“Ouvem-se bombardeamentos dia e noite. Alguns distantes, outros mais próximos. Às vezes, chegam até estilhaços”, porque “infelizmente a guerra continua”, partilha o padre Gabriel Romanelli, pároco da Sagrada Família, em Gaza, esclarecendo aos média do Vaticano que ainda “não houve ordem de evacuação” na área onde se encontra a paróquia – a Cidade Velha, no bairro de Zeytoun -, apesar das notícias de que o plano do Governo israelita de tomar conta de toda a cidade está mesmo a avançar.
Um mês depois de um ataque ter visado a própria paróquia católica, o presbítero, que então ficou levemente ferido numa perna, relata que “todos os dias se somam mortos, feridos, destruições e crescem as necessidades de todo tipo para toda a população civil de Gaza”.
Só nesta terça-feira, 19 de agosto, foram 25 as vítimas mortais enquanto aguardavam a entrega de ajuda humanitária, e outras três pessoas morreram de fome. Ao todo, adianta o Vatican News, o número de mortos em Gaza, desde o início da guerra em 2023, ultrapassa já os 62 mil, a maioria mulheres e crianças, enquanto os feridos são mais de 150 mil.
“São dias quentes em todos os sentidos, com temperaturas a chegar aos 40°C. O calor é terrível e deixa os doentes e idosos ainda mais vulneráveis. Há vários na nossa paróquia”, acrescenta o pároco.
Apesar do terrível cenário em que sobrevivem, o padre Romanelli reafirma o compromisso do “pequeno rebanho cristão de Gaza” em pedir o dom da paz, respondendo assim ao apelo do Papa Leão XIV, no ângelus do último domingo, para rezar “para que os esforços para acabar com as guerras e promover a paz tenham sucesso; para que, nas negociações, o bem comum dos povos esteja sempre em primeiro lugar”.
“Todos os dias”, conclui o pároco, “rezemos ao Senhor e invoquemos a intercessão de Nossa Senhora para que nos obtenha o dom da paz para esta parte da Terra Santa, Gaza. Seria bom para todos: para Gaza, para a Palestina, para Israel e para o mundo inteiro. Porque, como nos lembrou São João Paulo II, ‘se quereis a paz no mundo inteiro, deveis começar pela paz em Jerusalém'”.
Cardeal Zuppi lê lista de mais de 12 mil crianças assassinadas

O cardeal e também arcebispo de Bolonha foi o primeiro a tomar o maço de mais de 460 páginas e a começar a ler em voz alta os nomes dos mais frágeis que morreram desde 7 de outubro de 2023. Foto: Direitos reservados
Quem também aceitou o compromisso de rezar pela paz na Terra Santa foi o cardeal Matteo Zuppi, presidente da Conferência Episcopal Italiana, que escolheu um lugar em que os fascistas do seu país massacraram centenas de pessoas para promover um longo ato de oração pela paz, o qual incluiu, na maior do tempo, a leitura dos nomes de mais de 12.200 crianças palestinianas mortas por Israel e o de 16 crianças israelitas mortas pelo Hamas.
O ato ocorreu já no dia 14, véspera da solenidade da assunção de Maria, mas não foi muito divulgado. O local – as ruínas da igreja de Casaglia, em Monte Sole di Marzabotto – está carregado de simbologia, dado ter sido ali que, no outono de 1944, os nazi-fascistas perpetraram aquele que é considerado o mais grave massacre de civis da Segunda Guerra Mundial, incendiando aquele templo e quantos ali se encontravam.
O cardeal e também arcebispo de Bolonha foi o primeiro a tomar o maço de mais de 460 páginas e a começar a ler em voz alta, nome a nome, a identidade dos mais frágeis que tombaram vítimas do ódio e da injustiça desde 7 de outubro de 2023. A seguir a ele, segundo relata o jornal Il Sole 24 Ore, largas dezenas de pessoas, incluindo crianças, revezaram-se na leitura, que decorreu até vir a noite, sob os carvalhos do parque existente junto às ruínas.
“Pronunciamos os nomes um por um, começando pelos mortos em 7 de outubro pela loucura assassina do Hamas, dos quais devemos distanciar-nos, como de qualquer ideologia ou cálculo que reduza o outro a um objeto, a algo residual, a um inimigo. Pede-se a todos que nos comprometamos a encontrar ou prosseguir o caminho para a paz com mais inteligência e paixão, começando pelo cessar-fogo e oferecendo as condições para o fazer, desde a libertação de reféns e deixando de tomar todo um povo como refém”, referiu, na ocasião, o cardeal Zuppi.










