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Lírio amarelo. Joaquim Félix
[lírio amarelo ― / solto pétalas maias / no leito da narração © haiku e fotografia: Joaquim Félix]

[Metáforas vivas]

Do Diário ao tempo nártex

| 19/05/2025

 

[domingo v da páscoa // último dia da semana da vida – c ― 2025]

 

1. Vamos escrever uma nova página no nosso Diário?
É uma proposta, sim, e já veremos a qual caderno me refiro.
Mais do que assentar a vitória do Sporting
ou os resultados das eleições legislativas,
iremos registar atos e experiências da nossa alegria pascal,
que a todos nos faz rejubilar pela vitória de Jesus sobre a morte.
A cada domingo, celebramo-la como um memorial.
Nele, Cristo nossa Páscoa, todos nós já vencemos!
Com toda a natureza, no esplendor de maio, agora a festejamos.

Joaquim Félix

[Do esplendor de maio © fotografia: Joaquim Félix]

2. Rever-vos é fonte de fortalecimento, na fé e no ânimo fraterno.
De verdade o digo: sinto-me entre vós como Paulo e Barnabé,
que, na sua primeira grande viagem missionária,
voltaram a Listra, a Icónio e a Antioquia (At 14, 21).
Estas viagens pelas paróquias, para rezar pelas vocações,
são também elas tangidas pelo sopro do Espírito.
Saliento isto, notai bem, não por aqui na Silva
existir um Seminário da Congregação do Espírito Santo,
mas porque é ele, o Espírito do Ressuscitado,
que nos coloca sempre em saída, proporcionando coisas novas.

Seminário dos Missionários do Espírito Santo

[Seminário dos Missionários do Espírito Santo © fotografia: Joaquim Félix]

3. Coisas novas, sim, com ou sem precedências,
para sairmos das inércias e da paralisia pastoral.
Paulo e Barnabé, perante as resistências e recusas dos judeus,
reconheceram que o Espírito lhes estava a abrir portas.
Efetivamente, quando eles chegaram a Antioquia da Síria,
reuniram a Igreja e contaram «tudo o que Deus fizera com eles
e como abrira aos gentios as portas da fé» (At 14,27).
Que fazemos nós com as circunstâncias desfavoráveis,
a indiferença e a hipercrítica, por exemplo, de tantos batizados?
Estará o Espírito do Ressuscitado a sugerir aberturas outras?

4. Encontrar-nos-emos, porventura, a pensar apenas
em adolescentes e jovens para, mais tarde, estabelecer
no serviço da direção das comunidades eclesiais?
Que fizeram Paulo e Barnabé?
«Estabeleceram anciãos em cada Igreja,
depois de terem feito orações acompanhadas de jejum,
e encomendaram-nos ao Senhor, em quem tinham acreditado» (At 14,23).
Dos anciãos a Igreja desceu até às crianças e adolescentes,
na captação e preparação dos seus presbíteros, por exemplo.
Aqui, no seminário da Silva e em tantos outros seminários,
― como alguém referiu, no encontro em Abade de Neiva ―,
eram imensos os jovens, há quarenta-cinquenta anos.
Estará alguém a pensar, nostalgicamente,
como se fosse possível voltar a esses tempos?
Porventura, insisto, nesta como noutras áreas,
não estará o Espírito de Cristo a sugerir a abertura de portas?

Carvalho. Mata do seminário dos Missionários do Espírito Santo, Silva

[Carvalho folheando-se na presente primavera – Mata do seminário dos Missionários do Espírito Santo, Silva © fotografia: Joaquim Félix]

5. «Contaram tudo o que Deus fizera com eles» (Atos 14,27).
Tal raconto faz-me imaginar, em registo profético, paisagens renovadas.
Sim, como S. João, que via «um novo céu e uma nova terra» (Jo 21,1).
Isto é, para ver coisas novas, precisamos de nos narrar:
de convocar os irmãos para nos dizermos como «história»,
contando o que de belo Deus tem feito connosco e com os outros.
Assim narraremos as portas que Deus vai abrindo,
quando nos deparamos com adversidades e tribulações.
Porque vivo e solícito aos desafios de cada tempo,
admitamos que, por aqui e neste «agora»
― na escatologia presente, isto é, onde o futuro se decide ―
há um mundo antigo que desapareceu (Ap 21,4).
Tudo isto se cumprirá definitivamente na escatologia final;
porém, esse processo de renovação está já a acontecer.

Flor. Primavera. Joaquim Félix

[Esse processo de renovação está já a acontecer © fotografia: Joaquim Félix]

6. Como e em que lugares poderíamos contar
as nossas histórias qualificadas pela bênção de Deus?
Na liturgia romana, durante os primeiros séculos,
os cristãos dirigiam-se para um «ponto de encontro», uma igreja;
depois, seguiam para outra, a cantar, onde celebravam a Eucaristia.
Este estilo de celebração ficou conhecido por «liturgia estacional»,
porque celebravam na igreja onde paravam, na «estação».
É algo que, embora residualmente, ainda se observa:
na quarta-feira de cinzas, por exemplo,
o Papa preside à liturgia e faz o trajeto, na colina do Aventino,
entre a igreja de Santo Anselmo e a basílica de Santa Sabina.

Abadia de Santo Anselmo, Roma

[Torre da igreja abadia de Santo Anselmo, Roma © fotografia: Joaquim Félix]

7. Tendo conhecimento deste estilo romano
e de outras formas de «preparação espiritual antes da missa»,
pergunto: nas comunidades de que fazemos parte,
não se poderia realizar um momento de transição,
antes da missa, para contar o que Deus tem feito connosco?
Seria um tempo nártex, em lente, para celebrar com mais gratidão.
A narração das nossas histórias não abriria portas da fé,
para sair de muitas expressões nostálgicas e adversativas?
Aquele que está sentado no trono dizia:
«Vou renovar todas as coisas» (Ap 21,5).
Não estará Ele a renovar já, agora mesmo, algumas?

Basílica de Santa Sabina. Roma

[Basílica de Santa Sabina, desde o Jardim das Laranjeiras, Roma © fotografia: Joaquim Félix]

8. Com jovens portugueses e cabo-verdianos,
por sugestão da Profa. Alzira Fernandes,
ontem à noite, vi o filme «Páginas de liberdade» (2007).

Sem adiantar em demasia, posso contar-vos que a Erin,
no seu primeiro ano de docência,
foi colocada numa escola com imensos problemas,
resultantes de discriminações raciais,
guerrilhas de gangs e muitas outras precariedades.
Todos os seus alunos tinham histórias cruéis.
Sirva a primeira frase do filme para depreender as violências:
«Foram disparados tiros».
E, num cartaz, lê-se: «Não há justiça. Não há paz».
Pois bem, a professora acreditou contra tudo e contra todos.
Deu-lhes a ler o Diário de Anne Frank (1947),
e, entre outras iniciativas, ofereceu cadernos aos alunos
para que pudessem ir escrevendo a sua história de vida.
Com os Diários, que vieram posteriormente a ser publicados,
os alunos aprenderam a ler a vida, a sua e a dos outros.
Puseram-se à busca da sua inteireza, narrando-se.
E, depois de um «concerto para a mudança»
e do «curso de escrita catártica» brindaram… à mudança.

Pássaro. Joaquim Félix

[Brindar à mudança © fotografia: Joaquim Félix]

9. Este filme abre portas contrafogo,
não só para trabalhar com os jovens,
mas também para que todos aprendamos a praticar
a palavra de Deus, que fermenta a vida com o amor.
Poderemos, também nós, desarmar as palavras e os gestos?
Por certo, narrando em nossos diários, escritos ou por escrever,
as nossas vidas, contando tudo o que Deus faz connosco.
Este exercício, a fazer-se antes da missa,
poderia ser catártico, gerador de páginas de liberdade,
segundo o Espírito de Cristo, que faz respirar no Aberto.
Sem ser uma «máscara otimística»,
esse tempo libertar-nos-ia até do pessimismo antropológico.

10. Para nos abrirmos às novidades emergentes,
― inclusive à proposta deste rito de transição ―
bastar-nos-ia que vivêssemos do «mandamento novo» (Jo 13,34),
conforme Jesus exorta os seus discípulos,
sentado à mesa da Eucaristia, depois de lhes ter lavado os pés.
Carinhosamente, como mais não podia,
Jesus confia-nos, no seu testamento espiritual, ao amor:
«Como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros» (Jo 13,34).
É por este estilo que seremos reconhecidos como cristãos
como assim sucedeu em Antioquia da Síria (cf At 11,26).

11. Vendo sintonias temáticas com um artigo
escrito pela diretora pedagógica de um colégio,
a propósito da minissérie britânica «Adolescência»,
criada por Jack Thorne e Stephen Graham,
gostaria de reler aqui este parágrafo:

«É precisamente esta ausência de histórias,
de laços, de relações genuínas que é necessário combater,
visto que na escola, como em casa ou noutros contextos sociais,
há poucas conversas entre adolescentes, entre professores, entre pais
e este mutismo, tão característico da sociedade contemporânea,
é na minha ótica o cerne da questão.
Pode-se estabelecer um paralelismo
entre a morte da jovem e a morte/decadência
a que as diferentes estruturas sociais estão votadas
(família, escola, igreja, grupos socioculturais e desportivos, entre outros),
quando não desempenham as suas funções
– acolher, escutar, aceitar, valorizar e promover a aprendizagem
e o desenvolvimento de múltiplas competências» (Cidália Teixeira).

Comboio. Joaquim Félix

[Comboio visto desde a mata do seminário do Espírito Santo, Silva © fotografia: Joaquim Félix]

12. Para terminar com um salto disruptivo,
queria dizer-vos que gosto de subir à mata do seminário da Silva,
donde aprecio a paisagem atravessada por comboios
― a transportar também grafitos urbanos ―
e me delicio a contemplar pequenas flores e plantas.
Além disso, visito uma escultura de Maria
instalada num carvalho secular.
Sem ser para esta invocação em particular,
mas para Nossa Senhora da Ternura,
gostaria de vos propor a audição de um responsório,
cuja música foi composta por Alfredo Teixeira,
que, como aluno, viveu três anos neste seminário.

Ah! meus olhos lentos rutilam
em quarto crescente ao teu sol
à luz das nações

Estende o véu para que se veja
em teu peito noturno a estrela
à luz das nações

Senhora da ternura, no teu olhar
meus olhos enchem-se dos seus
à luz das nações

 

Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens. Este texto corresponde à homilia do domingo, 18 de maio, domingo v da páscoa e último dia da semana da vida , proferida na igreja paroquial de Silva, Barcelos, onde se encontravam também pessoas das paróquias de Abade de Neiva e Vila Boa, que formam uma unidade pastoral.

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