Comentário

Escândalo da vacinação em África é provocação à consciência europeia

| 21 Out 21

covid 19 vacinas foto c No-Mad

“Torna-se difícil olhar com seriedade as promessas quer dos responsáveis europeus quer da Administração Biden de que farão grandes investimentos no programa Covax, de forma a acelerar as taxas de vacinados.” Foto © No-Mad.

A União Europeia (UE) pode orgulhar-se de ter quase sete em cada dez pessoas vacinadas e cerca de dois terços com vacinação completa. Pode ainda orgulhar-se, como acaba de mostrar a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, de que, ao mesmo tempo que progredia na vacinação, exportava mil milhões de vacinas para mais de 150 países. Porém, a UE deveria estar envergonhada com um modelo de negócio de vacinas e de patentes que faz com que nem metade da população do planeta tenha pelo menos uma dose do antídoto contra a covid-19.

Analisando os dados mais recentes, reunidos pela OurWorldInData.org, torna-se evidente o escândalo que constitui o abandono a que África está votada, quanto ao vírus. Com referência a esta terça-feira, 19 de outubro, registava-se no continente 7,8 por cento da população vacinada e 5,2 por cento com vacinação completa. Apesar de haver diversos fatores a influenciar este quadro, a verdade é que é gritante o abismo que separa o continente africano do resto do mundo:

rafico vacina covid 19 regioes

Se tomarmos em consideração a intensidade dos contactos e transações entre a África e o resto do mundo, mas particularmente a Europa, era de esperar que fosse ao menos a atitude de autodefesa que fizesse soar os alarmes. Mas deveria ser o facto, muito prosaico, mas decisivo, de estarmos todos no mesmo barco, ninguém se salvando sozinho.

Torna-se difícil de olhar com seriedade as promessas que vêm sendo feitas quer pelos responsáveis europeus quer pela administração Biden de que farão grandes investimentos no programa Covax, de forma a acelerar as taxas de vacinados, quando vemos o que se tem passado. Biden, por exemplo, quando em campanha eleitoral e ainda há meses, pressionado de vários lados, dizia, relativamente à libertação de direitos das patentes, que “tempos extraordinários requeriam medidas extraordinárias”. Mas agora o Presidente dos EUA vem protelando essas medidas, certamente ponderando um jogo em que a própria União Europeia é um player importante (e pouco aberto a medidas que toquem nas patentes, como se viu por alturas da Cimeira Social do Porto, em maio passado). O ano de 2021 tem mostrado, na UE como nos EUA, que os interesses das grandes indústrias farmacêuticas dificilmente serão afetados. Elas que, depois de terem beneficiado de avultadas somas de verbas públicas para acelerar o processo de produção de vacinas, têm arrecadado muitas centenas de milhões de euros na sua comercialização.

Quem paga a fatura são sempre os mesmos – os países mais pobres que recebem as migalhas que caem da mesa dos países mais ricos.

O único líder de opinião à escala internacional que continua a pressionar e a batalhar por medidas neste terreno é o Papa Francisco: ainda há dias, no discurso ao IV Encontro Mundial dos Movimentos Populares e, depois, numa série de tweets, exigia que os grandes laboratórios libertassem as patentes, “num gesto de humanidade que permita a cada ser humano o acesso à vacina”.

Neste quadro dramático, que afeta centenas de milhões de pessoas em todo o mundo, e particularmente em África, reveste-se de particular interesse o que se passa nos países lusófonos, antigas colónias portuguesas:

grafico vacina covid 19 paises lusofonos

 

A base de dados que utilizamos permite apresentar a situação desta semana para o conjunto desses países. O que se dizia atrás está bem explícito nestes gráficos. Sendo o Brasil um caso à parte, pelo facto de ter alguém manifestamente desequilibrado e perverso à frente do país, como acaba de reconhecer o relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito, as situações mais dramáticas podem ser encontradas nos países africanos – particularmente em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, onde as taxas de vacinados andam entre 5,5 e 11 por cento.

Este é um problema ao qual Portugal, que está numa posição muito confortável, deveria prestar especial atenção, por nos dizer diretamente respeito, considerando os laços históricos e as relações atuais com estes países.

(Os dados que serviram de base aos gráficos aqui publicados tiveram por fonte Hannah Ritchie et al. (2020) – “Coronavirus Pandemic (COVID-19)”. Publicado online em OurWorldInData.org. Recuperado de: ‘https://ourworldindata.org/coronavirus’ [Recurso online].)

 

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