rutilância de espessamento bramante, própria das lutas genesíacas, deixou-se advertir por vislumbres noturnos, que esboçavam a cartografia do horizonte para dissertar. Iniciado assim aos mistérios-em-revelação, comprometeu-se nas lutas, não só do discernimento das fulgurações picturais-poéticas, epifânicas nos instantes primeiros, mas também no engendramento de um tema de dissertação.

A luta do Anjo com Jacob

[A luta do Anjo com Jacob (primeira janela à esquerda) na cabeceira do presbitério. Vitrais de Marc Chagall, igreja Fraumünster, Zurique © Fotografia: Joaquim Félix]

O campo de fundo, como ele refere, é constituído pela luta do patriarca Jacob com o anjo (cf. Gn 32, 25-33), ladeado por duas obras de arte: «La lutte avec l’ange», nas suas quatro variações, em pintura, de Maria Helena Vieira da Silva, e o poema de Ana Luísa Amaral, intitulado «Jacob com o Anjo». Quanto às obras de Vieira da Silva, Bruno Pinto contemplou-as no Museu Arpad Szenes – Vieira da Silva, em Lisboa, em 2019, por ocasião dos seus 25 anos de abertura ao público, celebrada com a exposição «Brincar diante de Deus. Arte e Liturgia: Matisse, Vieira da Silva e Lourdes Castro», com uma seleção de obras ‘litúrgicas’ destes três conceituados artistas, desde logo os paramentos da Capela Árvore da Vida, ideados em termos de projeto por Lourdes Castro.

Paulo Pires do Vale, na qualidade de curador, coloca várias questões, no ponto 4 do seu texto, publicado na brochura da exposição, a propósito do estatuto destas obras e do seu significado nas relações intercorrentes entre liturgia e arte: «Não será a liturgia uma forma de performance ― e a forma dela? É a arte liturgia, ou a liturgia uma forma de arte? E como fica o lugar-comum que afirmou repetidamente a separação entre arte e religião no último século?» (Pires do Vale 2019,4). Recorrendo ao livro O espírito da liturgia, de Romano Guardini, onde este reflete sobre a liturgia a partir da categoria de jogo (cf. Guardini 2017, 65-79), Pires do Vale responde em grande medida a algumas das perguntas no ponto 5: «A liturgia remete para os sentidos, para a sensibilidade do ver, do ouvir, do tocar, do cheirar. Para o espaço que envolve o crente e para o corpo em ação. Realidades materiais, sons e gestos que são mediação e performatividade do mistério: “sinais sensíveis da graça invisível”. Uma coreografia, um jogo ritual, uma festa ― uma linguagem, a um tempo, física e espiritual, aberta às culturas na sua diversidade e criadora dessas culturas. A liturgia ― e as expressões artísticas e arquitetónicas que implica ― é a incarnação da relação humana com o divino, em cada tempo e lugar: é uma forma cultural, não apenas de dar forma ao mundo, mas de formar o próprio homem. De modo radical, o teólogo Romano Guardini afirmou: “Viver liturgicamente, é (…) tornar-se uma obra de arte viva diante de Deus. É cumprir a palavra do Mestre e “fazer-se criança”. E acrescentou: «Não é trabalho, é jogo. Brincar diante de Deus. Não criar, mas ser cada qual uma obra de arte, eis a essência da liturgia» (Pires do Vale 2019,4).

«La lutte avec l’ange». Maria Helena Vieira da Silva

[«La lutte avec l’ange» de Maria Helena Vieira da Silva, no Museu Arpad Szenes – Vieira da Silva, Lisboa, durante a exposição «Brincar diante de Deus. Arte e Liturgia: Matisse, Vieira da Silva e Lourdes Castro» (2009) © Fotografia: Joaquim Félix]

Participante desta visão guardiniana, em relação à vivência litúrgica, que, de forma implícita, se ajusta ao tema em discussão, Bruno Pinto delineou a sua obra em três capítulos. Deliciemo-nos com a sua coreografia sobre as páginas, depois de justificada a pertinência do tema, para mais nos nossos dias, tão marcados por inúmeras expressões de beligerância. O combate para o qual somos alistados não é desta ordem, a dos conflitos bélicos, mas, como ele o evidenciou, «o combate que recoloca o humano na condição de ser criado, itinerante, peregrino, sedento e convocado a viver a sua vocação ao amor e à santidade», cujo objetivo principal passa por «reaprender, deste modo, aquele olhar cuja lente é o próprio Deus» (pág. 18).

«La lutte avec l’ange»

[Visitante a contemplar «La lutte avec l’ange» de Maria Helena Vieira da Silva, no Museu Arpad Szenes – Vieira da Silva, Lisboa, durante a exposição «Brincar diante de Deus. Arte e Liturgia: Matisse, Vieira da Silva e Lourdes Castro» (2009) © Fotografia: Joaquim Félix]

 

Lutar por uma Penuel litúrgica

Deus não deixou de lutar. Enquanto houver liturgia, a dança dos lutadores ― Deus e os participantes da assembleia ― prosseguirá. De início, Bruno Pinto esclareceu, no alinhamento da orbitante constelação das palavras, a interrogação pela natureza do combate. Há rostos. Há nuances. A dúvida alimenta, numa redação centrífuga por ele cuidada, o recinto transpirado pelos desejos, sem excluir nem cair na tentação de deslindar nenhum dos combatentes. Avançando na neblina noturna, que, pela calada, orvalha as perguntas, ele não renuncia às suas sombras. Na sua coreografia, como notívago que tateia o caminho, com palavras suas e palavras outras, jamais deixa de conviver com o silêncio. Mistura lenta, sem a pressa magnética da varinha dos sentidos a interpretar. Porquê? Porque os lances de uma visão doada à contemplação requerem paciência, a lentidão da visibilidade do verbo.

Bruno Pinto começa por fazer uma incursão exploratória às passagens bíblicas, que ajudam a compreender o ofício bélico, enquanto arte da guerra. Nesse exercício, de espanto em espanto, vai-se confrontando, também ele, com os combatentes. Desde logo, com aquele que é exímio observador de uma ética pugnaz, o próprio Deus. Lutador, como ninguém, Ele habilita e confirma na luta. Lutar, sim, é o ofício da vida, ofício longo de leituras e contemplações, sem inércias. A instauração da relação face-a-face é um dom para lutadores responsoriais. Ao abrigo da noite e pela beleza dos gestos rituais, ele, Bruno, como qualquer lutador ― renunciando à curiosidade de espectador ―, aproxima-se e passa a participar da dança entre os combatentes. Vigilante, não a serena. Sem invocar o fim, não os aparta.

Como encarar, no tempo, o rosto de Deus? Será em silhueta que a noite iluminada o esboçará? Penuel, ou a visão de Deus, reclama, ainda assim, uma maiêutica, a arte das perguntas que inclina até ao romper da aurora a espada de dois gumes, esta ou outra: «Como avançar no combate com Aquele que não conhecemos? Como hemos de tatear o rosto do Invisível?» (pág.19). Noite. Vazio. Nada. Neste triângulo, fértil para a hospitalidade do rosto iluminante, que se dá a ver e faz ver, derramar-se-á a bênção. O nome novo, pronunciado na delicadeza do orvalho, aveludará os lábios. Abrigados do despudor dos excessos verbais ― numa escrita iconográfica temperada pela ternura ― eles leem mais que os olhos. Muito mais. Porque as palavras, cegas pelas escamas do ruído, nem vislumbram.

Ensaiando a arte dos vislumbres, Bruno Pinto inspira-se numa antologia que lhe fornece uma inspiração-em-lucernário, fértil, aliás, noutros nomes, aos quais invoca auxílio para tatear o rosto de Deus. Que antologia será essa? Nem mais: Verbo. Deus como interrogação na poesia portuguesa, cuja seleção e prefácio são da autoria de José Tolentino Mendonça e Pedro Mexia (Mendonça, Pedro Mexia 2014). Serve-lhe de fundal, cuja afinidade parafrástica se reconhecerá no subtítulo do seu estudo: Interrogação poética do combate na liturgia. Também ele, não sem brincar com o fogo, se confronta com a questão de Deus, no âmbito da liturgia. Sem rasgões por costurar, a pergunta de fundo permanece. Como pano ou chão palmilhado, entre a poesia e a liturgia. Tolentino Mendonça e Pedro Mexia, na sua antologia, formulam assim, na Explicação, o campo epistemológico da pergunta que, por mais tentativas que se façam, jamais obterá respostas claras e distintas num desfecho apaziguante: «Deus como interrogação, assim se chama a antologia, porque Deus existe, na poesia como na vida, em modo interrogativo, mesmo para quem tem fé. Esta não é uma antologia para crentes ou para não-crentes, é uma antologia de poesia que dá exemplos de um tema, de um motivo, de uma obsessão, exemplos portugueses, numa época que também nos deu Claudel, Eliot, Luzi ou Milosz, poetas com uma questão, com uma pergunta, com uma pergunta que nunca está respondida» (Mendonça, Pedro Mexia 2014,13).

Marc Chagall

[Baixo revelo, em gesso, esculpido por Marc Chagall. Batistério da Igreja de Notre-Dame-de-Toute-Grâce du Plateau d’Assy (1937-1946), Alta Saboia, França © Fotografia: Joaquim Félix]

Para a aproximação à luta desiderável, Bruno Pinto alteia o pórtico da antologia, não porque seja antiga, mas porque deseja aproximar-se ao modo de Deus ser, interrogação permanente, através do combate na arte e na liturgia. A interrogação poética persiste, caso a caso, no radical rizomático, mas em declinações oblíquas. Por isso, além de revisitar grande parte dos treze poetas contemplados pela antologia, alarga a sua convocação a Adélia Prado, Emily Dickinson, Homero, José Augusto Mourão, Rainer Maria Rilke, Ana Luísa Amaral, Rui Santiago, São João da Cruz, Manuel António Pina e Miguel Torga. Indispensável pareceu-lhe, ainda, a confluência de teólogos, biblistas e místicos como Santo Agostinho, Tomáš Halík, Timothy Radcliffe, Simone Weil, Nuccio Ordine, Angelus Silesius, Gianfranco Ravasi, Walter Kasper, Carlo Maria Martini, Pablo d’Ors, Anselm Grün, Nélio Pita, Paul Claudel e François Varillon. Neste primeiro capítulo, tendo em conta os vincos e a textura da questão, também não poderiam deixar de comparecer à luta do pensar-acreditante filósofos, com destaque para Søren Kierkegaard e Nietzsche, além de romancistas, novelistas e dramaturgos: Agustina Bessa-Luís, José Régio, William Shakespeare. Sem a pretensão de saturar a colação, à qual nunca falta a justa hermenêutica textual e uma reflexão própria, recorreu também ao contributo de ensaístas sobre obras de arte relevantes: Maria João Raimundo Craveiro, Gisela Rosenthal, Maria Helena G. Leal Vieira, João Paulo Costa. E, evitando frequentes oblívios da reflexão teológica, alargou o invitatório a artistas, entre eles, o escultor Rui Chafes.

Maria Helena Vieira da Silva. Rui Chafes

[«Combate» de Maria Helena Vieira da Silva (à esquerda) e Rui Chafes (à direita), na Exposição «Xerazade, a Coleção Interminável do CAM», Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa © Fotografia: Joaquim Félix]

A afluência de todos estes luminares, como fontes na obscuridade da noite, ajudam a glosar com prazer, embora não sem a dor ardente do pensamento, Deus como interrogação na liturgia. Questionamento em gomo intumescido, que floresce e frutifica em perguntas outras, entre as quais, gostaria de sublinhar: «Que beleza é esta que convoca e fere, que permanece e suplica a partida, que dança e se oculta, que atribui um nome novo e abençoa? Não precisaremos, hoje também, de uma dança pugnaz que venha despertar-nos das noites às quais se ausenta ― qualquer que seja ― o sonho de luz?» (pág. 34). As perguntas abrem-se como portas. Portas não apenas para entrar, mas também para que, por elas, se saia em doxologia, esse prado verde-escuro, em devesas e outeiros. Nele, a maiêutica encontra o prazer hínico a cada pergunta que floresce. Não será Deus assim, na obliquidade da vida, a atravessar como um rio, de noite? «Abrir a porta de noite. Aliás, abrir uma porta na noite. Isto é, dar espaço para que Deus a possa habitar, adentrar-se nela e preenchê-la. Só aí há claridade branca do luar e fé sem sofrimento. O que há de nos restar senão o louvor?» (pág. 49). Não poderia ser esse o desfecho da luta? Da liturgia, cujo refrão, em baixo-contínuo, ousaríamos cantar: «Louvado seja o Deus do combate e da vida.» (pág. 49)?

José de Guimarães

[«Combate. O rei mandou que o soltassem» de José de Guimarães, na Exposição «Xerazade, a Coleção Interminável do CAM», Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa © Fotografia: Joaquim Félix]

Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens.

 

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Ano jubilar-800 anos da morte (8)

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O Papa Leão XIV proclamou, desde 10 de janeiro e até final deste ano, um ano jubilar assinalando os 800 anos da morte de Francisco de Assis, ocorrida em 3 de outubro de 1226 – a festa litúrgica é assinalada dia 4. Com esse pretexto, o 7MARGENS publica, até final do ano, nos dias 3 ou 4 de cada mês, uma série de dez textos da autoria de frei Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia. Este é o oitavo texto da série.

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