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Januário Torgal Ferreira: “Sou Mozart, o Requiem é a música do meu maior encanto”. Foto © Joaquim Pedro Rocha/TSF, cedida pelo autor. 
Januário Torgal Ferreira: “Sou Mozart, o Requiem é a música do meu maior encanto”. Foto © Joaquim Pedro Rocha/TSF, cedida pelo autor. 

Vidas com história

Januário Torgal Ferreira, o bispo que não tem medo da verdade

 

No último momento da sua vida, “gostaria que o mundo vivesse em paz”. Januário Torgal Ferreira, 87 anos, bispo emérito das Forças Armadas e de Segurança, sente ao seu “lado tanta gente que não vive em paz” que aquele seria o desejo formulado para o momento da sua partida. Um anseio que se confunde com a música da sua eleição, o Requiem de Mozart. “Sou Mozart, o Requiem é a música do meu maior encanto”, afirma, na entrevista ao programa Vidas Com História, da TSF, em parceria com o 7MARGENS. “É um grito de esperança, um coro de lágrimas, um grito dolente, mas é também o levantar da vida, amanhã será melhor.” Sinfonia é o que deixará de ser a democracia, se não houver respeito pelas diferenças, dirá noutro momento da conversa. 

Nascido na freguesia de Santo Ildefonso, no Porto, em 26 de Fevereiro de 1938, Januário Torgal Ferreira era filho de uma professora de liceu, uma das primeiras mulheres a formar-se em Portugal. O pai, merceeiro e industrial de pastelaria, seria o criador da “Casa Januário”. Começou como marçano e contava que encontrou na Igreja “a fé e a cultura”. Não sabia ler e “foi a Acção Católica no pós-[Primeira] República que [lhe] deu valores, capacidades e sobretudo um desejo muito grande de crescer” num âmbito que nunca tivera em casa dos seus pais, recorda agora o filho. 

Elogiando a comunicação social e os jornalistas, o bispo Januário recorda o seu cargo de porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), entre 1993 e 1999. Há ainda muita desconfiança em sectores católicos, em relação ao papel dos média, diz, e ainda nas recentes eleições muitos jornalistas foram “injustamente avaliados”. 

Nesse papel de porta-voz da CEP, Torgal Ferreira fez várias declarações que lhe valeram polémicas. Agitando rádios, jornais e ecrãs, por vezes quase escandalizava crentes e políticos. Sobre a Igreja Católica manifesta, aliás, várias insatisfações, na linha do que sempre foi a sua linha de pensamento. Faz falta, diz em forma de pergunta, debater um “tema escaldante como as migrações” e ouvir uma voz assertiva a dizer que os migrantes são precisos no país. 

Admirador confesso do Papa Francisco, afirma que ele poderia ter avançado em algumas reformas mais. Aliás, há temas que têm de ser resolvidos “de supetão”, caso contrário não avançarão se for para fazer mudanças graduais. “Estou convencidíssimo que pelo menos o diaconado para a mulher era possível”, afirma, citando o exemplo de um desses temas. “E não sei se o próprio sacerdócio não podia ser uma solução”, acrescenta, afirmando que não teria “qualquer repugnância” em relação a mulheres ordenadas no catolicismo. Mas, admite, o “peso da tradição é forte”. 

“A imundície da barbárie de Gaza”

Papa Leão XIV à chegada à Praça de São Pedro, para a primeira audiência pública semanal. Foto Vatican Media

Papa Leão XIV à chegada à Praça de São Pedro, para a primeira audiência pública semanal: Torgal Ferreira espera que o novo papa manifeste “um clamor de justiça e humanidade”. Foto © Vatican Media

Acerca do novo Papa Leão, espera que ele manifeste “um clamor de justiça e humanidade” e refere os casos do acesso dos migrantes à justiça, recordando o discurso da bispa episcopaliana Mariann Edgar Budde na tomada de posse de Donald Trump em Janeiro; e também a “imundície desumana da barbárie de Gaza”. 

Sobre os casos de abusos sexuais, Januário Torgal Ferreira pensa que os bispos encobridores deviam sair e que a CEP teve “coragem de ir para a frente”, mas condescende: “Nem tudo correu bem. Chegámos um bocadinho tarde [ao tema], mas chegámos” e faltou fluidez” na forma de comunicar. “Não notei em ninguém a vontade de retardar, mas acho que devemos ser muito mais rápidos”, afirma. 

O jovem Januário frequentou a então escola primária na Ordem Terceira da Santíssima Trindade e o liceu Alexandre Herculano. Em 1948, entra no Seminário Diocesano de Ermesinde, terminando o curso de Teologia doze anos mais tarde, em 1960, no Seminário Maior do Porto. 

Foi ordenado presbítero na Sé pelo bispo Florentino Andrade e Silva, na altura, administrador apostólico da diocese, devido à ausência do bispo António Ferreira Gomes, forçado ao exílio por Salazar – episódios que Torgal Ferreira, expressando a sua grande admiração por Ferreira Gomes, de quem viria a ser chefe de gabinete. 

Ainda na década de 60, ingressa no curso de Filosofia da Faculdade de Letras do Porto e em 1968 vai para Paris, para fazer doutoramento sobre as teses personalistas do filósofo Louis Lavelle. Ficou alojado na paróquia católica de Argenteuil, nos arredores da capital francesa, onde passavam com frequência filósofos, pensadores, artistas… Discutia-se “de manhã à noite o Maio de 68”, a “liberdade, a defesa dos direitos humanos, os operários [que estavam] a ser calcados, os patrões que [deviam] ter a humildade intelectual de dar aos outros o que o bem comum exige”. Uma experiência que considera muito positiva e grata. 

Regressado ao país, aproxima-se da pastoral universitária e do movimento dos Cursos de Cristandade. No termo do exílio de Ferreira Gomes, “o famoso bispo do Porto”, como anos mais tarde lhe chamaria João Paulo II, o padre Torgal Ferreira é nomeado, por três anos, chefe de gabinete do bispo que bateu o pé a Salazar. 

Durante 18 anos, é assistente em Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde lecciona Filosofia Antiga e Medieval e História da Cultura, enquanto, na Universidade de Nanterre (França) faz a pós-graduação, orientada por Paul Ricoeur. É, entretanto, nomeado director da Pastoral Universitária da diocese do Porto e pároco de São José das Taipas. 

 

Um bispo que votou muitas vezes à esquerda

Torgal Ferreira durante a entrevista: o ideal de Sá Carneiro “foi desviado”. Foto © Joaquim Pedro Rocha/TSF, cedida pelo autor. 

Torgal Ferreira durante a entrevista: o ideal de Sá Carneiro “foi desviado”. Foto © Joaquim Pedro Rocha/TSF, cedida pelo autor.

Tudo muda na vida deste padre universitário portuense, com a nomeação, em 1989, para bispo auxiliar do patriarca de Lisboa, na diocese militar, já que esta entidade eclesiástica estava entregue ao responsável do Patriarcado. 

Em 2001, seria formalmente nomeado bispo da diocese das Forças Armadas e de Segurança, missão que cumpriu até 2013, ao completar os 75 anos canónicos para a resignação ao cargo episcopal. 

A intensa e agitada actividade em que se envolveu, na continuidade do lugar de porta-voz da CEP, catapultou-o para o topo da opinião pública, deixando muitas vezes constrangidos os seus colegas no episcopado. A facilidade e liberdade de expressão sempre contrastou com a serenidade apaziguadora da tradicional postura episcopal. Ainda é, com frequência, abordado na rua, por quem apoia as suas polémicas posições, sobretudo, em matéria política e mesmo partidária. Alguns reparos ter-lhe-ão chegado da parte do poder eclesial.

Nesta entrevista, Januário Torgal Ferreira explica ainda porque é que votou muitas vezes à esquerda, porque defendeu Saramago contra alguns sectores católicos (“um escritor invulgar”, afirma) e porque é que o ideal de Sá Carneiro, fundador do PSD de quem era amigo, “foi desviado”. Recorda ainda a “grande amizade” que o ligava a Maria de Lourdes Pintasilgo. 

A entrevista pode ser ouvida na íntegra em directo na TSF à meia-noite deste domingo, e às 3 da manhã e às 21h de segunda-feira. Também pode ser escutada em podcast na página da TSF. 

 

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