A propósito dos 10 anos da Laudato si’, do Papa Francisco, e dos 800 anos do Cântico das Criaturas, de Francisco de Assis, o 7MARGENS pediu a várias pessoas uma reflexão sobre o tema do jardim, enquanto tradução de uma relação entre a pessoa e a natureza, e enquanto espaço de confluência entre cultura e natureza, arte e ciência.
Neste segundo texto, Frei Fernando Ventura fala-nos do Éden como “desafio de construção e de realização da possibilidade de ser, como convite à construção do nós, com a criação inteira.”
Daqui até pelo menos 18 de Junho, data em que a encíclica foi apresentada publicamente, divulgaremos mais alguns textos sobre o tema, também na perspectiva do cuidado com a criação, tópico central desse documento fundamental do pensamento social católico contemporâneo.

Jardim do Centro Bíblico em Fátima: “O Jardim era o cenário, o espaço sonhado por Deus para o cumprimento do ‘destino’ da sua Obra. Só faltava cumprir-se…” Foto: Direitos reservados.
“E foi tarde, e foi manhã: foi o primeiro dia… chegado o sexto dia,
Deus descansou… e Deus viu que era tudo muito bom…”
(Génesis, 1)
LAUDATO SI!
Chegado o 7º dia, chegou o descanso de Deus…
Tudo estava preparado para o 8º dia. O Jardim era o cenário, o espaço sonhado por Deus para o cumprimento do “destino” da sua Obra. Só faltava cumprir-se…
Teve assim início o Tempo, o Tempo do cumprimento do Sonho de Deus e da tarefa da Humanidade; o Tempo em dimensão de eternidade, a geografia em dimensão de universalidade, o multiverso criacional e relacional confiado à “criatura por excelência”, a quem foi dada a ordem de Crescer, Multiplicar-se e Cuidar da Terra.
Gratuitamente, o coletivo ADAM, parte integrante da ADAMAH, recebe de Deus o Dom de ser Senhor e co-Criador, mas…
Tetelestai – haveria de se ouvir mais tarde na Hora da Cruz. Tudo está consumado, cumprido, realizado. Tudo pode ser recriado.
A tarefa e a forma de construir o Éden, acabava de ser explicada ao pormenor até ao fim.
Chegara o momento da explicação definitiva do “como” cumprir o sonho. Até ali, ninguém tinha percebido… se calhar, até aqui, poucos foram os que perceberam…

Cristo Ressuscitado. Igreja Paroquial do Alto da Trindade (Chaves): “Tudo está consumado, cumprido, realizado. Tudo pode ser recriado.” Foto © José Centeio
O que se cumpre na Cruz, que Cristo resume como tetelestai, “estar consumado, terminado, cumprido, explicado”, é o que se calhar ainda nos falta entender…
Quem morre na Cruz, não é um filho “mandado à terra” para apaziguar a ira de um Pai zangado que precisava da morte do Filho para se sentir “desagravado”. Quem morre na Cruz e ressuscita na manhã de Páscoa, num outro jardim, num outro horto, num túmulo novo de onde sai, é o próprio Deus, ainda e sempre a tentar explicar os “comos” da construção do Éden, os “comos” da forma de habitar o jardim… lugar de TODOS!
Do Éden, do Jardim do Éden, não somos chamados a ter saudades do passado. O desafio é o de ter saudades do passado.
O Éden como tal nunca existiu… O Éden, colocado no início genesíaco da revelação, está lá como desafio de construção e de realização da possibilidade de ser, como convite à construção do nós, com a criação inteira.
Como convite para construir espaços de liberdade infinita de ser e de ser com… sem medo de estarmos nus, sem necessidade de nos escondermos de Deus; no fundo, sem necessidade de nos escondermos de nós e do outro, de nos “cobrirmos” porque estamos nus… porque estamos em desequilíbrio connosco…Cristo Ressuscitado. Igreja Paroquial do Alto da Trindade (Chaves)
O “pecado originante”, o de querer ser Deus, de querer senhor da vida e da morte, conhecedor de toda a ciência do bem e do mal, desequilibrou-nos…
A Cruz volta a ser um sinal de equilíbrio… não o lugar da vingança de um Deus zangado, mas o lugar da pedagogia de um Deus criador que não desiste da criatura, que não desiste de desafiar para o sonho do paraíso, assim sejamos capazes de destruir os pesadelos com que vamos construindo o Tempo, para podermos sonhar TODOS, sonhos de eternidade no Tempo.
Jardim, equilíbrio, sonho de realização da eternidade no tempo, poesia que há-de ser capaz de falar mais forte que as prosas de desilusão e morte, tudo isto esteve na origem de um espaço que os Franciscanos Capuchinhos, pela mão, pela arte e pelo sonho do frei Lopes Morgado, construíram na sua própria casa, no Centro Bíblico de Fátima.
Tem só a dimensão do possível, mas leva em si o sonho maior de um poeta que sempre se sonhou no Tempo construtor de desafios de eternidade.

Jardim do Centro Bíblico em Fátima: “Jardim, equilíbrio, sonho de realização da eternidade no tempo, poesia que há-de ser capaz de falar mais forte que as prosas de desilusão e morte” Foto: Direitos reservados.
Jardim Bíblico e Coleção de Presépios, ao dispor de TODOS, em jeito de convite a TODOS para que partilhem o Jardim, lugar de encontro e de partilha – de partilha de cada um consigo, com os outros e com Deus – lugar de oração e espaço de ser, de ser maior do que os sonhos que tantas vezes nem sequer nos atrevemos a sonhar e de onde somos convidados a partir para contemplar a fé e a esperança feita arte, arte de presépios dos cinco continentes.
Aqui, na coleção de presépios, estão TODOS, estão 1300 expressões de vida, de cultura de fé e de arte. A obra de cada um dos artistas presentes, mostra como cada povo, cada cultura, cada continente “viu” e “vê” o acontecimento NATAL, o Deus connosco, que teima em continuar a nascer mesmo e apesar dos infernos que vamos construindo…
Nesta efeméride da LAUDATO SI, obra de um Francisco que se reviu na vida de outro Francisco, o de Assis, construtor do primeiro presépio, deixamos o convite para que os nossos leitores disfrutem sempre gratuitamente do espaço a que chamamos EVANGELHO DA VIDA, no Centro Bíblico dos Capuchinhos, em Fátima – Jardim Bíblico e Coleção de Presépios.
Aqui TODOS serão sempre muito bem-vindos!
LAUDATO SI!
Fernando Ventura é frade dos Franciscanos Capuchinhos e director da revista Bíblica.










