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À Margem_José Centeio

Em nome dos que sofrem

| 28/11/2024

À Margem_José CenteioCada vez mais se ouve – e eu próprio o digo várias vezes – que o mundo está perigoso. Esta afirmação contém em si mesma uma dose de receio, angústia, impotência e, quiçá, alguma desesperança.

Basta olharmos à nossa volta, ouvirmos as notícias, para nos darmos conta de alguns aspetos que firmam aquela nossa afirmação e que certamente mudarão para sempre o mundo em que vivemos.

Atravessa-nos o sentimento – a mim acontece-me – de que nunca como hoje a personificação do mal, da desumanidade, ganhou o estatuto de poder. Não apenas o caso de gente “pouco recomendável” ter ascendido ao poder em vários países, mas também os diversos grupos e movimentos que em várias partes do globo espalham o medo e o terror em nome de um poder usurpado ou de um Deus desenhado à sua imagem e conveniência. Sem esquecer aqueles que sob a capa institucional continuam a tudo fazer para se manterem no poder ou impedir qualquer crítica que coloque em causa esse seu status. Acresce ainda que a ascensão ao poder de partidos xenófobos e populistas, nomeadamente na Europa, parecem querer desfigurar o rosto de uma Europa de valores e princípios democráticos, solidários e de direitos humanos. Os acordos e a ordem jurídica internacional que regulava os conflitos parece desmoronar-se. A forte polarização das sociedades, a incapacidade de escuta e a impossibilidade cada vez maior de construir pontes conduzem-nos a um beco sem saída isolados de tudo e de todos.

Um segundo aspeto prende-se com a forma como entendemos a nossa passagem por este nosso planeta, usurpando e destruindo um património que não nos pertence, mas que nos foi legado, e do qual pretendemos retirar todo o proveito sem nos preocuparmos com as implicações que isso possa ter nas populações, sobretudo as mais pobres e, muito menos ainda, com o empobrecimento das gerações vindouras. A não consciência de que habitamos uma “Casa Comum” que deveria ser governada com a preocupação do bem-estar de todos os seus habitantes e cuidado com tudo o que dela faz parte e que a tornam habitável, faz com que tenhamos um grande sentido de posse e um muito débil sentido de partilha. Veja-se, por exemplo, os resultados das sucessivas COP e em particular a COP 29.

Hoje, mais do que produzir riqueza em quantidade, importa que nos questionemos sobre a qualidade da riqueza criada. Parece-me que esta é uma questão fundamental em termos de futuro e do tipo de desenvolvimento – ou dos paradigmas que o sustentam – que queremos deixar como herança às gerações vindouras.

Por exemplo, quais os recursos utilizados na produção dessa riqueza, ou seja, os recursos que subtraímos ao património natural da Humanidade. Ao utilizarmos recursos existentes ou ao deteriorarmos outros estamos não só a diminuir o património a que as gerações futuras têm direito, mas também a impedir que usufruam de outros.

Medidas que conduzam a uma maior racionalidade na utilização de recursos não devem ser repercutidas na parte final da cadeia – o consumidor – mas logo a montante, pois só assim se pode condicionar a produção de bens que pretendem responder a necessidades duvidosas ou a necessidades induzidas. Embora nós enquanto consumidores tenhamos também responsabilidades.

De nada adiantará dizer que criamos riqueza se isso implica que no futuro seremos ainda mais pobres. A criação de riqueza hoje não pode ser sob hipoteca do futuro. O simples facto de criação de riqueza não implica por si só que o saldo final, em termo de custos, seja positivo.

Inteligência artificial (IA) e as consequências das quais ainda estamos pouco conscientes. Os mais entusiastas têm tendência a valorizar o que esta nova tecnologia nos traz de benéfico – e que é muito – tentando assemelhá-la a outras grandes revoluções tecnológicas. Infelizmente esquecem algo fundamental: a mudança de paradigma. Enquanto até hoje conhecíamos apenas uma realidade construída e controlada pelos humanos, a IA introduz uma nova realidade não controlada pelos humanos e que concorre lado a lado com a primeira. Aliás isso já hoje acontece. É um erro pensar-se que o avanço tecnológico corresponde a progresso e evolução cultural. Tal posicionamento venda-nos o olhar crítico sobre a realidade. A inteligência Artificial vai tornar o mundo muito mais desigual, muito mais perigoso e muito menos controlável. As guerras, por exemplo, vão ser muito diferentes do que até hoje conhecíamos. “Se usarmos a tecnologia para padronizar ou automatizar processos injustos e antiéticos, estamos simplesmente a aumentar, ou mesmo a automatizar, a desigualdade” (Tomas Chamorro-Premuzic in Eu, Humano)

Então que fazer? Será que estamos condenados à derrota, à desistência? Não, não podemos. É nosso dever, em nome daqueles que sofrem as consequências, encontrar caminhos de esperança. Por mais ténue que seja a luz no meio da escuridão, não será ela suficiente para nos guiar? Pode ser muito longo o caminho, mas acreditemos que a seguir à invernia haverá sempre primavera. Importa valorizar e dar voz aos sinais de esperança, por mais ténues que sejam.

Se nos sentirmos sós e impotentes, juntemo-nos a todos aqueles e aquelas que se sentem sós e impotentes.

 

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