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Poesia, N'alma escrito, Agostinho da Cruz

Intervenções do Congresso

Espiritualidade e mística portuguesa em 48 textos

| 22/11/2024

Poesia, N'alma escrito, Agostinho da Cruz

Ilustração da capa do livro N’Alma Escrito, de Frei Agostinho da Cruz, um dos nomes grandes da mística portuguesa. 

São 48 artigos de 54 autores que pretendem dar o retrato da experiência de grandes figuras da Espiritualidade e da Mística, que buscam a compreensão dos “desafios fundamentais para o tempo a que chamamos nossos”. Espiritualidade e Mística. À procura do Não-Limite é o título do volume que reúne textos de intervenções no congresso que decorreu em Abril, em Braga, e que será apresentado neste sábado, 23 de Novembro, em Braga (Museu Pio XII, 16h) e em Guimarães (Sociedade Martins Sarmento, 21h). O padre Manuel Barbosa, secretário da Conferência Episcopal Portuguesa, fará a apresentação da obra.

“Este conjunto de artigos evidencia como os grandes mestres espirituais e os místicos, não temendo as grandes questões sobre a vida e sobre o transcendente, irrompem, na história, como verdadeiros ‘fazedores de História’, empreendedores, psicólogos, poetas…”, diz ao 7MARGENS a teóloga Eugénia Abrantes, uma das coordenadoras da obra, com o padre José Paulo Abreu, professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica (polo de Braga) e director do Museu Diocesano Pio XII. “Nada os detém, quando, após a experiência intensa da presença de Deus, se movem num processo de entrega exigente, em contínuo deslocamento dinâmico para o ponto gravitacional amoroso do outro, em busca da união amorosa. Numa experiência de limite, buscam incessantemente o não-limite, que o amor humano-divino reclama, para a união desejada.”

O volume abarca áreas tão distintas como a teologia e a psiquiatria, a história e a literatura, a psicologia e a arte, a educação ou a fenomenologia religiosa, a geografia ou a cultura das religiões. E pretende dar a oportunidade de “realizar uma experiência de espanto e reflexão sobre este legado deixado por mulheres e homens marcantes àqueles que os ousam conhecer”. Trata-se de “penetrar na experiência do humano após a experiência íntima e amorosa do divino”, acrescenta a coordenadora.

O congresso de Abril foi um dos passos de um projecto mais vasto, que inclui a publicação de uma História Global da Espiritualidade e da Mística em Portugal e de um Dicionário sobre o tema, que incluirá 4000 entradas, da autoria de 500 investigadores de mais de 20 nacionalidades [ver 7MARGENS].

Para a teóloga e coordenadora do volume que neste sábado será apresentado no Minho, a espiritualidade e a mística ainda são hoje quase subtemas no quadro da Teologia e é necessário divulgar a influência dos místicos portugueses nas diferentes áreas sociais. Trata-se de “conhecer quanto os místicos tiveram uma influência enorme em diferentes áreas sociais, desde a política, a sociologia, a antropologia, a filosofia, a história e também dentro da própria teologia”.

 

O refúgio do místico

Eugénia Abrantes, João Luís Fontes, Espiritualidade, Mística

Eugénia Abrantes e João Luís Fontes no programa 7MARGENS/Antena 1, em Abril, dedicado ao tema da Espiritualidade e Mística. Foto © António Marujo/7MARGENS

No programa 7MARGENS da Antena 1, o congresso e as publicações da História e do Dicionário foram tema de debate antes da iniciativa de Braga em Abril (o programa pode ser escutado na RTP Play).

O programa, que contou com Eugénia Abrantes e o historiador João Luís Fontes, debateu a forma como o erotismo exprime a experiência mística e a política como uma sua concretização. O modo como as grandes místicas cristãs colocam tudo isso em relação foi também um dos argumentos da conversa.

No 7MARGENS podem ler-se também excertos do livro Erotismo e Metáfora na Mística Portuguesa – do Renascimento ao Barroco (edição Theya), da autoria de Eugénia Abrantes, que pretende analisar o pensamento místico de personalidades e autores como frei Agostinho da Cruz, frei Tomé de Jesus, padre Manuel Bernardes, Leão Hebreu (Iehudah Abrabanel), D. Manoel de Portugal, frei Heitor Pinto, frei Amador Arrais e frei António das Chagas, entre outros.

Escreve a autora: “O amor de que fala a mística portuguesa é esse refúgio a que o místico regressa na sua escrita, porque ele é o lugar a que se pertence. O discurso usado é misterioso e imprevisível. Discurso-relação de um arco maior, maior do que o próprio arco-íris, porque não une apenas Deus e o humano; de Deus parte e a Ele regressa, abarcando e abraçando nesse circuito o humano. (…) Respira-se na mística de alma portuguesa a urgência do abraço, não apenas por uma carência afetiva, mas porque se deseja, se ama. A mística de alma portuguesa é sempre o espanto do e pelo outro. O espanto que acaba por ser o espanto de si mesmo, que lhe vem desse rosto e gesto do outro.”

 

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