Segunda-feira, o mundo silenciou-se por um momento – não apenas pela partida de um líder religioso, mas pela despedida de uma consciência viva, rara, e profundamente humana. O Papa Francisco não foi só o rosto da Igreja Católica, foi uma presença terna e incansável que nos lembrou, a todos, crentes ou não, que a fé, quando vivida com coragem, se transforma em gesto, em palavra justa, em abraço dado ao que sofre. Como mulher muçulmana xiita, criada entre sinos e procissões, entre igrejas de pedra e vozes que rezam a Maria, a Fátima, não pude ficar indiferente à luz serena, a uma voz maternal e paternal, ao humor e formas de inclusão que espalhou pelo mundo. Não falava só aos católicos. Falava-nos a todos. Mostrou como fazer.
Disse Jesus, citado no Evangelho de Mateus: “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.” Mas o Papa Francisco foi além dessa divisão. Ele soube habitar o meio. Foi pastor e político, mas de uma política do cuidado, do toque, da escuta. Num mundo que arde – em guerras, em exílios, em indiferença – ele foi uma espécie de milagre possível: aquele que escuta os invisíveis, que caminha com os pobres, que respeita as diferenças e sonha pontes onde outros constroem muros. Nele vi ecos dos ensinamentos do Profeta e do Imame Ali – justiça que não fere, fé que acolhe e amor que não escolhe bandeira, género, cor ou crença.
Na madrugada de segunda-feira, 21, depois da meditação e orações antes do nascer do dia, lembrei-me do Papa Francisco. Não sei por que razão. Talvez devêssemos atender mais à linguagem e conversa das almas. Lembrei-me que ele se referiu, logo na primeira aparição, depois de sair do hospital desta última vez, à mulher das flores amarelas. Esta senhora levou, todos os dias em que o Papa esteve internado, um ramo de flores amarelas que simbolizavam as orações de muitos mais crentes para as suas rápidas melhoras. O facto de se ter dirigido a esta senhora, sem títulos ou nome, mas pela generosidade e ternura do seu gesto, fez-me pensar na forma como anonimamente podemos servir e fazer a diferença. Pensei no que posso fazer eu neste mundo que parece ter perdido toda a noção de humanismo e humanidade. Depois li o sentido texto de um bom amigo católico e percebi que vou querer continuar a fazer tudo o que estiver ao meu alcance para lembrar este Papa com a expressão mais marcante e inclusiva que deixou ao mundo a partir de Lisboa: “Todos, todos, todos”! Todos são bem-vindos, porque, como diz o sagrado Alcorão, “Ó humanidade! Nós criámo-vos a partir de uma só alma” (Surat An-Nisā’, 4:1)
Que Deus, o Compassivo, o acolha na Sua luz. E que o seu exemplo continue a soprar ternura e coragem neste tempo que tanto precisa de ambos.
Faranaz Keshavjee é psicóloga e investigadora em temas islâmicos










