
Padre Jardim Gonçalves (Funchal, 26 Janeiro 1932 – Lisboa 22 Dezembro 2024). Foto © Agência Ecclesia/LFS
O funeral do padre Agostinho Jardim Gonçalves, que morreu domingo ao princípio da noite, a um mês de completar 93 anos, realiza-se quinta-feira, 26, na Igreja de Nossa Senhora do Amparo, em Benfica (Lisboa). O velório inicia-se às 10h30 e a missa de corpo presente será celebrada às 13h. O Patriarcado não confirmou ainda quem preside à missa, mas, a não ser que haja impedimentos, quando morre um padre, tradicionalmente é o bispo da diocese a fazê-lo. O funeral sairá às 16h para o cemitério do Alto de São João.
Numa curta nota publicada na página do Patriarcado, resume-se o trajecto de um homem singular recordado no domingo pelo 7MARGENS. Nascido em 1932 no Funchal, Jardim Gonçalves foi ordenado padre em 1956 e nomeado logo a seguir pároco em Machico.
Além das funções eclesiásticas, Jardim Gonçalves trabalhou ainda como professor de Teologia, jornalista, assistente nacional e internacional de movimentos operários de Acção Católica, membro e fundador de organizações para o desenvolvimento, entre as quais a Oikos – e também o CIDAC (então Centro de Informação e Documentação Amílcar Cabral, hoje Centro de Intervenção para o Desenvolvimento Amílcar Cabral), que não foi referido na notícia anterior, mas que o padre Jardim integrou logo que regressou do seu trabalho no Comité Católico contra Fome e pelo Desenvolvimento, nos anos 1980. Jardim Gonçalves foi ainda chefe de gabinete do patriarca José Policarpo, director do secretariado de comunicação e dinamizador do Centro Cultural do Patriarcado.
Num comentário à agência Lusa, citado por exemplo no Público, Américo Oliveira, coordenador da LOC/MTC (Liga Operária Católica/Movimento dos Trabalhadores Cristãos), afirmou que Jardim Gonçalves “é uma das figuras mais relevantes do activismo e da Igreja em Portugal” e em tudo o que se envolveu “era uma figura relevantíssima“. Em particular, Américo Oliveira recorda o seu papel na promoção da pastoral operária, onde foi “fundamental ainda antes do 25 de Abril [de 1974]”, lamentando que o tema hoje já não seja uma prioridade da discussão dentro da Igreja e entre os católicos.
“Ele faz muita falta”, nos dias de hoje, porque, “em Portugal, as grandes questões ficam diluídas nos ritos, e no muito medo de arriscar desafios novos”, considerou ainda o responsável da LOC/MTC. As questões operárias e sociais deveriam ser, no seu entender, uma prioridade da Igreja Católica, como oportunidade de concretizar a fé na sociedade. E isso aconteceu no passado, com padres como Jardim Gonçalves e outros que deram “um contributo essencial à reflexão sobre o mundo do trabalho” em Portugal.
No seu blogue pessoal, o padre Ricardo Figueiredo, actual responsável da comunicação do Patriarcado, fala de “um dos grandes construtores da comunicação institucional da Igreja, que soube gerar uma cultura de amizade, de delicadeza e de encontro entre a Igreja e a sociedade em geral”.
“Sinto que ficamos mais pobres com a sua partida, mas ao mesmo tempo sei que nos tornamos particularmente responsáveis por cuidar e continuar o legado que o Padre Agostinho deixou”, acrescenta Ricardo Figueiredo. “Porque soube trilhar caminhos novos, estou-lhe imensamente grato pelo seu exemplo e testemunho ao longo de tantos anos.”
Na última quarta-feira, dia 18, o padre Jardim Gonçalves dirigiu a alguns amigos e família uma mensagem escrita por telefone, Terá sido, seguramente, um dos seus últimos escritos: “Toda a sociedade se movimenta: luzes se acendem por ruas e praças, trocam-se prendas e flores, restaurantes e cafés enchem-se, concursos de presépios espalham-se, olhares piedosos bafejam pobres, tudo corre e o tempo foge, mesas postas para a consoada, e mais, e mais e mais… Mas, pergunto-me, a mim e a vós, quem nasceu?… Boas festas, feliz Natal.”









