Um ensaio

Do Silêncio

| 10 Jun 2023

Professor catedrático aposentado, do Instituto de Educação da Universidade do Minho, Alberto Filipe Araújo tem uma profícua reflexão sobre o silêncio, tendo publicado as obras Silêncio. Iniciação e Transformação e O Poder do Silêncio. Ensaio e Testemunhos (editadas pelo Instituto Universitário da Maia em 2018 e 2021). Com os dois livros pretende contribuir para uma iniciação ao silêncio, uma introdução sempre passível de lançar a inquietação e a reflexão. Agora, é o comissário de um ciclo de conferências a realizar em Braga com múltiplos convidados portugueses e estrangeiros que têm igualmente reflectido sobre a questão do silêncio – David Le Breton inaugurou a iniciativa. O texto escrito para o 7MARGENS permite alargar esta sensibilização para o silêncio.

 

Homens a pescarem em silêncio mas águas azuis sob um manto de nuvens no mar de Visayan, nas Filipinas. Foto © Vyacheslav Argenberg / http://www.vascoplanet.com/, CC BY 4.0 <https://creativecommons.org/licenses/by/4.0>, via Wikimedia Commons

Homens a pescarem em silêncio mas águas azuis sob um manto de nuvens no mar de Visayan, nas Filipinas. Foto © Vyacheslav Argenberg / http://www.vascoplanet.com/, CC BY 4.0, via Wikimedia Commons.

 

Num mundo submerso por tantos ruídos ensurdecedores (recordando Erling Kagge e o seu livro Silêncio. Na era do ruído – 2017), a procura de pequenos oásis de silêncio(s) torna-se, em cada dia que passa, mais necessária e urgente. O silêncio não é um luxo terapêutico, da moda mindfulness, mas antes indispensável ao bem-estar espiritual de cada um de nós: o meditar, o ser criativo ou imaginativo, o contemplar, o ato de autoconsciência, tudo exige silêncio. No entanto, tal não significa que aspiremos e celebremos o(s) silêncio(s) acriticamente porque se há silêncios de oiro, também há aqueles que são de chumbo (o silenciamento das vítimas de todo o tipo de abusos e de torturas, por exemplo). Nem todos os silêncios são inocentes.

Na sociedade ruidosa da hiperinformação e da comunicação, o silêncio “passa (…) a ser um vestígio arqueológico, um resquício que ainda não foi assimilado” (David Le Breton), que urge, pois, contrariar, desmistificar na medida em que a palavra desligada da fonte originária do silêncio se empobrece, se estiola num mero mecanismo semiológico, longe, portanto, da sua semântica em que a “metáfora viva” (Paul Ricoeur) é um dos seus arautos mais avançados e convincentes. O imperativo de tudo dizer, de tudo comunicar em nome da transparência, não deixa de ser “uma acusação contra o silêncio, bem como uma erradicação da nossa interioridade” (David Le Breton). 

Nos tempos barulhentos e cacofónicos atuais, a razão de ser da iniciativa de trazer a público esta temática é um passo na direção de se criar uma comunidade com momentos de tipo claustral que encara o(s) silêncio(s) como um fenómeno que se diz de vários modos e tonalidades. Por outras palavras, como um fenómeno que fala, que também se expressa através de vários tipos de linguagens: cinematográfica, teatral, religiosa, filosófica, literária, poética, da pintura, arquitetura, da dança, etc… Assim, o silêncio fala e diz-se, o que implica sempre um ouvinte, alguém que o escute pacientemente. Nem sempre aquilo que diz é positivo (o silenciamento da vítima do medo, da censura e da tortura), o silêncio da solidão, o silêncio do esquecimento, o silêncio dos surdos, mas também o silêncio se diz e se faz ouvir de modo positivo, terapêutico, libertador, até mesmo como via da meditação e de uma vivência espiritual ativa. Numa palavra: ele é “uma modalidade do sentido” (David Le Breton) com tudo aquilo que implica este tão importante conceito na tradição hermenêutica.

Mais do que falar de silêncio no singular, com mais propriedade devemos falar de silêncios no plural, na medida em que o silêncio se diz de múltiplos modos. Sob esta perspetiva, o silêncio interior, protegido já pelo silêncio exterior, é tratado numa linha eminentemente espiritual e atenta ao seu movimento filosófico. Ele é tratado particularmente de forma positiva na sua relação com o Ser, de que o silêncio das coisas, o silêncio da alma, o silêncio divino, entre outros, é exemplo. Correlativamente, a forma positiva do silêncio significa que ela aponta para a trilogia da ordem, da paz e da harmonia. Encaramos o silêncio como uma necessidade do homem integral, quer dizer, de toda uma necessidade simultaneamente física, psicológica, intelectual, moral ou espiritual. 

 A busca e a vivência do silêncio é algo de crucial na nossa era do ruído, para que cada um de nós re-encontre o seu caminho face aos desafios da existência, do mundo e até mesmo no plano profissional. Neste contexto, não pode deixar de se estranhar que, numa sociedade/época cada vez mais barulhenta, em que a tecnologia e os bens materiais deixam na penumbra a ordem do ser para sacralizar a ordem do ter (recordando aqui a obra conhecida de Erich Fromm), tenhamos escrito duas obras em que o tema do silêncio, com tudo o que ele implica ou pressupõe, aparece como tema de eleição.
 

Sauve qui peu la vie (1980) de Jean-Luc Godard é o retrato de uma sociedade atual individualista. Foto: Direitos reservados.

Sauve qui peut la vie (1980) de Jean-Luc Godard é o retrato da sociedade atual individualista. Foto: Direitos reservados.

 

A sociedade atual, consumista (no sentido do ter em crescendo), hedonista (a absolutização do prazer instantâneo), líquida (no sentido que Zygmunt Bauman lhe atribui: as relações sociais, económicas e de produção são frágeis, fugazes e maleáveis, como os líquidos), individualista (recordando o filme de Jean-Luc Godard – Sauve qui peut la vie – 1980), relativista (o tema dos valores: em que tudo se torna uma questão de ponto de vista e circunstância), acelerada (caraterizada por um ritmo temporal e de vida estonteante com todas consequências que daí derivam, como explica Hartmut Rosa na sua obra Aceleração – 2013), tornou-se, em resumo, uma sociedade da violência, uma sociedade da transparência, uma sociedade da exclusão, da expulsão do outro, uma sociedade do poder, uma sociedade da agonia do eros, uma sociedade prisoneira da panóplia virtual, das redes sociais e da digitalização, enfim, uma sociedade do cansaço e mesmo uma sociedade cada vez mais des-ritualizada, para recordarmos alguns dos títulos e análises sugestivas de Byung-Chul Han.

Uma sociedade, com as caraterísticas atrás apontadas, é uma sociedade à deriva, que teima em descartar o divino em nós (Emmanuel!) de tal modo que o homem, qual náufrago à deriva (pensamos na obra de Hans Blumenberg, Naufrágio com espetador, 1979), mergulha num enorme vazio que é uma provação angustiante e opressora. É, pois, para contrariar este afundamento existencial tanto psicológico como ontológico, em que o sentido da existência (recordando também o espírito da obra de Viktor Frankl intitulada justamente O Homem em Busca de um Sentido – 1946) se desvanece e fragmenta, que a via do silêncio interior, da quietude e da meditação deve ser estudada, refletida, vivenciada e praticada (recordando o espírito e as preocupações da “Asociación Amigos del Desierto”, fundada pelo Padre Pablo D’Ors). Aquilo que importa na verdade, de acordo com Pablo d’Ors, é caminhar na experiência do silêncio interior tal como foi vivida pelo Padres do Deserto e em particular pela tradição hesicasta que visa a prática, o aprofundar a meditação e a oração contemplativa. Uma meditação, baseada na trilogia corpo-silêncio-palavra, a que Pablo d’Ors não deixa de prestar uma atenção privilegiada no interior da Associação, acima mencionada.

O livro Silêncio. Iniciação e Transformação (2018)

O livro Silêncio. Iniciação e Transformação (2018)

Como pensar bem, como atingir um estádio de consciência aquietado quando o ruído exterior e o ruído interior são omnipresentes e se constituem mesmo como intrusos devastadores da nossa intimidade e do nosso equilíbrio psicoemocional? Como viver bem, no sentido da “vida boa” que a Ética a Nicómaco de Aristóteles lhe confere? Como desenvolver um tipo de inteligência emocional (Daniel Goleman) nos diversos planos da vida, nomeadamente no trabalho, quando a nossa mente está sobrelotada por mil informações, preocupações, ocupações, …? Não representará a força do silêncio interior um dos melhores antídotos contra a ditadura do ruído, como se interroga o Cardeal Robert Sarah na sua obra, editada também em Portugal, A Força do Silêncio. Contra a ditadura do ruído (2017)? Como atingir um estádio de quietude propício à reflexão, ao exercício da autoconsciência, ao devaneio poético quando a mente humana (que não a consciência) está em constante ruído? Face ao conjunto destas interrogações, e de tantas outras que poderíamos colocar, somos levados a colocar uma questão incontornável, uma interrogação que não cessa de se impor: quando evocamos o conceito de silêncio, de silêncios, afinal de que estamos nós a falar? Se o silêncio exterior é cada vez mais uma raridade, a via longa do silêncio interior é, recordando os ensinamentos de Krishnamurti, é uma espécie do “caminho das pedras” por ser um caminho de difícil acesso e de muito poucos: o silêncio interior, ainda que o ruído possa soprar, na sua plenitude é sempre um instante raro. Para saborear o silêncio é necessário que aquele que o vivencie se funda com ele: 

O silêncio daquela manhã enquanto olhavas para a árvore maravilhosa era diferente. Não era o oposto do ruído, embora houvesse carros a subir a colina e um camião a engatar mudanças. Esse barulho estava lá, mas não tinha qualquer relação com o silêncio instalado. Não estava entre ti e a árvore, estava apenas lá. E tu permaneceste. Não como observador. Tu nem estavas lá. Se estivesses, o silêncio não existiria, a árvore seria uma árvore como qualquer outra. Mas porque não estavas lá, o silêncio estava. E enquanto te afastavas da janela para continuar a fazer o que tinhas para fazer, o silêncio transformava-se em pensamento e em ação (Krishnamuri, Como Pode a Mente Estar Quieta, 2021, p. 235).

O silêncio é, à semelhança de outros, um conceito deveras armadilhado porque não deixa de apontar para significados, tradições religiosas e filosóficas, visões e vivências múltiplas. Um conceito que também ele se diz através de metáforas, de ideias e de pensamentos. Assim, ao tratarmos neste Ciclo de conferências de um tema tão desafiante como complexo, interrogam-se certamente alguns que nos leem, se não estaremos já abrindo a porta a modismos, do tipo mindfulness, e até, no limite, a uma espécie de retorno do religioso e mesmo de uma prática e filosofia, com especial destaque para a corrente zen (o Zen budismo), em que a meditação desempenha um papel fundamental. Mas mesmo aqui, de que tipo meditação estamos a falar? Há, como sabemos, todo um leque de meditações: a religiosa, a filosófica, a psicológica, etc. Deste modo, deveremos talvez perguntar-nos se, quandoo(s) silêncio(s) se torna(m) objeto de reflexão, de discussão, de diálogos intermináveis, de livros e de artigos, não se trata de algum modo já de alfabetizar o silêncio. Serão estes passíveis de se traduzirem em linguagem? Se sim, de que tipo de linguagem eles se revestem? Ou, recordando Tolentino de Mendonça, não seremos analfabetos do silêncio(Revista Expresso, nº 2224, 2015)? Não será já, de algum modo, toda uma peça silenciosa, evocando aqui também John Cage e a sua peça intitulada 4’33’’, pontuada de sons para serem, de uma forma ou de outra, ouvidos? Esta peça, já por si, uma expressãoda relação entre música e silêncio, convida a uma intimidade e cumplicidade e que, em última instância, pretende dizer que não há silêncios puros. 

Daí que, na companhia do mesmo Tolentino de Mendonça, “precisamos de uma iniciação ao silêncio, que é o mesmo que dizer uma iniciação à arte de escutar”. Uma arte cada vez mais rara como, aliás, Herman Hesse nos alerta no seu Siddhartha (1982) quando se refere a uma das qualidades maiores de Vasudeva, o barqueiro do seu conto indiano:  

Uma das grandes virtudes do barqueiro era saber ouvir, coisa que acontecia a poucos. Embora Vasudeva não proferisse uma palavra, Siddartha sentia que ele escutava todas as suas, serenamente, interessadamente, sem lhe escapar nada. Não esperava coisa alguma com impaciência e não elogiava nem censurava; ouvia apenas. Siddartha achou maravilhoso ter semelhante ouvinte, capaz de se absorver na vida de outra pessoa, nas suas lutas e seus desgostos.

O livro O Poder do Silêncio. Ensaio e Testemunhos (2021)

O livro O Poder do Silêncio. Ensaio e Testemunhos (2021)

O silêncio interior como condição de escutar-nos a nós próprios, de escutarmos o nosso próximo, de escutarmos o grito e os murmúrios da natureza, do mundo e da vida. Quantas vezes ouvimos, mas não escutamos, quantas vezes olhamos sem ver? Quantas vezes falamos palavras soltas ignorando que a palavra que vale provém da permanência 

no silêncio e que só no silêncio poderia amadurecer. É revelador, portanto, o facto de que a palavra só possa ser compreendida de modo justo quando se adentra também num tipo de silêncio, de silêncios fecundantes. A palavra que vale a pena carece também ela de uma iniciação para que se aprenda a escutá-la a partir dessa sua permanência no silêncio. O seu sentido metafísico e espiritual é propedêutico à palavra que se diz na linguagem e sem a qual o silêncio morreria na praia. Por isso, podemos afirmar que o silêncio assume um papel importante na sua relação com a linguagem e com a própria palavra e vice-versa: “O silêncio e a palavra não são contrários, um e outro” como nos lembra David Le Breton, ambos “são activos e significantes, o discurso não pode existir sem a sua ligação mútua” (Do Silêncio, 1998, p. 17). Digamos que se o silêncio interior alimenta, vivifica a palavra, esta dá-lhe forma através das suas figuras semânticas ou tropos de que a metáfora e o oxímoro se revelam bons exemplos.

Por fim, foi nossa intenção, com as nossas obras inicialmente citadas, sensibilizar o leitor, iniciado ou não, para uma temática, ainda que complexa e até por vezes árida, mas tão essencial como fundamental, quando o ser do humano aspira ao divino na plenitude do silêncio. Eis-nos, pois, perante um conjunto de conferências centradas na meditação, na interioridade, numa ontologia já tão submersa na turbulência das coisas e do ruído comunicacional em todas as suas expressões. Se é verdade que, como atrás dissemos, toda uma iniciação ao silêncio e à meditação se impõe, não é menos verdade que, como nos ensina Kierkegaard, uma catarse do silêncio é não só desejada como até bem-vinda! E porque não terminar com alguns versos de Alberto Caeiro, do seu poema O Guardador de Rebanhos, que parecem, aliás, bem resumir o espírito do silêncio e da meditação: “O essencial é saber ver, //Saber ver sem estar a pensar, //Saber ver quando se vê, //E nem pensar quando se vê, //Nem ver quando se pensa. //Mas isso (triste de nós que trazemos a alma vestida!), //Isso exige um estudo profundo, //Uma aprendizagem de desaprender”. 

À luz do que que precede, algumas questões ressaltaram e que podem contribuir para elucidar algumas interrogações suscitadas pela temática do silêncio.

  1. Qual o valor do silêncio na sociedade do século XXI? Ela só fala, não sabe ouvir?

A sociedade do século XXI é amante da comunicação, da informação mediada por uma panóplia enorme de redes sociais que tende a fazer da palavra uma cacofonia de signos em detrimento da palavra que fica e do símbolo que convoca. Numa “sociedade espetáculo” (Guy Debord), que sobrevaloriza o par comunicação-informação, o tempo e o espaço para o silêncio fica drasticamente secundarizado, reduzido mesmo a uma caricatura face ao poder sacrossanto da circulação da palavra e do audiovisual, bem como da omnipresença do virtual nas suas mais diversas manifestações. A sociedade atual, que uns designaram de “pós-moderna”, fez da palavra das redes sociais que a medeiam o seu deus de adoração. Neste sentido, a sociedade do nosso século muito fala, pouco acerta e muito pouco escuta.Daí toda a necessidade de se refletir sobre uma pedagogia do silêncio que implica necessariamente um saber escutar, um saber ouvir como contemplando a palavra dita para depois ela ser “ruminada”. Só uma palavra “ruminada” purificada num silêncio redentor vale a pena ser pronunciada e, por conseguinte, esgotada. Neste contexto, a sociedade do século XXI, só fala, pensa pouco, ou não pensa de todo e, por conseguinte, tem um défice muito grande de escuta já que implica toda uma pedagogia que ela desconhece. Daí não ser para admirar que na sociedade atual o ruído incessante esconda a banalidade e a espessura das relações interpessoais, da mesma maneira que o “fazer silêncio” pareça uma atitude perigosa, ameaçadora e por que não excêntrica: “A tagarelice nervosa que ocorre para cobrir até mesmo períodos breves de silêncio no interior de um grupo é uma manifestação disso mesmo” (Sara Maitland, O Livro do Silêncio, 2011, p. 186). Deste modo, impõe-se toda uma arte de escutar tal como nos ensinou Francesc Torralba na sua Arte de Saber Escutar (editado em Portugal em 2010).

As denominadas Torres do Silêncio, em Yazd, no Irão. Foto © Julia Maudlin from Lake Oswego, Oregon, USA, CC BY 2.0 <https://creativecommons.org/licenses/by/2.0>, via Wikimedia Commons

As denominadas Torres do Silêncio, em Yazd, no Irão. Foto © Julia Maudlin from Lake Oswego, Oregon, USA, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons

 

Numa sociedade onde o ruído e a comunicação se tornaram moeda de troca corrente tratar do tema do silênciopode parecer, à primeira vista, estranho senão mesmo exótico. No entanto, o silêncio é um tema universal, arquetipal ou arquetípico, diria Carl Gustav Jung, que nunca deixou de ser tratado ao longo do século XX, ganhando mesmo neste início do século XXI uma atenção considerável. Admitindo ainda que seja próprio da natureza do silêncio resistir “a todas as tentativas de falar sobre ele, de tentar teoriza-lo, explica-lo, ou até mesmo descrevê-lo” (Sara Maitland, O Livro do Silêncio, 2011, p. 45), nós, pelo nosso lado, erigimo-lo como um dos temas angulares da vivência humana e da alta espiritualidade. Não se trata aqui de refletirmos sobre um silêncio qualquer ou circunstancial, mas antes do silêncio interior que é um silêncio espiritual impregnado, dirámos, de potencialidades infindas. Um tipo de silêncio coberto pelo seu véu impenetrável que a palavra não tem que saber somente romper, mas sobretudo merecer rompê-lo. A palavra proclamada tem que ser merecedora de irromper através da densidade do silêncio que parece, lembrando John Cage na sua composição 4’33’’, datada de 1952, ouvir-se quando não há nada para escutar. A densidade do silêncio nem sempre está à espera de ser estilhaçada pela linguagem porque acontece tantas vezes que ela, na sequência da morte, anuncia a presença do silêncio eterno como um “enorme e cálido nada” (Sara Maitland, O Livro do Silêncio, 2011, p. 267).

2) E qual o valor pedagógico do silêncio?

Importa, portanto, que uma pedagogia do silêncio tenha consciência que a Palavra brota de um pensar silencioso reflexivo e tende a ele regressar na medida em que “O silêncio é como uma meditação sobre esta palavra [o autor refere-se à palavra absoluta]” (1954: 25). O que significa que silêncio vital e Palavra absoluta alimentam entre si a Palavra iniciática e uma pedagogia desta Palavra deve valorizar o sentido iniciático. Este tipo de sentido, além de ser transmitido metafórica e alegoricamente, a maior parte das vezes, pelo Mestre ao discípulo, também incita a que o Mestre confronte o próprio discípulo com a sua interioridade, ou seja, com a pessoa que se é. Uma pedagogia que, ao valorizar a Palavra vital, contribui para uma “visão do mundo” construída na base da alteridade desse mesmo mundo e da reflexão de si-mesmo. Um Mestre espiritual é sempre um pedagogo carismático que deve ensinar o seu discípulo a viver entre o silêncio e a Palavra: um silêncio de ouro e uma Palavra libertadora e criativa. 

"Espaço entre a Palavra e a Cor", memorial do centenário de Sophia de Mello Breyner Andresen com painéis de azulejos desenhados por Menez, inaugurado em Dezembro de 2019, situado no Terreiro das Missas, Avenida de Brasília, em Lisboa. Foto © GualdimG, CC BY-SA 4.0 <https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0>, via Wikimedia Commons

“Espaço entre a Palavra e a Cor”, memorial do centenário de Sophia de Mello Breyner Andresen com painéis de azulejos desenhados por Menez, inaugurado em Dezembro de 2019, situado no Terreiro das Missas, em Belém, Lisboa. Foto © GualdimG, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

Neste contexto, não admira que uma pedagogia do silênciose revele necessária para reconduzir de novo a Palavra à sua matriz originária – o silêncio interior. E em que consiste esta pedagogia do silêncio? É realmente diferente de uma cultura escolar e académica que supostamente atribua um valor sacrossanto ao domínio da palavra que não da Palavra, da recitação cacofónica que não do pensamento criativo e crítico, da visualização e da imaginação reprodutora que não da imaginação criadora e transformadora utópica, do resultado produtivo, calculador e quantitativo que não da meditação crítica.O silêncio interior não pode permitir negligenciar, ou dispensar, uma pedagogia do silêncio que ensine o valor do e a importância do silêncio interior em ordem que a Palavra se faça de novo ouvir como “poder da palavra” e não como “palavra do poder” (Philippe Breton, Éloge de la parole, 2007: 6-7), como lugar de diálogo interior e, consequentemente, lugar de realização integral da pessoa (Philippe Breton, Éloge de la parole, 2007: 48-62). Por outras palavras, uma cultura escolar e académica que faz do silêncio e da reflexão interiores uns proscritos em detrimento quer de um aparente silêncio exterior, quer do verbo oral e escrito, a maioria das vezes acrítico, mediatizado pela récita visual ou expositiva, como se de salvíficas revelações se tratassem, está condenada a perder-se na miragem das suas próprias técnicas (Philippe Breton, Éloge de la parole, 2007: 32-47). Vemos assim que a pedagogia do silêncio deve ensinar que o sujeito re-aprenda a não ter medo do silêncio (Francesc Torralba Roselló, El silencio: un reto educativo, 2001: 38-47), que não tenha medo de escutar-se, de pensar e de pensar-se, mesmo que o pensamento, como o disse Alberto Caeiro no seu poema “O Guardador de Rebanhos”, incomode: “Pensar incomoda como andar à chuva/ Quando o vento cresce e parece que chove mais” (Pessoa, Fernando Pessoa. Poemas escolhidos de Alberto Caeiro, 2014,p. 20). 

 

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