(Este texto reproduz o prefácio do livro De Santo Agostinho a Georges Lemaître. A verdade é filha do tempo. Sapere aude. Pelo século das luzes do catolicismo, da autoria de Vicente Ferreira.)

Capa do livro A verdade é filha do tempo, Vicente Ferreira
Vicente Ferreira percorre um longo itinerário do Bispo Santo Agostinho (354-430) até ao Padre George Lemaître (1894-1966), físico e matemático, acompanhado de uma consolidada bibliografia, resultando numa paciente e honesta investigação.
O autor aparece como um peregrino em busca do sentido pleno da verdade da vida. A metáfora da peregrinação é um dos mais antigos exercícios espirituais. O peregrino é alguém que caminha e espera o encontro. Para tal, partir significa perder os pontos de referência na esperança de ganhar tudo. Neste itinerário espiritual, como «em qualquer aventura, o que importa é partir, não [é] chegar». Assim o escreveu Miguel Torga, no poema “Viagem”, em Câmara Ardente.
Efetivamente, a história da humanidade é uma história da busca da verdade. Em cada época cultural se deram passos significativos na hermenêutica e no encontro com a verdade. Neste sentido, o autor tem razão ao dizer que a verdade é filha do tempo. Todavia, «A fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de O conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio» (J. Paulo II).
O tempo que nos toca viver não nos pode deixar indiferentes para cultivar o sonho da fraternidade universal e da amizade social para «humanizar a humanidade, praticando a proximidade» (Pedro Casaldáliga).
Agostinho em contacto com Ambrósio decidiu-se na procura da verdade e recebe o Batismo, em Milão, aos 33 anos, na vigília pascal do ano 387. Regressou a África e em 391 é chamado pelo bispo de Hipona ao ministério presbiteral, sendo, posteriormente, eleito bispo de Hipona em 396. A sua atividade pastoral expressa-se em muitas dimensões, entre elas, destaca-se a luta contra o maniqueísmo, o confronto com os donatistas, a controvérsia pelagiana, que contribuíram para a sua ampla produção teológica.

Agostinho de Hipona: “Aquelas vozes insinuavam-se nos meus ouvidos, e a verdade infiltrava-se no meu coração…” Na imagem: Philippe de Champaigne, Santo Agostinho (1602–1674)
No apaixonante livro das Confissões, Agostinho narra o seu encontro com a verdade: «Quanto eu não chorei nos hinos e nos teus cânticos, vivamente comovido pelas vozes da tua Igreja que suavemente cantava! Aquelas vozes insinuavam-se nos meus ouvidos, e a verdade infiltrava-se no meu coração, e daí transbordava o sentimento da piedade, e corriam as lágrimas, e eu sentia-me bem com elas». Agostinho e muitos homens e mulheres tiveram a coragem de se levantarem e se encontrarem com a verdade, que é Deus.
De Agostinho a Lemaître é um longo percurso humano, cultural, intelectual e espiritual. Lemaître é o Padre que propôs o Big Bang.
A leitura deste ensaio de Vicente Ferreira provoca-nos na busca permanente da verdade que liberta e que nos impele sempre a recomeçar a peregrinação da vida. É oportuno reevocar Miguel Torga e no seu tom poético convidar o leitor: «recomeça… se puderes, sem angústia e sem pressa. E os passos que deres nesse caminho duro do futuro, dá-os em liberdade. Enquanto não alcances não descanses. De nenhum fruto queiras só metade».
A partir da sentença de Galileu Galilei: «a verdade é filha do tempo e não da autoridade», o autor percorre um caminho sapiencial com palavras verdadeiras em busca de relações respeitosas. Por este caminho, relembrou Blaise Pascal (1623-1662): «sem a sapiência do discernimento, podem facilmente transformar-nos em marionetas à mercê das tendências da ocasião».
Jesus identifica-se como “o caminho, a verdade e a vida”. Na realidade, «Sem caminho não se anda, sem a verdade nada se conhece, sem a vida não se vive» (Imitação de Cristo). A Igreja tem a missão desta diaconia da verdade.
Ao abrirmos o livro de Vicente Ferreira, damo-nos bem conta que: «O livro visto por fora, não mostra nada; por dentro está cheio de mistérios» (P. António Vieira). O itinerário da sua publicação apresenta-nos uma continuidade da tradição, não no sentido da conservação, mas duma identidade que se sucede de geração em geração.
A tradição é memória que permite um olhar de fidelidade no enriquecimento da experiência humana. Dizer a verdade, significa não mentir e por nenhum motivo. Ser honesto é ser simples, isto é, ‘sem dobra ou vinco’ que não transpareça da sua vida alguma atitude de escondimento acerca das regras e das normas a observar.
José Manuel Cordeiro, Arcebispo Metropolita de Braga










