Em busca de Sodoma – Reportagem/Exclusivo 7 MARGENS

| 8 Abr 19 | Destaques, Igrejas Cristãs, Judaísmo, Newsletter, Últimas

No trabalho de reportagem que fez para o livro No Armário do Vaticano (ed. Sextante Editora, Sodoma, na versão original), o jornalista e investigador francês Frédéric Martel incluiu uma pesquisa sobre a busca da cidade bíblica de Sodoma. Esse trabalho acabou por não ser incluído no livro e deu origem a um capítulo que o autor promete publicar na página da Internet dedicada à obra (www.sodoma.fr). Entretanto, os direitos de publicação desta reportagem, para português, foram cedidos pelo autor ao 7MARGENS, que publica a partir de hoje, e durante os próximos dias, esta grande reportagem.

John Martin, A Destruição de Sodoma e Gomorra (1852), Laing Art Gallery, Newcastle upon Tyne, Reino Unido

 

“VOU TRABALHAR AQUI, talvez até ao fim dos meus dias”. Steven Collins é um arqueólogo a quem o tempo não mete medo. O objectivo da sua investigação – a cidade antiga de Sodoma – dataria da Idade do Bronze, há cerca de 5 000 anos: a paciência faz parte da sua profissão.

De fato de caqui de explorador, barba branca bem cuidada, chapéu de cowboy, Collins é um universitário americano, vindo do Novo México. Está rodeado de uma chusma de operários e de assistentes jordanos, que escavam e recolhem minuciosamente, muitas vezes manualmente para evitar eventuais estragos, sob um sol sufocante, quando o encontro em Tall al-Hammam.

Estamos apenas a alguns quilómetros do Jordão, perto de uma vila chamada Al Kafrein, no extremo ocidental de Amã, a capital da Jordânia. A estação arqueológica é bastante difícil de encontrar, mas graças a um condutor expedito e ao meu investigador e tradutor árabe, Abbas Saad, um libanês xiita, estudante em Beirute, que eu trouxe para vir comigo à Jordânia, acabámos por descobrir o local das escavações arqueológicas. Temos de deixar o carro na beira da estrada, perto de uma pequena mesquita isolada, Al-Kulafaa Al-Rachide (a única indicação que tínhamos) e percorrer trezentos metros num longo caminho de terra e de poeira. Uma pequena tabuleta indica-nos que chegámos ao destino: “Tall al-Hammam, Projecto de Escavação”.

Abbas Saad, investigador libanês que trabalho com F. Martel na pesquisa da antiga cidade de Sodoma (aqui, na Jordânia) Foto © F. Martel.

De resto, estranhas escavações. A antiga cidade de Sodoma ali estaria soterrada, no cume de uma colina cheia de pedregulhos. E que paradoxo!

Estamos a trezentos metros de altitude e, no entanto, situamo-nos a 200 metros abaixo do nível do mar. O mar Morto fica a uma dezena de quilómetros, um dos lugares mais baixos e mais secos do planeta. Tall al-Hammam é ainda fértil e bem irrigada pelo canal Rei Abdallah, na ausência de o ser pelo Jordão quase seco.

A perder de vista: as feéricas paisagens bíblicas. Vejo campos de bananeiras e de laranjeiras, oliveiras, quintas onde se cultivam as tâmaras, os pepinos, o funcho, o tomate de grandes dimensões, as cenouras gigantes e, dizem-me, a marijuana.

– Segundo a Bíblia, Sodoma estaria situada “a oriente” do Jordão. Foi por essa razão que coloquei a hipótese, diz-me Collins, segundo a qual a cidade antiga não ficava a ocidente do rio, em território israelita, perto de Ein Gedi, onde às vezes a localizam, nem mesmo na margem oriental do mar Morto, mais a sul, mas em Tall al-Hammam, aqui, a norte do mar Morto. Começámos lá as escavações e descobrimos uma verdadeira cidade. Veja o que encontrámos.

Steve Collins mostra-me galerias, diferentes tipos de caves ou grutas e, recentemente exumados, vasos antigos e objectos antigos. Demos a volta aos estaleiros, várias escavações afastadas uma centena de metros umas das outras, e o arqueólogo aconselha-me a estar atento ao caminhar num terreno acidentado e pedregoso, aos escorpiões e às serpentes negras, particularmente venenosas – a que ele chama simplesmente “serpentes negras”.

A discussão com Steven Collins é bastante prudente, porque funcionários oficiais de um obscuro departamento dos assuntos arqueológicos do Governo jordano e o próprio intérprete estão muito atentos. O arqueólogo americano está sob apertada vigilância.

Para Steven Collis e os arqueólogos ligados às escavações, não há dúvida nenhuma de que o sítio de Tall al-Hammam  é o candidato ideal onde se pode situar Sodoma. Segundo a Bíblia, no Génesis,Lot seria o sobrinho de Abraão (seu irmão ou cunhado segundo a tradição). As duas famílias ter-se-iam afastado, porque os respectivos rebanhos se teriam tornado demasiado grandes. Ao procurar um vale próspero para apascentar os animais, Lot ter-se-ia estabelecido numa cidade perto do mar Morto: Sodoma.

Íntegro, ele teria sido, diz-nos o Antigo Testamento, o único homem “não corrompido” no meio “das gentes de Sodoma” cujo pecado era enorme (a homossexualidade não é mencionada). “Os habitantes de Sodoma eram grandes celerados e pecadores contra Deus”, refere ainda a Bíblia.

Deus, alertado pelo “grito contra Sodoma” decidiu destruir a cidade para punir o vício dos seus habitantes justamente designados os “sodomitas”.

Foram enviados dois anjos para verificar se o “pecado” era verdadeiro. O comportamento de Lot, cuja hospitalidade com os anjos é exemplar, enquanto os habitantes de Sodoma procuram “conhecer” os enviados de Deus (a palavra é ambígua, pode ter uma conotação sexual, e até significar “violá-los”, mas, em todo o caso, a homossexualidade numa é mencionada no texto sagrado). Deus, por causa da moralidade de Lot e da sua hospitalidade, decide poupá-lo. Ordena-lhe que fuja com a mulher e as duas filhas virgens, e será salvo, sob a condição de nunca se virar para trás. De manhã, Sodoma é destruída “pelo enxofre e o fogo”, bem como todos os seus habitantes; a mesma sorte está reservada à cidade vizinha, Gomorra, mas a Bíblia não nos diz porquê.

Infelizmente, a mulher de Lot, que se virou para trás durante a fuga para ver o castigo de Deus, foi imediatamente transformada numa estátua de sal (uma metáfora, pensa-se, para condenar o regresso a um modo de vida antigo, mas a homossexualidade continua a não ser citada). No dia seguinte, Lot refugia-se na cidade muito próxima de Zoar (actualmente Safi), antes de se instalar com as duas filhas numa gruta nas proximidades.

Segue-se a célebre cena do incesto em que, por falta de homens, e para manter a linhagem, as filhas de Lot embriagam o pai com vinho, e, uma de cada vez, dormem com ele. Grávidas, dão à luz dois filhos, Moab e Amon, antepassados das duas principais tribos da região, os Moabitas e os Amonitas.

Esta história bíblica é comum aos cristãos (que fazem de Lot um patriarca), aos muçulmanos (que fazem de Lot um profeta e deram ao mar Morto o nome de “Bahr-Lût” ou “mar de Lot”) e aos judeus (que, pelo contrário, fazem dele um símbolo do homem pecador). Retomado e muitas vezes adaptado pelos escritores e pelos artistas, esta narrativa figura em várias obras de Rembrandt, Rubens (de quem foi recentemente redescoberto um Lot e Suas Filhas) Dürerou Veronesi, tal como, por exemplo, em Sodoma e Gomorra de Marcel Proust. As palavras “sodomia”, “sodomizar” e “sodomitas” têm origem directa nesta história bíblica, mas só alguns séculos depois da escrita da Bíblia é que esta mesma palavra assume o sentido que tem actualmente.

O sítio de Tall al-Hammam seria, portanto, segundo o arqueólogo Steven Collins e a sua equipa, a antiga Sodoma. Por esta razão, a cidade não teria sido destruída, como o indica o Génesis, “pelo enxofre e pelo fogo” da vingança divina, mas, na opinião de Collins, por “uma violenta depressão atmosférica”. De qualquer modo, a homossexualidade nada teria a ver com esta tão famosa destruição.

O sítio arqueológico de Tall al-Hammam (mapa reproduzido de http://jandyongenesis.blogspot.com/2014/04/a-cautionary-note-about-collins-sodom.html)

(Tradução: Maria Carvalho Torres; Edição: Maria Carla Crespo e António Marujo)

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