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Matrioska. Boneca Russa
Matrioska (artesanato típico da Rússia). Foto © Etsy.com

[Crónica da Europa]

Desputinização

 

Um dia Putin desaparecerá e os Russos terão a sua terceira oportunidade democrática. Só não sabemos quando, onde e como. E desaparecerá provavelmente devido ao inimigo interno. E, aparentemente, mais em breve do que se pensava.

A 29 de maio a infraestrutura das armas nucleares russas ficou exposta online. A Danwatch e o Der Spiegel revelaram os planos dos locais de mísseis nucleares  — incluindo silos equipados com Avangard: milhares de documentos divulgados vieram do interior da Rússia.

A 26 de maio o helicóptero presidencial foi atacado nos arredores de Kursk. Putin não estava a bordo mas o recado era claro: ninguém é intocável. Não se sabe quem o atacou.

A 7 de maio,Mikhail Mukhin, eletricista de 34 anos, com acesso ao palácio de Valdai, foi encontrado morto no seu apartamento. O incidente foi relatado como uma explosão de gás mas testemunhas presentes descreveram o “cheiro a pólvora” e outros indícios de crime.

Em 25 de abril, um carro armadilhado na cidade de Balashikha, perto de Moscovo, matou o General Yaroslav Moskalik, do grupo de controlo de combate do Estado-Maior das Forças Armadas Russas e que comunicava  directamente com o presidente.

A 30 de março, em Moscovo, uma limousine presidencial foi destruída por uma explosão controlada. Não houve feridos, mas as imagens circuladas pelas redes, alimentaram teorias de que a segurança de Putin está profundamente comprometida.

A  17 de dezembro de 2024, o general Igor Kirillov, comandante das forças da unidade militar Radiológica, Química e Biológica, foi morto num atentado à bomba colocado numa mota, à entrada do seu prédio de apartamentos no distrito de Ryazansky, em Moscovo.

General Igor Kirillov. Rússia

General Igor Kirillov,comandante das forças da unidade militar Radiológica, Química e Biológica. Foto © OSINTdefender (conta X)

Na Chechénia, Ramzan Kadyrov, afastou-se da linha de frente e elevou o filho Adam, a comandante da unidade Akhmat. Talvez uma retirada estratégica, sinalizando que até os aliados de longa data se preparam para um cenário pós-Putin.

Estes trágicos rastos de sangue mostram um poder que começou a ruir; a resiliência heróica das forças ucranianas, e os apoios diretos e as sanções da Europa e EUA corroem o regime cujas fissuras internas denunciam algo mais sombrio: uma guerra silenciosa no seu interior.

Putin entrou na história russa em 1999 para curar as feridas nacionais de um neo liberalismo selvagem que a todos deixou sem salários, excepto a alguns oligarcas. A sua promessa era acabar o caos económico e fazer a Rússia outra vez grande. Foi criando os bodes expiatórios acusados de quererem destruir o Russkiy mir, a “grande aldeia russa”.

Esta é a grande fórmula da ideologia putinista, Russkiy mir, o “mundo comunitário russo”.  Mas em vez de salientar o lado bonito do Sobornost, o lado digamos sinodal das comunidades rurais, a propaganda putinista diz “estão a bater nos russos da Ucrânia” e quando alguém assim grita correm todos com cacetes, foices e ancinhos a bater nos ucranianos.

No planeta Russkiy, Putin ocupa o altar de um czar vitorioso contra o malvado “ocidente coletivo”. Há quem o siga por dinheiro. Num dia é-se chanceler da Alemanha, no outro administrador da Gazprom. Num dia é-se um Zé-ninguém, noutro dia, comentador televisivo.

Mas o que é preciso explicar é o facto de Putin ser admirado por biliões de pessoas como herói que diz aos americanos Go home. Da direita amoral à esquerda moralista, dos génios da tecnologia como Elon Musk até ao último dos pacifistas do Butão, todos se unem em torno da máxima de que” o inimigo do meu inimigo é meu amigo”. Triste máxima dos que não querem saber de acordos de paz.

Há movimentos conservadores a afirmar que Putin defende “valores” “morais” e “cristãos” – a instituição familiar, a luta contra os gays e, de um modo geral, aquilo que os observadores que se sentam em cima do muro, e se acham muito espertos, presumem conhecer como o “wokismo”. Então os homens envergonham-se de serem machos? E os brancos estão acabrunhados pelo pecado original do racismo? Até a ex beldade e particularmente estúpida Brigitte Bardot afirmou que Putin fez mais pela conservação da natureza dos animais do que todos presidentes franceses.

Os votantes da direita radical europeia, os Le Pen da vida, os Houellebecq da cultura, e quem faz negócios à sua sombra, afirmam que Putin expõe o vazio moral e a decadência do ocidente. Pois, pois. Sabemos como foram arrasadas Grozny na Chechénia, Aleppo na Síria, e Mariupol e muitas outras cidades na Ucrânia; e como as mulheres foram violadas e as crianças raptadas;  “valores cristãos e morais”, sem dúvida.

Quando o ditador do Kremlin começou a aparecer em 2022 como um anão com a cara inchada pela cortisona, e escondido atrás de uma mesa muito grande, percebeu-se; ninguém fez mais pela expansão da NATO do que ele; conseguiu que a Suécia e a Finlândia  tradicionalmente neutrais, entrassem para a NATO.

Para a população russa “comunitarista”, a grande pergunta é se o czar é a sério ou a fingir e só a vitória pode decidir. Estaline era a sério, e ainda na semana passada fizeram-lhe um monumento no metro de Moscovo. Gorbachev era a fingir porque perdeu a guerra do Afeganistão e a Guerra Fria e muitos russos têm vergonha deste grande homem que ajudou a trazer a paz.

Agora como em 1989-91 a Rússia muda rapidamente todos os dias e está a desmoronar-se, segundo as testemunhas resistentes no interior. As notícias sucedem-se como imagens num caleidoscópio.  A aventura da conquista de Kyiv em 3 dias, não tem sucesso, passados que são mais de 3 anos. Infelizmente ao rasto sanguinolento da guerra, pode acrescentar-se o ajuste de contas sanguinolento dos homens do poder.

 

Mendo Castro Henriques é professor da Universidade Católica e autor de obras de filosofia e cidadania.

 

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