Gulbenkian propõe “O Fascínio das Histórias” e das questões da mortalidade, da humanidade e da opressão

| 24 Out 19

Rutger Hauer como Roy Batty em Blade Runner (1982), do realizador Ridley Scott

 

“Um dia dedicado às histórias, às ficções, nas suas mais diversas formas”, é a ideia de “O Fascínio das Histórias”, que a Fundação Calouste Gulbenkian organiza entre as 12h deste sábado, 26 de outubro, e as 0h30 de domingo. No programa, várias obras cinematográficas colocarão a questão da relação da humanidade com as máquinas, da mortalidade ou da liberdade e do lugar do pensamento.

A iniciativa é comissariada por Nuno Artur Silva, argumentista, fundador das Produções Fictícias e nomeado como secretário de Estado do Cinema, Audiovisual e Media, no Governo que toma posse precisamente no sábado. “Vivemos e sempre vivemos rodeados de histórias” diz Nuno Artur Silva, no texto de apresentação do evento.

Durante o dia, sucedem-se sessões de cinema, e episódios de séries e documentários. Entre eles, os dois filmes do universo Blade Runner, que começou com o clássico de ficção científica realizado em 1982 por Ridley Scott. Inspirado no livro “Do Androids Dream of Electric Sheep?” do escritor Philip K. Dick, o filme situa-se em Los Angeles, em 2019. E aquilo de que fala é de uma realidade diferente (ou nem tanto…) da que temos em 2019.

A Los Angeles de Blade Runner é uma cidade suja, escura, debaixo de chuva constante, com demasiada população, que vive de forma apática. Nesse ambiente, que mistura o futurismo espacial e os filmes noir dos anos 40, Rick Deckard (Harrison Ford) é um “Blade Runner”, com a missão de eliminar cinco replicants (máquinas que se assemelham a pessoas), que fugiram de colónias e tentam escapar ao seu desmantelamento, depois de terem atingido o limite programado de vida.

Entre eles está Roy Batty (Rutger Hauer), um replicant de combate, que apesar de ser uma máquina demonstra ter mais compaixão, humor, tristeza e raiva que muitos humanos, enquanto tenta, de forma frustrada, salvar a vida dos companheiros. Ao mesmo tempo, Deckard conhece Rachel (Sean Young), uma replicant que já suspeita da artificlidade da sua “humanidade”. Ao conhecê-la melhor, Deckard, tal como a audiência, começa a desconstruir o que consideramos real ou não.

 

“Tal como lágrimas… na chuva”

Blade Runner também é conhecido por ter um dos mais icónicos diálogos na história do cinema, o inigualável “Tears in the Rain”, e uma das melhores bandas sonoras, composta pelo compositor grego Vangelis. A história coloca várias questões que cabe ao público ponderar: Deckard é humano ou não? Será que as máquinas são capazes de pensamento racional? Qual é a fronteira entre o real e a ficção? Como devemos enfrentar a nossa mortalidade?

O impacto cultural de Blade Runner tornou-se tão evidente que, em 2017, Scott deu a oportunidade ao realizador canadiano Denis Villeneuve de fazer uma continuação do filme original, que fosse uma sequela tão boa ou melhor que o original. Blade Runner 2049 não desapontou. O filme, que também será exibido neste sábado, continua a história do original e retoma vários dos seus temas, com o agora Blade Runner “Joe” (interpretado por Ryan Gosling) a seguir a investigação do que acontecera 30 anos antes.

 

“Livros são apenas lixo. Não tem interesse.”

Uma outra obra a exibir durante o dia é o clássico distópico Fahrenheit 451, do realizador francês François Truffaut, estreado em 1966 e baseado no livro com o mesmo título, de Ray Bradbury. A história centra-se numa sociedade totalitária e altamente controlada, algures num futuro opressivo, em que o governo envia bombeiros para destruir toda a literatura que possibilite o pensamento e a reflexão livre. Os “livros são apenas lixo, não têm interesse”, ouve-se a dado momento do filme.

Neste futuro, de forma a manter o pensamento e as obras de cada escritor, as “pessoas-livro” memorizam integralmente cada obra na sua cabeça e são mesmo conhecidas pelo título do livro que memorizaram. À semelhança de livros como Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, de George Orwell, e o Admirável Mundo Novo, de Huxley, Fahrenheit 451 aborda o tema dos limites da censura, do pensamento individual e do livre-arbítrio.

O programa da jornada prevê ainda a estreia do documentário “O Fascínio das Histórias” (da autoria do próprio Nuno Artur Silva, realizado por António Botelho) e o primeiro episódio da série Years and Years, que mostra “como uma sucessão de incidentes improváveis vai pouco a pouco transformando a vida de uma vulgar família inglesa, instalando uma nova normalidade, tornando quotidiano o que era abominável, banalizando o mal”. O dia termina com a apresentação do último episódio da temporada 8 da série A Guerra dos Tronos.

Enfim, a iniciativa pretende analisar a realidade que rodeia as nossas vidas, centrando-as no tempo e no espaço das histórias que contamos e das mitologias em que acreditamos, como sugeres Artur Silva. “As histórias fazem parte do que somos. E o que somos é também uma história.”

Para mais informações sobre o programa, pode consultar-se a página da Fundação Gulbenkian.

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