
“A escolha de um samaritano para a parábola de Jesus é extremamente relevante. Os samaritanos, apesar da semelhança na origem, eram de outra religião e como que hereges aos olhos dos judeus.” Gravura: Átrio dos Gentios 2020, Brasil, Ilustração O Bom Samaritano, de Caio Beltrão
Chegou ao fim a JMJ de Lisboa. Se acontecimento de tal ordem não significar uma mudança individual e colectiva para o futuro, de pouco serviu. As palavras do Papa chegam aos ouvidos de católicos, cristãos não católicos, crentes de outras religiões e mesmo ateus. Encontrei várias vezes no Facebook comentários de ateus a louvar as palavras do Bispo de Roma.
Confesso uma certa curiosidade por este fenómeno. Para além da óbvia aprovação da mensagem, talvez estas pessoas compreendam o mecanismo psicológico que leva Bergoglio a dizer o que diz, tendo em conta a fé que diz professar. Assim, pretendem dizer aos outros católicos: “Ouçam! Ouçam!”. No entanto, talvez não se apercebam do mecanismo psicológico que leva parte dos católicos a ignorar parte da mensagem do Papa, tendo em conta a fé que dizem professar. Sem passar por uma análise exaustiva, tal acontece porque a imagem de Deus que reside em cada um é inevitavelmente diferente. O nome dado ao mistério divino é o mesmo e o local litúrgico é o mesmo, mas a percepção do íntimo de Deus (percepção essa influenciada pelo nosso íntimo) é diferente.
No início do mês de Julho publiquei um artigo dirigido aos participantes na JMJ, onde abordei o problema da xenofobia e da economia. Acabei por escolher uma imagem da parábola do bom samaritano para ilustrar o artigo.
Desta vez gostava de me debruçar sobre o problema das “capelinhas” no seio da Igreja Católica. Fui várias vezes a Taizé desde os meus 15 anos, e uma das coisas que mais apreciei, social e espiritualmente (talvez beneficiássemos de uma menor distinção entre os dois campos) foi a união entre várias confissões cristãs. Em Portugal, por oposição, fui notando não só uma divisão entre o que era qualificado como católico e o seu oposto (coisa que se vai esbatendo nuns círculos e cimentando-se noutros), mas também uma divisão dentro da própria Igreja Católica com os seus grupinhos e esferazinhas, as tais “capelinhas”. Por força das circunstâncias, entendia esse problema como uma inevitabilidade da imperfeição do catolicismo (o que, em certa medida, não deixa de ser verdade). No entanto, quando participei na JMJ de Cracóvia (a única em que estive), verifiquei que essa situação não era necessariamente uma característica da Igreja Católica, mas sim aquilo que eu via na Igreja Católica Portuguesa.
A escolha de um samaritano para a parábola de Jesus é extremamente relevante. Os samaritanos, apesar da semelhança na origem, eram de outra religião e como que hereges aos olhos dos judeus.
Seria como dizer, nos dias de hoje, que os que estavam do “lado certo”, o sacerdote e o levita, os da paróquia certa, os que “cantam as melhores músicas e têm as melhores celebrações”, os do partido certo, os que se vestem de uma certa maneira, se abstiveram de ajudar o homem que caiu nas mãos dos salteadores. O que estava do “lado errado”, o samaritano, o crente de outra religião, o ateu, o imigrante cuja cor de pele achamos duvidosa, todo aquele que é posto à margem, ostracizado para que se mantenha um status quo, viu o homem, olhou para ele com compaixão e ajudou-o.
Não posso não falar em economia. É-nos irrelevante as condições materiais dos nossos familiares? Dos nossos amigos? Das nossas comunidades? Os outros, por sua vez, também têm familiares. Amigos. Comunidades. Tal como nós, um cérebro, uma esperança, alegria, tristeza, desalento, justiça e injustiça. Tal como nós, eles são um “eu”. E quem ajudará o homem que caiu nas mãos dos salteadores, senão quem passe no caminho? É certo que não podemos nem conseguimos ajudar todos directamente. Mas podemos advogar uma sociedade com mais justiça na distribuição da riqueza, pois não creio que nenhum de nós meta a comida toda num dos pratos da mesa. “Se existe um deus ou qualquer tipo de justiça debaixo do céu”, como dizem os Queen na música “Innuendo”, talvez precisemos de averiguar que rosto deve ter essa justiça. E um bom retrato é pintado no filme “Homens e Deuses” de X. Beauvois: “Nós não vemos o teu rosto, Amor Infinito. Mas tu tens olhos, pois choras pelos oprimidos”.
Por fim, um comentário sobre as palavras do Papa. Francisco disse que “na Igreja há lugar para todos”, e tem razão. No entanto, se precisa de o dizer em 2023, significa que na Igreja ainda não há lugar para todos. E se, como também disse, “depois há as leis que regulam”, então significa que a consideração por cada um não é igual e que as portas não estão assim tão abertas. Ou, como me disse em tempos um padre (também ele, como Francisco) jesuíta: “É como convidar alguém para a mesa, mas não pode comer”. Lembro as palavras do Papa João Paulo II: “(…)procurai abrir, melhor, escancarar as portas a Cristo!”. Permitam apropriar-me um pouco da lógica presente na 1ª Carta de São João. Como se pode pedir para escancarar as portas a Jesus, que não se vê, quando a Igreja, que se vê, não escancara as suas portas às pessoas?
João Barreiro é professor de guitarra clássica e cidadão do mundo. Como tantos outros, à procura. Mas como nenhum dos outros.










