
Viagem Paris-Roma para falar com o Papa sobre a Laudato Si’. Foto: Direitos reservados.
Alguns falarão de uma peregrinação a Roma e o grupo irá, de facto, ver o Papa. Homens e mulheres – incluindo um bispo, uma actriz famosa, economistas, uma advogada, um investigador jesuíta, agricultores… – puseram-se a caminho para ir falar com Francisco sobre a Laudato Si’. Têm uma pergunta para lhe fazer e esperam dar-lhe também algumas respostas. O 7MARGENS acompanha a viagem com as notas de diário de Elena Lasida, economista.
“Primeiro dia: neste 1 de Setembro, Dia Mundial de Oração pela Integridade da Criação, iniciamos, um pequeno grupo de católicos e não católicos, todos comprometidos com a ecologia, uma viagem a Roma para encontrarmos o Papa.”
É desta forma que a economista Elena Lasida, professora no Instituto Católico de Paris e doutorada em ciências económicas e sociais, começa o seu breve diário, em exclusivo para o 7MARGENS, da viagem de uma quinzena de personalidades francesas, do mundo eclesial e ecológico, que nesta quinta-feira, dia 3, se deverão encontrar no Vaticano com o Papa Francisco.
O grupo inclui, além de Lasida (na foto, no terceiro banco da direita), que esteve já várias vezes em Portugal, o presidente da Conferência Episcopal Francesa e arcebispo de Reims (150 quilómetros a leste de Paris), Éric de Moulins-Beaufort, e a actriz Juliette Binoche (na foto, no último banco da direita, por trás de Lasida), entre outros participantes. A protagonista de filmes como Cópia Certificada, O Paciente Inglês ou Azul assinou há meses no Le Monde, durante a quarentena, um texto conjunto com outras personalidades, apelando a líderes políticos e cidadãos que trabalhem em conjunto no sentido de fazer uma reforma profunda das economias.
“Alguns falarão de uma ‘peregrinação’, mas é sobretudo uma caminhada que se torna um processo de descoberta mútua. As nossas diferenças convergem numa preocupação comum pela sobrevivência do planeta, mas também numa busca espiritual que cada um vive de uma forma diferente”, escreve ainda Elena Lasida no diário de bordo, no momento de atravessar a fronteira entre França e Itália.
Essa busca faz-se, de facto, de várias diferenças. Na viagem, de acordo com a lista feita pela revista católica semanal La Vie, participam, entre outros, o activista Pablo Servigne, especialista em colapsologia e co-autor de How Everything Can Collapse (“Como tudo está a colapsar” – um pequeno manual sobre colapsologia para as actuais gerações) e Valérie Cabanès, advogada, empenhada no reconhecimento do “ecocídio” – conceito sobre o qual o Papa Francisco também tem tomado publicamente posição.
“Mais ligações entre ambientalistas não católicos e a Igreja”
A ideia, explicava no semanário Raphaël Cornu-Thénard (o segundo à esquerda, na foto), um dos impulsionadores do projecto, arquitecto e fundador da Anuncio e do Congresso da Missão, “é construir uma ponte entre a Igreja e o mundo secular, para criar mais ligações entre os movimentos ambientalistas não católicos e a Igreja”. E acrescentava: “Um dos grandes pontos fortes desta viagem verde é a diversidade de perfis. Católicos e não-católicos, homens e mulheres, todos sensíveis às questões ambientais, mas com diferentes níveis de compromisso.”
Além dos nomes já referidos, a viagem inclui ainda Laurent Landete, director-geral adjunto do Collège des Bernardins, Gaël Giraud, padre jesuíta e director de pesquisa do CNRS, Xavier Houot, director ambiental numa grande empresa, Aurélien Gonthier, jovem agricultor da região do Loiret (centro de França), Damien Nodé-Langlois, professor e apicultor, Maxime e Elena de Rostolan, empresários ambientais. O bispo Éric de Moulins-Beaufort junta-se ao grupo já em Roma.
“De facto, se o caminho leva a Roma, o sentido da viagem é tanto o seu ponto de chegada como o caminho que fazemos”, diz Elena Lasida. “O que é interessante nesta fórmula não é apenas o facto de nos encontrarmos com o Papa, mas tudo o que isso gera de encontros entre o grupo. Nada nos apelava a nos reunirmos e fazermos algo juntos, especialmente uma viagem, e nós vamos fazê-lo.”
É esse um dos pormenores que entusiasma e economista, que tem um livro publicado em Portugal (O Sentido do Outro, ed. Paulinas): “É improvável e é muito bonito, porque é exactamente isso que penso estar por detrás da ecologia integral que, no fundo, é uma deslocação, um descentramento, um convite para sair. Na realidade, pomo-nos em movimento juntos, criamos laços, à imagem do ‘tudo está ligado’ da Laudato si’, com a ideia de que hoje há espaço para fazer algo novo.”
No seu próprio itinerário pessoal, Elena Lasida tem vivido essa experiência do movimento, deslocação e descentramento: de origem uruguaia, foi viver para França em 1992; economista de formação, dedicou-se a interrogar a economia a partir da teologia, observando os limites da ciência económica; professora universitária, tem-se dedicado também a trabalho associativo, por exemplo no apoio a estrangeiros indocumentados na região de Paris.
Uma viagem para fazer uma pergunta
A história da viagem deste grupo invulgar, entretanto, começa na reunião dos bispos franceses, em Novembro do ano passado: o novo presidente, Éric de Moulins-Beaufort, quis começar a reunião da assembleia com um dia e meio de debate sobre a questão ambiental, tendo sugerido que cada um dos seus parceiros de episcopado levasse consigo duas pessoas sensíveis à temática.
Em conversa, Raphaël Cornu-Thénard, Laurent Landete e Éric de Moulins-Beaufort propõem-se juntar um grupo e ir até Roma, encontrar-se com o Papa. “O objectivo é perguntar ao Papa Francisco como avalia a recepção deste grande texto que é Laudato si’”, diz o jesuíta Gaël Giraud. Na sua opinião, a encíclica é, “paradoxalmente, talvez melhor recebida nos círculos não católicos do que nos círculos católicos”. Mas o padre Giraud não tem dúvidas: “Esta encíclica é o documento mais importante da Igreja desde o Concílio Vaticano II e implica um ponto de viragem: embora sendo plenamente fiel à tradição cristã, revela e explicita opções muito fortes no seu interior, na relação com a Criação, com outras religiões, com o diálogo ecuménico.”
Giraud, ex-economista chefe da Agência Francesa de Desenvolvimento (2015-2019), foi recentemente recrutado como professor pela Universidade de Georgetown em Washington (EUA) para criar e gerir um centro de justiça ambiental. O centro será dedicado à investigação interdisciplinar com clérigos, leigos, académicos e activistas ambientais, bem como ao aconselhamento de governos e ao diálogo com países do Sul sobre políticas públicas, adianta o La Vie.
“Isto promete!”
No diálogo que certamente acontecerá com o Papa Francisco, Gaël Giraud prevê que haja retorno: “Aqueles que lá estarão, e que não são necessariamente cristãos, podem dizer como recebem a encíclica.” Mas o padre jesuíta gostaria de perguntar ao seu confrade da Companhia de Jesus que agora veste de branco o que ele espera de um grupo como este, “onde há homens, mulheres, clérigos e leigos, pessoas que estão comprometidas com a Igreja e pessoas que não estão… porque esta composição é fiel a um certo estado de espírito da encíclica”.
Raphaël Cornu-Thénard acrescentava, citado pela mesma fonte, que fazer esta viagem no contexto da pandemia “não é insignificante: vimos que a pandemia confirmou, por um lado, o prognóstico de crise, e por outro, o facto de que, se quiséssemos, poderíamos tomar decisões políticas que fizessem a diferença, como fizemos durante o confinamento”. E acrescenta: “Antes, sentíamos que estávamos num rolo compressor e não podíamos fazer nada; com a pandemia vimos que podíamos agir, ou, como diria o Papa, que outro mundo era possível.”
Na altura de passar de um país a outro, Elena Lasida escreve no seu diário para o 7MARGENS: “As partilhas começam quando atravessamos a fronteira entre França e Itália, num magnífico cenário de montanhas e mar. Isto promete!”










