
Porque é que pessoas que se consideram religiosas acreditam não no que deveriam, mas naquilo que não concorda com as suas próprias crenças religiosas? Porque acreditam e fazem o que não devem? Porque é que os crentes na Bíblia comem cheeseburgers quando as regras do Levítico dizem para não se misturar carne de vaca com lacticínios? Porque são racistas e defendem a pena de morte? Porque rezam para ganhar guerras? Algumas destas questões foram colocadas numa pesquisa efetuada pelo sacerdote anglicano Jason Slone, especialista em estudos científico-sociais e comparativos da religião na Universidade da Geórgia do Sul e onde classificou estes comportamentos como incorreções teológicas1.
As questões até são pertinentes porque, afinal, se se inquirir junto dos que se afirmam ou simpatizam com alguma fé religiosa acerca de quem pratica atos incorretos ou imorais, com grande probabilidade o dedo é quase sempre direcionado para os ateus2. Mas a incorreção teológica não é assim tão incomum no universo religioso, desafiando mesmo toda a sabedoria convencional e grande parte da erudição que temos acerca da religião e da maneira como ela funciona. A fim de se tentar explicar por que razão as pessoas fazem o que fazem e pensam o que pensam, o autor recorre ao método científico do comportamento religioso, o qual pode ajudar a corroborar que muitas das causas naturais do comportamento humano são limitadas pelos mecanismos cognitivos envolvidos no comportamento “não religioso” quotidiano.
Serão mesmo as pessoas religiosas mais morais do que as que não o são? Muitos procuram guiar-se por uma ética religiosa que tenha o seu zénite, por exemplo, no duplo mandamento de Jesus que resume toda a Lei e que desemboca essencialmente numa práxis, num estilo de vida: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força (…) e amarás o teu próximo como a ti mesmo”3. Mas também muitos dos que se consideram ateus revêem-se humanamente naquele princípio moral que o próprio Jesus deixou no seu Sermão da Montanha: “Tudo quanto quiserdes que vos façam as pessoas, assim fazei vós a elas. Pois esta é a lei e os profetas.”4
Estas questões deveriam interpelar os que somos cristãos acerca da nossa responsabilidade enquanto tal, num mundo cada vez mais destituído de valores, relativizado e sem sentido. Como podemos, enquanto cristãos, evitar cair nessas incorreções teológicas? Talvez tenhamos de repensar o nosso “cristianismo”, como sendo mais um estilo de vida relacional com Jesus e com o nosso próximo e menos uma adesão a um conjunto estrito de ritos e de crenças impostas por uma religião, as quais provocam, quase sempre irremediavelmente, essas incorreções teológicas. Praticamente tudo quanto Jesus disse e fez enquanto esteve no mundo, enfureceu os religiosos, cujas vidas eram inconsistentes com tudo aquilo que ensinavam. Mas tudo quanto Jesus requer dos seus discípulos é, afinal, um estilo de vida coerente e assente essencialmente na misericórdia e no amor, pois esse é o Seu mandamento, o de nos amarmos uns aos outros como Ele nos amou (Evangelho de João 15:12).
Vítor Rafael é investigador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo, da Universidade Lusófona.
NOTAS
1 Slone, D. Jason. Theological Incorrectness: Why Religious People Believe What They Shouldn’t. Oxford: Oxford University Press, 2004, 3-28
2 Gervais, W., Xygalatas, D., McKay, R. et al. Global evidence of extreme intuitive moral prejudice against atheists. Disponível em https://www.nature.com/articles/s41562-017-0151
3 Evangelho de Marcos 12:28-24. Bíblia: Novo Testamento, os Quatro Evangelhos, Vol.1, Tradução de Frederico Lourenço. Quetzal Editores.
4 Evangelho de Mateus 7:12. Bíblia: Novo Testamento, os Quatro Evangelhos, Vol.1, Tradução de Frederico Lourenço. Quetzal Editores








