E partiu, de corpo minguado no velho estofo dos assentos da carruagem. O alívio que imaginara sentir àquela hora, não se assomou sequer ao seu espírito. Para afastar essa constatação indesejada, procurou distrair-se com o ritmo pulsátil que o aço das rodas fazia ao rolar sobre os carris, rigoroso como tiros de salva disparados em câmara lenta por tanques de assalto.
Na vidraça da janela, o rosto que há muito deixara de identificar como seu, translucidava-se sobre longas estepes verdes cujo comboio ia rasgando a alta velocidade, como se fugisse sem olhar para trás ou deixar rasto.
Para lá desse vulto, viu homens mortos brotarem do manto de erva gelada e teve a certeza de que nenhuma fuga lhe curaria dos olhos a imagem bélica.

“Para afastar essa constatação indesejada, procurou distrair-se com o ritmo pulsátil que o aço das rodas fazia ao rolar sobre os carris, rigoroso como tiros de salva disparados em câmara lenta por tanques de assalto.” Foto © Nuno Morão/Wikimedia Commons
E quanto mais linha férrea o comboio devorava, quanto mais caminho rasgava, quanto mais distância ganhava ao lugar do inferno, mais os campos sangravam e os rios desse sangue se expandiam para largas margens em volta das almas penadas dos homens que ele matara ou vira matar, e aos quais sobrevivera.
A noite acabou por surgir e escurecer a janela, apagando a projeção daquelas cenas. Fechou os olhos em busca do sono e refugiou-se na ideia do regresso. Resgatou na memória o vestido de noiva abrigando a mulher feliz, os lábios delicados a jurar promessas de amor eterno, e teve esperança de ser salvo pelo seu abraço à chegada – definitivamente salvo de todos os defuntos que trazia instalados no colo.
Não dormiu, o que fez foi delirar até de manhã, até que o sol de inverno, preguiçoso e demorado, voltasse a acender-lhe a janela onde os mortos ensanguentados boiavam exponencialmente nos rios vermelhos.
A neve começava a embaciar a vidraça e ele viu esperançado a dança suave dos flocos brancos ofuscar o terror. Quis levantar a mão para desembaciar o vidro e percebeu que o braço se lhe havia congelado. Tentou levantar-se mas as pernas não obedeceram, rendidas à dormência.
Deixou-se hipnotizar por mera resignação. Enquanto o corpo desistia, o pensamento revia a vida em contrarrelógio – a infância de meninos brincando aos polícias e ladrões com pistolas inofensivas de pedaços de troncos, as trincheiras de mentira onde lhe foi possível ensaiar o pânico.
Os olhos, ainda capazes de olhar, viram a carruagem ganhar asas e voar por entre as bolas de algodão direita ao portal incandescente que se abria no fim da linha. Antes mesmo de o atravessar, já o sangue se havia evaporado dos côncavos que os rios tinham formado nas estepes, devolvendo a integridade aos corpos dos ressuscitados. Caminhou livremente entre eles como se jamais tivessem sido inimigos e pareceu-lhe que o mundo sempre tinha sido assim – sem medos nem inimigos. Que a guerra na qual combatera, fora – afinal – só um pesadelo.
As mãos, no lugar das armas, carregavam a lucidez dos gestos nobres. Pétalas de múltiplas sedas à mercê de afetos. Deslizou sem peso nem gravidade pelos trilhos leves de uma terra sem rios vermelhos, armas, canhões ou delírios de febre.
Tão ao longe quanto ao perto – como se tivesse deixado de haver medida para explicar a distância – viu surgir Alice de uma névoa abençoada para lhe corresponder ao abraço almejado.
Ela, por sua vez, esperou-o para sempre de abraço vazio na porta da estação.
Ana Sofia Brito é autora dos livros “Em Breve, Meu Amor”, “O Homem do Trator” e “A Menina Dança em Dezembro”, publicado em maio 2024. Lançou em 31 de janeiro 2025 o livro de poesia “Tempo” e é ainda autora do podcast, “Direito ao Grito“, da Fnac e assina a rubrica mensal “E por falar em livros…” no jornal “Sul Informação”.










