
Rembrandt, O Sonho de José, 1645, Gemäldegalerie, Berlim.
Estamos a poucos dias de celebrar o Natal. Muito provavelmente, pelo menos no mundo ocidental, milhões e milhões de pessoas empreendem uma corrida desenfreada para comprar presentes, escolher um pinheiro juntamente com os seus enfeites, montar algures um presépio, trocar mensagens festivas, planear e preparar uma festiva refeição, incluindo os tradicionais bolos e doces, receber calorosamente os amigos e familiares nos seus lares e, por fim, fazer a tradicional troca de presentes entre todos. Tudo isto para supostamente recordar e festejar o nascimento de um menino ocorrido há cerca de dois mil anos em Belém da Judeia. Mas que significado terá para nós hoje o Natal de Jesus?
Antes de mais começaríamos por dizer que, conforme indicou o famoso exegeta padre Raymond Brown, para se compreender bem as narrativas do Natal, temos de nos lembrar que os evangelhos não se destinavam a ser biografias históricas, mas sim proclamações das boas novas da salvação na vida de Jesus. Assim, a importância dessas narrativas da infância não reside na historicidade precisa dos acontecimentos, mas no que elas nos mostram acerca de Jesus, ou melhor, sobre aquilo que os cristãos creem acerca de Jesus. Uma das peculiaridades dos Evangelhos de Mateus e de Lucas, escritos algures entre as décadas de 80 e 90 do século I, é a sua cristologia, que se reveste já de especial significado ao revelar aos seus leitores que Jesus, desde o seu nascimento, é o Filho de Deus, e o Deus connosco (Lucas 1:31, Mateus 1:23).
Sabe-se que os primeiros cristãos, pelo menos até ao terceiro século da nossa era, não celebravam o Natal. O próprio dia 25 de dezembro, o dies solis invicti nati (o dia do nascimento do sol invictus), era um dia festivo popular no Império Romano, que celebrava o solstício de inverno como um símbolo do ressurgimento do sol e o prenúncio da vinda da primavera e do verão.
De facto, depois de 25 de dezembro se ter tornado amplamente aceite como a data do nascimento de Jesus, os escritores cristãos estabeleceram frequentemente a ligação entre o renascimento do sol e o nascimento de Jesus, o Filho de Deus. Até praticamente aos nossos dias, as diversas inculturações pagãs no seio do cristianismo, trataram de travestir a celebração do nascimento de Jesus com outras tradições, que vão desde os cenários de neve dos invernos nórdicos, com os seus pinheiros, passando pela lenda de São Nicolau, do qual se diz que terá sido muito generoso para com as crianças e jovens desfavorecidos e que está na origem dos nossos hábitos de ofertar presentes uns aos outros, até às fogueiras de Natal, cujas origens remontam às celebrações do solstício de inverno.
Mas a verdadeira história do nascimento de Jesus, se é que podemos chegar a ela através dos evangelhos, pouco ou nada tem a ver com essa sumptuosa imagética com que muitas vezes revestimos as nossas celebrações natalícias. Do que se sabe das condições socioeconómicas das populações da Palestina por altura do nascimento de Jesus, a esmagadora maioria vivia muito perto do nível de subsistência ou abaixo dele, muitos deles endividados, sem as suas terras e praticamente em regime de subserviência e até de escravidão. A família de Jesus, de algures da pequena aldeia de Nazaré, seria plausivelmente tão pobre e humilde como as restantes que faziam parte do ambiente rural da Galileia. O próprio Jesus, segundo o relato lucano, terá nascido num simples estábulo e visitado por humildes pastores, por vezes desprezados por alguns escritos rabínicos que os consideravam cidadãos de segunda-classe.
Neste mundo ocidental há muito secularizado, temos celebrado esse Natal tão romantizado que nos faz esquecer por vezes o verdadeiro núcleo da sua mensagem, o próprio Jesus. Possivelmente nunca conseguiremos entender a encarnação do próprio Deus numa simples, humilde e frágil criança. O primeiro Natal inverte tudo o que possamos entender acerca do nosso Deus, esse que, tal como o apóstolo Paulo escrevia à igreja de Corinto, “que sendo rico, se fez pobre por amor de nós, para que por meio da sua pobreza nós nos tornássemos ricos” (2 Coríntios 8:9). E é interessante que esse menino divino mais tarde, e no início do seu ministério, toma como o seu manifesto a passagem de Isaías: “O espírito do Senhor [está] sobre mim, porque me ungiu para anunciar a boa-nova aos mendigos; enviou-me a proclamar aos presos a libertação e aos cegos a recuperação da vista; a mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar um ano aceitável da parte do Senhor.” (Lucas 4:18-19).
E se retornássemos ao primeiro Natal para celebrarmos esse menino proscrito, cujo caminho descendente é o do encontro, libertação, inclusão e restauração? Afinal, nestes tempos de incerteza, insegurança e sem esperança para muitos, o que verdadeiramente importa, é que nos deixemos guiar por esse menino que é manso e humilde de coração e que cuja mensagem pode afinal transformar a vida de todos nós.
Vítor Rafael é investigador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo, da Universidade Lusófona










