O Papa Leão XIV proclamou, desde 10 de Janeiro e até final deste ano, um ano jubilar assinalando os 800 anos da morte de Francisco de Assis, ocorrida em 3 de Outubro de 1226 – sendo a festa litúrgica assinala dia 4. Com esse pretexto, o 7MARGENS publica, até final do ano e ao dia 4 de cada mês, uma série de 10 textos da autoria de frei Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia.
Depois do seu regresso da peregrinação ao Oriente, isto é, pelo ano 1220, o Santo de Assis achou por bem dirigir uma breve missiva “as autoridades” e governantes dos povos, convidando-os a não se desviarem, no meio dos seus afãs políticos e cuidados do mundo, dos preceitos do Senhor. Cita as Escrituras (Ezequiel 33,13) para relembrar, com o peso da palavra profética, que aqueles que “se esquecem dos mandamentos do Senhor”, estão condenados ao esquecimento. É um apelo ao sentido de responsabilidade e uma admonição contra qualquer pretensão de abuso prepotente do poder, pois também os poderosos morrerão, e na morte “tudo nos é tirado”; mais ainda, cada um dará contas tanto maiores “quanto maior poderosos tiverem sido” (3).
O pobrezinho de Assis, que se autoapresenta como “vosso pequenino e desprezível servo” (1), atreve-se, como quem nada tem a perder, a “aconselhar” os “senhores” do mundo a “fazer penitência verdadeira” e a acolher com humildade o “santíssimo corpo de Cristo” (6). “Fazer penitência” significa, na linguagem de Francisco, orientar a vida na direção certa, isto é, conforme a vontade de Deus, e agir de acordo com esta orientação. Por isso associa a penitência à “hospitalidade” de “acolher com humildade o Corpo santo de Cristo” (6). Sabemos, por outro lado que, o “corpo de Cristo”, para o Poverello, está tão realmente presente na Eucaristia como na pessoa do pobre ou doente. Os poderosos do mundo não podem esquecer que a sua primeira obrigação consiste em cuidar desse “corpo” pessoal e social de quem não são donos, mas servidores.
Mas o intuito mais concreto de Francisco parece residir no pedido final: talvez inspirado no que viu entre os irmãos muçulmanos do Egito e Terra Santa, pede aos governantes dos povos que ordenem que todos os dias à noitinha um pregoeiro convide o povo a louvar e a dar graças a Deus, o único Omnipotente (7).
Para quem está habituado a lidar com a imagem de um Francisco pacífico, despojado, submisso a toda a criatura e servo de todos, surpreende esta intervenção em tom exigente e até “ameaçador”. Por detrás do tom está, porém, uma intenção positiva. Francisco, que interveio em diversas situações em favor da paz e reconciliação entre os poderes (tantas vezes prepotentes) e poderosos (tantas viciados pela sede de glória e de domínio), quer sobretudo lembrar que todo o exercício da autoridade neste mundo está limitado e condicionado pelo poder maior do Altíssimo e Bom Senhor, a quem todo o ser humano deve obedecer, incluindo os que recebem o mandato de mandar e governar. Por outro lado, o Santo de Assis lembra-nos que não basta “eleger” políticos e delegar neles os nossos destinos. Muito menos ajuda apenas criticar ou dizer mal, quando, antes disso, deveríamos orar pelos governantes das nações, sem deixar de lhes lembrar das contas que deverão dar, pois, “a quem muito foi dado, muito será pedido” (Lucas 12,48).
A palavra final é de bênção para os que receberem e tiverem em conta esta Carta.

Domenico Ghirlandaio (1448-1494), O Teste do Fogo (1482-1485), fresco que recorda o encontro com o sultão al-Malik al-Kamil e integra o conjunto sobre a vida de Francisco de Assis na Capela Sassetti da Igreja da Santíssima Trindade em Florença (Itália).
Eis o texto completo da Carta de S. Francisco de Assis aos Governantes dos povos
1 A todas as autoridades e cônsules, juízes e reitores, em qualquer parte da terra, e a quantos esta carta chegar, o irmão Francisco, vosso pequenino e desprezível servo em o Senhor, a todos vós deseja saúde e paz.
2 Considerai e vede que o dia da morte se aproxima (Génesis 47, 29).
3 Pelo que vos peço, com todo o respeito que me é possível, que os cuidados e as solicitudes deste mundo que vos preocupam, não vos façam esquecer o Senhor nem desviar dos seus mandamentos; porque todos aqueles que o esquecem e se desviam dos seus mandamentos, têm a maldição e serão lançados por Ele ao esquecimento (Ezequiel 33, 13).
4 E quando vier o dia da morte, tudo quanto julgavam ter, lhes será tirado (Lucas 8, 18).
5 E quanto mais sábios e poderosos tiverem sido neste mundo, tanto maiores tormentos poderão padecer no inferno (Sabedoria 6, 6).
6 Por isso, encarecidamente vos aconselho a vós, meus senhores, que, pondo de parte todos os cuidados e solicitudes, façais penitência verdadeira e recebais com grande humildade, em sua santa memória, o santíssimo Corpo e o santíssimo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.
7 E procurai que o povo a vós confiado honre ao Senhor, fazendo que, todos os dias à noitinha, um mensageiro ou qualquer outro sinal o incite a louvar e dar graças ao Senhor Deus omnipotente.
8 E se assim não fizerdes, sabei que haveis de dar contas diante do Senhor Vosso Deus Jesus Cristo, no dia do juízo.
9 Os que conservarem consigo este escrito e o observarem, saibam que serão abençoados pelo Senhor Deus.
Isidro Lamelas é padre da Ordem dos Frades Menores (Franciscanos) e professor na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa.










