
Ilustração da capa do livro N’Alma Escrito, de Frei Agostinho da Cruz, um dos nomes grandes da mística portuguesa.
São 48 artigos de 54 autores que pretendem dar o retrato da experiência de grandes figuras da Espiritualidade e da Mística, que buscam a compreensão dos “desafios fundamentais para o tempo a que chamamos nossos”. Espiritualidade e Mística. À procura do Não-Limite é o título do volume que reúne textos de intervenções no congresso que decorreu em Abril, em Braga, e que será apresentado neste sábado, 23 de Novembro, em Braga (Museu Pio XII, 16h) e em Guimarães (Sociedade Martins Sarmento, 21h). O padre Manuel Barbosa, secretário da Conferência Episcopal Portuguesa, fará a apresentação da obra.
“Este conjunto de artigos evidencia como os grandes mestres espirituais e os místicos, não temendo as grandes questões sobre a vida e sobre o transcendente, irrompem, na história, como verdadeiros ‘fazedores de História’, empreendedores, psicólogos, poetas…”, diz ao 7MARGENS a teóloga Eugénia Abrantes, uma das coordenadoras da obra, com o padre José Paulo Abreu, professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica (polo de Braga) e director do Museu Diocesano Pio XII. “Nada os detém, quando, após a experiência intensa da presença de Deus, se movem num processo de entrega exigente, em contínuo deslocamento dinâmico para o ponto gravitacional amoroso do outro, em busca da união amorosa. Numa experiência de limite, buscam incessantemente o não-limite, que o amor humano-divino reclama, para a união desejada.”
O volume abarca áreas tão distintas como a teologia e a psiquiatria, a história e a literatura, a psicologia e a arte, a educação ou a fenomenologia religiosa, a geografia ou a cultura das religiões. E pretende dar a oportunidade de “realizar uma experiência de espanto e reflexão sobre este legado deixado por mulheres e homens marcantes àqueles que os ousam conhecer”. Trata-se de “penetrar na experiência do humano após a experiência íntima e amorosa do divino”, acrescenta a coordenadora.
O congresso de Abril foi um dos passos de um projecto mais vasto, que inclui a publicação de uma História Global da Espiritualidade e da Mística em Portugal e de um Dicionário sobre o tema, que incluirá 4000 entradas, da autoria de 500 investigadores de mais de 20 nacionalidades [ver 7MARGENS].
Para a teóloga e coordenadora do volume que neste sábado será apresentado no Minho, a espiritualidade e a mística ainda são hoje quase subtemas no quadro da Teologia e é necessário divulgar a influência dos místicos portugueses nas diferentes áreas sociais. Trata-se de “conhecer quanto os místicos tiveram uma influência enorme em diferentes áreas sociais, desde a política, a sociologia, a antropologia, a filosofia, a história e também dentro da própria teologia”.
O refúgio do místico

Eugénia Abrantes e João Luís Fontes no programa 7MARGENS/Antena 1, em Abril, dedicado ao tema da Espiritualidade e Mística. Foto © António Marujo/7MARGENS
No programa 7MARGENS da Antena 1, o congresso e as publicações da História e do Dicionário foram tema de debate antes da iniciativa de Braga em Abril (o programa pode ser escutado na RTP Play).
O programa, que contou com Eugénia Abrantes e o historiador João Luís Fontes, debateu a forma como o erotismo exprime a experiência mística e a política como uma sua concretização. O modo como as grandes místicas cristãs colocam tudo isso em relação foi também um dos argumentos da conversa.
No 7MARGENS podem ler-se também excertos do livro Erotismo e Metáfora na Mística Portuguesa – do Renascimento ao Barroco (edição Theya), da autoria de Eugénia Abrantes, que pretende analisar o pensamento místico de personalidades e autores como frei Agostinho da Cruz, frei Tomé de Jesus, padre Manuel Bernardes, Leão Hebreu (Iehudah Abrabanel), D. Manoel de Portugal, frei Heitor Pinto, frei Amador Arrais e frei António das Chagas, entre outros.
Escreve a autora: “O amor de que fala a mística portuguesa é esse refúgio a que o místico regressa na sua escrita, porque ele é o lugar a que se pertence. O discurso usado é misterioso e imprevisível. Discurso-relação de um arco maior, maior do que o próprio arco-íris, porque não une apenas Deus e o humano; de Deus parte e a Ele regressa, abarcando e abraçando nesse circuito o humano. (…) Respira-se na mística de alma portuguesa a urgência do abraço, não apenas por uma carência afetiva, mas porque se deseja, se ama. A mística de alma portuguesa é sempre o espanto do e pelo outro. O espanto que acaba por ser o espanto de si mesmo, que lhe vem desse rosto e gesto do outro.”









