
Guerra Junqueiro. Foto: Direitos reservados
Um congresso internacional que se inicia nesta sexta-feira, 13, no Porto, e continua nos dias 17 (em Lisboa) e 20 (Coimbra), a apresentação do livro Paisagens Junqueirianas – com o Douro ao Fundo e uma sessão de poesia, música, vídeo e dança são as iniciativas que, nos próximos dias, assinalam o centenário da morte de Guerra Junqueiro (Freixo de Espada à Cinta, 15-09-1850 – Lisboa, 7-07-1923).
O Congresso “Queimemo-nos a nós Iluminando a terra! – Memória de um século (1923-2023)” terá a sua primeira sessão nas instalações da Universidade Católica Portuguesa (UCP), no Porto. Nelse serão abordados temas como “O Apocalipse moderno Bismarckiano e o Cristo cósmico nos últimos escritos de Junqueiro” (no Porto), “As metafísicas de Junqueiro e de Antero” ou ainda “A dor e o mal em Junqueiro” e “Ideia e experiência de Deus em Junqueiro” (em Lisboa).
O congresso, cujo programa pode ser consultado na íntegra na página da UCP, é promovido no âmbito da Cátedra Poesia e Transcendência Sophia de Mello Breyner. O programa integra, ainda nesta sexta-feira, a apresentação do livro Paisagens Junqueirianas – com o Douro ao Fundo, de Henrique Manuel Pereira, que será feita por Fernando Castro Branco e Maria Coutinho, seguindo-se um momento de poesia, música, vídeo e dança (“No Verbo e na luz”) com textos de Guerra Junqueiro e Teixeira de Pascoaes (cujo II volume da Poesia completa acaba de ser editado na Officium Lectionis).
Escrevia Junqueiro: “A nossa obra é o nosso monumento. Não o cerquemos de grades de ferro, com sentinelas armadas para o proteger (…). Ao contrário. Levantemos a nossa obra com toda a coragem, ao ar livre, na praça pública, sem muros que a vedem e sem granadeiros que a defendam.”
“Paisagens Junqueirianas – com o Douro ao Fundo”

Texto de Alberto Sampaio
Paisagens Junqueirianas – com o Douro ao Fundo, editado pela editora Húmus é o mais recente livro de Henrique Manuel Pereira, professor da Escola das Artes da Universidade Católica do Porto.
Lançado na passagem do centenário da morte de Guerra Junqueiro, é mais um incontornável contributo para o conhecimento dos vários planos da multímoda atividade de Guerra Junqueiro. Há alguns anos, na sequência da publicação dessa obra marcante no âmbito dos estudos do poeta que é Guerra Junqueiro – Fragmentos de Unidade Polifónica, e que corresponde no essencial à sua tese de doutoramento sobre Guerra Junqueiro, Henrique Manuel Pereira definiu o rumo do seu trabalho por estas palavras: “Sendo, antes e acima de tudo, Poeta de múltiplos registos, foi cumulativamente político e diplomata, pensador, coleccionador de Arte, homem de ciência, lavrador e viticultor. Todas estas dimensões me interessam, porque de um Amigo tudo me interessa: de onde veio, onde nasceu, o que disse, fez, pensou, escreveu, influenciou ou motivou. Interessa-me o que se disse e diz dele. Interessa-me até o que se diz que ele disse após ter partido.”
Paisagens Junqueirianas – com o Douro ao Fundo divide-se em duas partes estruturantes. A primeira constituída por sete textos mais extensos, estudos ou ensaios clarificando aspectos de poética, de pensamento, de intervenção através de livros ou outros elementos documentais. Uma segunda parte integrando seis textos mais breves, mas não menos pertinentes na caracterização global do homem e do poeta Guerra Junqueiro. O título uniformiza eficazmente o livro na sua expressividade metafórica.
Na nota prévia com que abre o volume, Henrique Manuel Pereira escreve: “Incomoda-me a monótona repetibilidade de temas, perspetivas e fontes, quando uma rede de veios corre ainda oculta e confusa.” Tem autoridade para o afirmar. Com efeito, a cada um dos seus livros se poderia aplicar a constatação de Miguel Real, a propósito de Guerra Junqueiro – Percursos e Afinidades: “É um um livro que traz consigo o que é supremamente difícil trazer: o novo. Repete-se: – traz o novo, não a novidade. A novidade é a aparência nova do antigo, é o “já sabido” vestido de outras roupagens, outros métodos, outros conceitos, outra ideologia; o novo é violento, rompe com consensos, impõe-se pela força da argumentação, dá um outro e diferente sentido aos textos antigos e obriga os livros já firmados, as histórias de literatura, a reverem os seus capítulos.”
Em Paisagens Junqueirianas – com o Douro ao Fundo se reúnem “textos de natureza, temática, perspetiva e dimensão desigual, segundo uma cadência de escrita espaçada no tempo. Refletem, porventura, diferentes metodologias e estratégias.” Contudo, adianta o autor: “Também eles são fragmento de um imenso todo.” Dir-se-ia tratar-se de um excesso de humildade não fora o facto de serem bem conhecidos os desafios que a si próprio se coloca: “devolver a voz a Guerra Junqueiro”.
Na leitura de Fernando Castro Branco, o autor da obra “como que permanece na sombra para que toda a luz incida” em Junqueiro, “mas numa penumbra activa, atenta, vigilante, pontuando com agudeza e pertinência cada momento, escolhendo o lugar certo do comentário, da explicação ou da explicitação, da avaliação e da valorização, da opinião, da reiteração ou da refutação.”
Gostaríamos de comentar cada um dos treze textos que se oferecem em Paisagens Junqueirianas – com o Douro ao Fundo. Não sendo possível, no âmbito desta nota, convocamos as significativas palavras de António Cândido Franco. “Henrique Manuel Pereira é hoje o mais largo e fidedigno conhecedor de Guerra Junqueiro e das múltiplas facetas em que este desdobrou a sua acção.” Depois dos seus trabalhos, “Guerra Junqueiro não é talvez mais o mesmo. O autor de Pátria retomou a sua estatura de gigante, porventura a de primeiro poeta do nosso século XIX.”
Alberto Sampaio é ensaísta










