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Inácio Saure, Nampula, Moçambique

Inácio Saure, bispo de Nampula, ao 7MARGENS

“Há um problema real de falta de futuro dos jovens em Moçambique”

| 09/10/2024

Inácio Saure, Nampula, Moçambique

Inácio Saure, arcebispo de Nampula (Moçambique), desde 2017. Foto © António Marujo/7MARGENS

A falta de perspectivas de futuro dos jovens em Moçambique continua a ser um problema real, diz o bispo de Nampula. Em entrevista ao 7MARGENS, Inácio Saure, o também presidente da Conferência Episcopal de Moçambique (CEM) diz que os sintomas de mal-estar que existiam em 2023, após as eleições autárquicas, era “generalizado” e que os bispos chegaram a temer que a situação poderia degenerar em violência.

Nesta quarta-feira, 9 de Outubro, mais de 17 milhões de eleitores moçambicanos foram chamados de novo às urnas, desta vez para escolher o novo Presidente da República. Os bispos católicos tinham apelado, em Abril, aos vários intervenientes do processo eleitoral – órgãos eleitorais, partidos, candidatos, organizações da sociedade civil, observadores, meios de comunicação e à população – no sentido de que todos participassem de modo a que tudo decorra de forma pacífica.

Arcebispo de Nampula desde Abril de 2017, ordenado padre aos 38, membro dos Missionários da Consolata, Inácio Saure tinha sido seis anos bispo de Tete. Na conferência de imprensa do Sínodo, nesta quarta-feira em Roma, o presidente da CEM (desde 2021) afirmou que o sofrimento continua “bem presente” em Cabo Delgado, tendo provocado já cinco mil mortos e cerca de um milhão de deslocados internos, “dentro da província de Cabo Delgado e outros nas províncias vizinhas”.

O terrorismo no Norte do país, e a importância do Sínodo para uma Igreja como a de Moçambique, são outros temas desta entrevista, gravada em Outubro do ano passado, durante a primeira assembleia do Sínodo sobre a sinodalidade.

Cabo Delgado, Moçambique

Criança deslocada por causa do terrorismo: Nampula, depois da própria província de Cabo Delgado, foi aquela que mais acolheu deslocados de guerra. Foto © ACN/AIS

7MARGENS – Em 2023, os bispos alertaram para os riscos de violência generalizada por causa da contestação do resultado das eleições autárquicas. Que sintomas eram esses?

INÁCIO SAURE – Eram o mal-estar generalizado da parte do povo, da parte dos simpatizantes dos partidos que se diziam lesados porque achavam que os resultados não foram justos. Pareceu haver evidências de que, em vários casos, as coisas não correram bem. Nós pensávamos que as manifestações se poderiam prolongar e degenerar em violência. O nosso medo partia daí. De facto, as eleições foram muito contestadas e não houve explicações, por isso tínhamos esse receio.

 

7M – Este mal-estar dos últimos tempos vem juntar-se ao problema de Cabo Delgado e do terrorismo. Na sua perspetiva ou da Conferência Episcopal, o que levou a essa violência? É por causa de um grupo que se reclama do islão extremista ou há razões económicas também por detrás?

Os investigadores levam-nos a acreditar numa coisa e numa outra: uns acentuam o aspeto económico, por causa dos grandes projetos, e outros tendem mais para as razões religiosas. É possível que sejam as duas razões, mas o que me parece ser mais dominante parece ser o aspeto económico.

 

7M – Uma pessoa responsável do Ministério da Energia chegou a dizer que a exploração ilegal de recursos poderia estar a financiar o terrorismo na região.

Exploração ilegal não sei da parte de quem, porque as grandes companhias não exploram ilegalmente. Talvez o modo como é feita esta exploração, muitas vezes sem consultação e sem benefício para as comunidades locais.

 

7M – Fala-se também de interferências, quer do Ruanda, quer do Grupo Wagner e da Rússia. Isso tem alguma consistência, na sua perspetiva?

Da Rússia não tenho assim muita informação. Do Ruanda sim, está lá o exército ruandês, que foi convidado pelo Governo moçambicano, assim como as tropas dos países membros da SADC [Comunidade de Desenvolvimento da África Austral, da sigla em inglês].

 

7M – Nampula foi uma das dioceses que recebeu mais deslocados de guerra de Cabo Delgado…

Nampula, depois da própria província de Cabo Delgado, foi aquela que mais acolheu deslocados de guerra, sim. Chegou-se a falar de 80 mil, agora talvez sejam menos, porque houve regressos quando a segurança melhorou um pouco, mas ainda há muitíssimos deslocados de guerra em Nampula. O grande desafio neste momento é sobretudo da alimentação, porque num certo momento havia várias organizações e mesmo pessoas de boa vontade que davam alguma ajuda em alimentação, mas ultimamente praticamente ninguém dá mais comida.

Por exemplo, a nossa Cáritas arquidiocesana tem um grande projeto de apoio com diferentes dimensões: construção de abrigos, distribuição de alimentação, de utensílios agrícolas, etc. Mas todas as outras componentes praticamente pararam porque já ninguém mais financia, resta só um único projeto com o apoio financeiro do ACNUR [Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados], de construção de abrigos. Mas se construir a palhota para a pessoa e ela depois não tem comida, como é que vive?…

Inácio Saure, Nampula, Moçambique

Inácio Saure: os refugiados por causa do terrorismo são pessoas desprovidas “de tudo, completamente de tudo”. Foto © António Marujo/7MARGENS

7M – O que vai remediando a situação de muitas pessoas ainda é a solidariedade familiar ou de vizinhos ou de amigos que arranjam um espaço para que quem chega possa cultivar a terra…

Sim, isso existe, mas é insignificante porque as pessoas não são muitas, são muitíssimas… Uma coisa é receber vinte ou trinta pessoas. Mas, como estava a dizer, falou-se mesmo até de 80 mil deslocados de guerra em Nampula…

 

7M – Só em Nampula…

Nampula como província, não como cidade. O governo criou um grande centro de reassentamento dos deslocados de guerra, a 50 quilómetros da cidade de Nampula. Mas há outros lugares com muita gente, por exemplo, a 16 quilómetros de Nampula, em Rapale, também há um grande número de deslocados de guerra que estão ali praticamente sem nenhum apoio, bem como noutros pontos à volta da cidade.

 

7M – Ainda haverá uns 800 mil deslocados em diversos sítios, sendo que 400 mil se calcula que já regressaram às suas terras. Daquilo que se sabe, quais são as necessidades mais prementes das pessoas? São os meios de sobrevivência?

É gente desprovida de tudo, completamente de tudo, porque quando saíram de suas casas, as pessoas não levaram consigo praticamente nada.

 

7M – Saíram a fugir, praticamente…

Saíram a fugir e chegados a Nampula ou a outros lugares tiveram, como disse, os primeiros apoios em alimentação, a um certo momento também alguns utensílios agrícolas. Em Nampula, o Governo também ofereceu pequenos pedaços de terra mas, às vezes, com distâncias grandes entre o local onde estão reassentados e onde têm os campos de cultivo, portanto, com dificuldade de lá ir porque não têm transporte.

As grandes necessidades são a alimentação e os abrigos. Na questão dos abrigos, a nossa Cáritas arquidiocesana só ficou a construir abrigos num único centro, mas há deslocados noutros pontos que não estão a beneficiar do projeto. O que falta é tudo…

 

7M – Ou seja, se não fosse a Igreja Católica e as suas estruturas como a Cáritas, as comunidades locais, se calhar, estariam ainda muito piores.

Penso que sim, porque, a um certo momento, por exemplo, mesmo o programa das Nações Unidas para a Alimentação disse que não tinha mais verbas para isso e parou as suas actividades. E ficaram as pequenas boas vontades a fazer alguma coisa. Eu não diria só a Igreja, mas…

Oikos, Moçambique, Cabo Delgado, crianças.

Apoio a crianças deslocadas por causa da guerra: em alguns momentos, só há boas vontades a ajudar. Foto © Oikos.

7M – O que é que é preciso para que as pessoas regressem às suas casas?

Em primeiro lugar, é o restabelecimento de segurança real nas suas zonas de origem. Porque neste momento o que acontece é que, mesmo se não há ataques muito estrondosos nas sedes dos distritos, nas aldeias ainda há insegurança, com pequenas incursões. Rouba-se, violenta-se e isto não deixa as pessoas à vontade. Até porque, a dizer a verdade, há quem volte para as suas aldeias porque dizem que “morrer é sempre morrer”: quer dizer, tanto faz ficar em Nampula para morrer de fome ou regressar a Cabo Delgado e poder morrer vítima dos ataques. É um dilema. Mas, ao mesmo tempo, por causa da fome e de faltar tudo, o desejo é sempre de regressar.

 

7M – O Governo tem sido acusado de não fazer o suficiente para que o regresso das pessoas aconteça, nomeadamente em termos da reposição da segurança.

Eu não sei o que é que o Governo poderia fazer porque, como disse, ainda ali estão as tropas do Ruanda e de vários países da África Austral, membros da SADC. Do ponto de vista militar estão tomadas as medidas, mas parece que a solução não é só militar. Deve-se pensar também noutras possibilidades, e penso que isso é que encorajaria o regresso das populações. O que fazer concretamente? Como se deve tratar esse problema? Será que o Governo não sabe? Custa-me a acreditar.

 

7M – A Conferência Episcopal publicou em tempos uma nota onde chamava a atenção para a falta de perspectivas de futuro para os jovens, a falta de emprego e a falta de apoios sociais para muita gente. Isso continua a ser um problema?

É um grande problema, continua de facto um problema real.

 

7M – Quando o Papa Francisco esteve em Moçambique, em Setembro de 2019, ele falou bastante disso.

Sim, é um problema real de falta de futuro, dos jovens, não só naquele contexto da guerra, mas um problema geral, de todo o país. É um problema real.

 

7M – Lembro-me de há anos ler textos sobre as pequenas comunidades muito vivas e muito participativas na vida da Igreja Católica em Moçambique. Como foi a preparação e o processo do Sínodo sobre a sinodalidade em Moçambique?

Houve um grande envolvimento, à medida das nossas possibilidades. Por feliz coincidência, a preparação do Sínodo encontrou-nos a preparar a nossa quarta Assembleia Nacional de Pastoral, em Maio de 2023. Num certo momento, tivemos de suspender algumas atividades da preparação da Assembleia para, em comunhão com toda a Igreja, nos empenharmos mais na preparação do Sínodo.

Para nós, esta coincidência foi providencial, porque as Assembleias Nacionais de Pastoral são uma espécie de exercício da sinodalidade na Igreja de Moçambique, onde há valorização dos ministérios laicais, onde o papel do catequista tem grande importância. Portanto, houve um grande envolvimento das comunidades na preparação do Sínodo… É claro que, com dificuldade de comunicações e transportes, houve comunidades rurais que não ficaram muito bem informadas, mas houve grande envolvimento, sobretudo a nível das sedes das dioceses.

Assembleia sinodal no Vaticano em 2023: o Sínodo pode ajudar a Igreja Católica em África, porque a Igreja precisa “seriamente” da ideia do “caminhar juntos”. Foto © António Marujo/7MARGENS

7M – Na assembleia de 2023, sentiu que há necessidades, pedidos e anseios diferentes dos católicos de Moçambique e da Europa, por exemplo? Ou há anseios coincidentes?

É claro que há necessidades e pedidos diferentes dos da Europa… Por exemplo, o contexto da guerra em que nós vivemos. Claro que também na Europa há guerra, mas este contexto de extrema pobreza de muitas Igrejas em África, e da Igreja moçambicana é diferente. Na assembleia de 2023, estivemos reunidos no fim de uma reunião plenária todos os bispos e delegados de África e um dos cardeais europeus, que convidámos para estar connosco, dizia: “A Igreja precisa de África, porque vós tendes problemas dos quais nós temos consciência que, de certo modo, também somos responsáveis. Aqui nas nossas escolas não se ensina nada da história da colonização de África.” Portanto, há essas diferenças, que são próprias da Igreja Africana, da Igreja moçambicana.

 

7M – Este Sínodo pode ajudar alguma coisa à Igreja Católica em Moçambique e em África?

Eu acredito que sim, acredito que pode ajudar porque a ideia mesmo do Sínodo, de caminhar juntos, a Igreja precisa dela, seriamente. Por isso penso que este Sínodo pode ajudar. Não trará soluções já feitas para todos os problemas, tanto mais que ainda se espera a segunda assembleia.

 

7M – E a África pode dar um contributo à Igreja Católica no resto do mundo? Qual seria o contributo mais importante?

Um dos contributos é, por exemplo, o da valorização dos ministérios laicais, que é já uma experiência bem concreta e, no caso de Moçambique, um grande contributo.

 

7M – Com os catequistas a liderar comunidades, por exemplo.

Sim. Quando se fala, por exemplo, de clericalismo, eu não diria que não existe em África, não diria que não exista em Moçambique, mas parece que no contexto europeu seja um pouco mais forte… E, portanto, isto aqui é um dado que a África pode também oferecer, sim.

 

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