
Foto: retirada do trailer do filme
Li recentemente o “Ensaio sobre a cegueira”, de José Saramago e fiquei impressionado. É, de facto, um grande romance da literatura portuguesa do século XX. O texto compagina um humor finíssimo com momentos de forte carga emotiva, na qual se revela uma visão humanista da vida, em que o ser humano, apesar das suas múltiplas contradições, mostra ser capaz de se compadecer do sofrimento alheio. Tanto a belíssima escrita literária como o enredo são pontos cimeiros desta obra notável.
A natureza humana está impregnada de sombras. Longe de viver iludido, numa espécie de otimismo cego à indiscritível crueldade humana, o autor é um excelente conhecedor do universo humano. Porém, não estamos, de modo nenhum, perante um irredutível pessimista, que nada espera do ser humano senão um egoísmo empedernido sem qualquer redenção. Saramago é um autor lúcido, que congrega a luz e as sombras para descrever a complexidade da natureza humana, como Pascal havia feito ao descrevê-la na sua miséria e na sua glória, na sua mesquinhez e na sua grandeza. Perante o leitor alinham-se personagens e comportamentos que se posicionam ora do lado sombrio, ora do lado luminoso da vida, ambos essenciais à compreensão do que realmente somos.
A inevitável cegueira humana é afinal o domínio dessas sombras persistentes que tudo arrastam até à perdição dos outros e, sem dúvida, de si próprios. A história pretende revelar o facto evidente de todos sofrermos de uma perturbadora cegueira, fustigados pelo egoísmo e a feroz desconsideração dos outros, produzindo assim sociedades violentas onde a paz é sol de pouca dura e o conflito permanece latente no coração de cada pessoa, desaguando múltiplas vezes em formas sanguinárias. A sociedade capitalista em que vivemos é, segundo a tese do romance, uma organização de cegos que insistem em guiar outros cegos a partir de valores que só podem conduzir à ruína.

Mas a história sugere igualmente que não estamos prisioneiros deste estigma que nos habita. Se quisermos, se assim decidirmos, com base num juízo lúcido e racional, podemos orientar a nossa ação para valores que, a serem inteligentemente ativados, sustentarão sociedades mais prósperas e felizes. Não é o egoísmo individualista que torna possível a vida humana — pelo menos enquanto ainda se pode chamar humana — é a solidariedade fraterna e o auxílio mútuo que garantem a sobrevivência da comunidade como um todo e darão a cada qual as condições para poder ser inteiramente humano. A salvação de cada um não advém do sentimento que subjaz ao refrão popular “salve-se quem puder”, provém do reconhecimento teórico e prático da dignidade de todos e do caráter “sagrado” de cada ser humano. Do ponto de vista do cristianismo — de que o autor insiste em apartar-se, mas cujos valores abraça a cada passo — poderíamos dizer que é o amor ao próximo que nos redime, não o mísero autocentramento do indivíduo sobre os próprios interesses.
Na economia da narrativa é o próprio Estado a perturbar a coesão social ao tratar indignamente os doentes desta inexplicável enfermidade. Ao agir assim, corrói os laços de confiança que o ligam aos cidadãos, semeando a destruição do tecido social.
No mesmo sentido, o leitor é confrontado a cada passo com as consequências da execução de uma poderosa lei do retorno. Bem sabemos como nem sempre funciona (já Camões no-lo havia dito na sua esparsa sobre o desconcerto do mundo), pois assistimos amiúde à prosperidade dos maus e à desgraça dos bons. Contudo, é certo que as pessoas e as instituições reagem de forma quase determinística a estímulos que provêm das circunstâncias em que se movem. A coesão das redes sociais depende, assim, da maneira como cada instituição e cada cidadão se relaciona com os demais. A salvação do todo depende da solidariedade e da cooperação entre os membros. A ruína do todo está intimamente ligada à conduta interesseira, à cupidez megalómana, à indiferença pelo padecimento alheio e a toda a espécie de violência.
É assim que a vida coletiva se vai degradando até o ser humano se ver reduzido à básica tarefa de procurar alimento. Perde assim a sua condição de pessoa no preciso momento em que passa a comportar-se como se toda a sua existência se pudesse esgotar neste objetivo, à semelhança de todo o restante reino animal. Concentra-se apenas nas necessidades básicas e para elas vive, sem outra finalidade nem qualquer outro sentido.
Perante um tal desmembramento do tecido social, as convenções que mantinham a rede coletiva em funcionamento perdem sentido, a única lei em vigor é a do mais forte, arrastando a humanidade para a sua autoaniquilação.
Conquanto o futuro pareça estar inevitavelmente comprometido, há ainda uma leve esperança a pairar sobre uma humanidade profundamente debilitada. Um futuro possível vai-se delineando na forma como o grupo das personagens centrais responde à crise e se auto-organiza. O cuidado do outro, a partilha de vida (sobretudo das dificuldades) e das emoções, a organização da vida interna, a solidariedade entre os membros constituem os alicerces de um futuro difícil, mas não impossível. Não é de todo inverosímil continuar a acreditar, contra todas as evidências, num futuro repleto de possibilidades, que cada ser humano e cada grupo poderão construir como bem entenderem. Não se vislumbra, porém, que a humanidade possa alguma vez desativar as forças devastadoras, centrífugas, que constituem a sua face lunar. O ser humano é e continuará a ser movido pelo amor e pelo ódio, pelo sentido de justiça e de injustiça, pela solidariedade e pelo egoísmo. É esta a nossa irremediável cegueira. Será possível construir sobre tais bases antropológicas uma sociedade realmente diferente do que tem sido a nossa?

Jullianne Moore é a “mulher do cego” na adaptação de “Ensaio sobre a cegueira” para o cinema dirigida por Fernando Meirelles. Foto: retirada do trailer do filme.
Durante a leitura deste poderoso romance ocorreu-me que a principal limitação do marxismo e dos seus sucedâneos seja o facto de ser exageradamente otimista face à condição humana (pecha de que não padece o autor). Num mundo ideal, a propriedade coletiva dos bens não será motivo para a vontade cooperante e o esforço humano solidário declinarem abruptamente para níveis consentâneos apenas com a mera manutenção da ordem imposta. Mas a verdade é que a prática assim no-lo ensina. Numa tal sociedade, assiste-se não raramente à estagnação ou, a médio e longo prazo, ao declínio das condições de vida das populações. Falta-lhe o balanço da ambição, do egoísmo capitalista, da cobiça individualista, por meio dos quais, por um lado, poucos florescem e muitos são explorados até ao limite da sobrevivência, mas, por outro, é ativada igualmente uma dinâmica produtiva centrada no progresso material. Não é, decerto, na sua severa desigualdade, o sistema ideal por que todos ansiamos. Porém, não podemos cerrar os olhos ao lado sombrio da condição humana, crendo ingenuamente que um sistema onde a cada qual é dado de acordo com as suas necessidades promoverá, de geração espontânea, a vontade de contribuir cada qual para o bem do todo social segundo as suas capacidades, sem esperar daí qualquer recompensa.
Jorge Paulo é católico e professor do ensino básico e secundário.










