Ao nomear outra mulher para um cargo administrativo no Vaticano, o Papa Francisco diz que as mulheres não sofrem “nenhuma privação” por não serem ordenadas.
Observando que as mulheres são melhores gestoras do que os homens, o Papa Francisco anunciou que vai acrescentar mais uma mulher à sua equipa administrativa, nomeando a irmã franciscana Raffaella Petrini para suceder ao cardeal espanhol Fernando Vérgez Alzaga, que se vai reformar, como presidente do “Governatorato” do Estado da Cidade do Vaticano.
Será a segunda mulher a dirigir um gabinete curial, juntando-se à irmã Simona Brambilla, a nova prefeita do Dicastério para a Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica. Ambas são italianas, educadas em Roma, e já foram secretárias ou chefes de gabinete dos respectivos departamentos da Cúria.
Enquanto o Papa está a agir de acordo com o seu desejo de incluir mulheres em posições de gestão administrativa na Igreja, parece ter feito orelhas moucas aos apelos a que haja mulheres no ministério, apesar de ter aprovado a continuação da discussão sobre mulheres diáconos.
O obstáculo parece ser a sua visão das mulheres.
Reunido em novembro de 2022 com o pessoal sénior da revista jesuíta America, o Papa argumentou: “O facto de a mulher não entrar na vida ministerial não é uma privação”. Ele baseou a sua convicção no chamado “princípio petrino” do ministério e no “princípio mariano” da feminilidade proposto pelo teólogo e padre suíço Hans Urs von Balthasar (1905-1988), que se demitiu da Companhia de Jesus em 1946 para fundar um instituto secular com a sua colega suíça, Adrienne von Speyr, a convertida e mística católica.
Dizendo à America que “a Igreja é mulher. A Igreja é esposa”, Francisco sugeriu o que chamou de ‘uma terceira via: a via administrativa’.
Ele indicou as mulheres que juntou ao Conselho para a Economia do Vaticano, que hoje tem sete cardeais e seis leigos, dos quais cinco são mulheres. Continuando o seu pensamento, o Papa disse: “Quis pôr em evidência os dois princípios teológicos: o princípio petrino e o princípio mariano que constituem a Igreja. Portanto, o facto de a mulher não entrar na vida ministerial não é uma privação. Não.”
Falando diretamente ao editor executivo da America, Kerry Weber, disse: “O vosso lugar é aquele que é muito mais importante e que ainda temos de desenvolver: a catequese sobre as mulheres à maneira do princípio mariano”.
Considerados à luz de alguns de outros comentários de Francisco, que alguns chamam de paternalistas e rasando o misógino, é de se perguntar até que ponto o seu enunciado “princípio mariano” irá minar a sua delegação de autoridade às irmãs Brambilla e Petrini. Poderão os clérigos da Cúria trabalhar para as mulheres?
O novo cargo de Petrini é totalmente administrativo. A sua supervisão da cidade-estado do Vaticano inclui gabinetes para o pessoal, registos civis, arquivos, contabilidade, correio, polícia, turismo, museus, investigação arqueológica e o Observatório do Vaticano. A sua vasta pasta não parece exigir um estatuto clerical, embora cada um dos seus dez antecessores fosse cardeal.
Brambilla, por outro lado, dirige um gabinete curial que supervisiona ordens religiosas e institutos de mulheres e homens, incluindo padres. Em teoria, pelo menos, é responsável pela aprovação de novos grupos ou de fusões de grupos existentes, bem como pela aprovação de constituições, transferências de membros e decisões sobre recursos de membros despedidos. Como a autoridade delegada pelo Dicastério se estende aos grupos de homens, alguns comentadores consideram a sua nomeação ilegal.
Talvez prevendo essas críticas, Francisco nomeou o cardeal salesiano Ángel Fernández Artime como pró-prefeito. Presumivelmente, ele assinaria a papelada que se aplica a grupos clericais ou a clérigos individuais.
A Igreja está a mudar, há quem diga que está a crescer. A inclusão de mulheres nas suas infraestruturas deve ser apenas um primeiro passo. Francisco diz que as mulheres são melhores gestoras do que os homens. Será que ele não vê – ou tem medo de o dizer – que as mulheres também podem ser melhores ministras?
Phyllis Zagano integrou a Comissão para o Estudo do Diaconado das Mulheres (2016-2018). É investigadora na Universidade de Hofstra, Hempstead, Nova Iorque, e o seu livro mais recente é Just Church: Catholic Social Teaching, Synodality, and Women (Paulist, 2023) [Igreja justa: ensino social católico, sinodalidade e mulheres]. Este texto foi inicialmente publicado no Religion News Service e é publicado em Portugal por cedência da autora e daquela publicação ao 7MARGENS.










