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Pormenor de uma das edições da Utopia de Thomas More.

LAUDATO SI' 10 ANOS; CÂNTICO DAS CRIATURAS 800 ANOS (6)

O Jardim como Representação na(s) Utopia(s) Ecológica(s)

 

A propósito dos 10 anos da Laudato si’, do Papa Francisco, e dos 800 anos do Cântico das Criaturas, de Francisco de Assis, o 7MARGENS pediu a várias pessoas uma reflexão sobre o tema do jardim, enquanto tradução de uma relação entre a pessoa e a natureza, e enquanto espaço de confluência entre cultura e natureza, arte e ciência.

Neste sexto texto (publicado na Brotéria, n.º2/3, volume 165, Agosto e Setembro de 2007, pp.137-147) Viriato Soromenho Marques percorre a ideia de utopia e fala-nos dos jardins como metáfora de uma modernidade alternativa, uma espécie de antecipação imagética do futuro.

Daqui até pelo menos 18 de Junho, data em que a encíclica foi apresentada publicamente, divulgaremos mais alguns textos sobre o tema, também na perspectiva do cuidado com a criação, tópico central desse documento fundamental do pensamento social católico contemporâneo.

 

As relações entre utopia e ecologia estão longe de serem fáceis. Com efeito, os discursos que se reclamam como defensores da central relevância das questões ecológicas e ambientais, no quadro problemático da civilização actual, definem-se essencialmente como críticos da modernidade. Ora, a “utopia”, introduzida como novo conceito em 1516, por Thomas More, é a síntese mais intensa e poderosa de todas as grandezas e sombras ameaçadoras da modernidade.

 

I. Utopias Modernas: Valores e Crítica

Retrato de Sir Francis Bacon (1561-1626) de Paul van Somer.

Seria incorrecto considerar que a utopia apenas surgiu, no que à sua substância diz respeito, no século XVI, por via das narrativas do ficcional navegador português Rafael Hitlodeu. Com efeito, Thomas More, um grande conhecedor da herança clássica, não deixou, na sua Utopia, de imitar o estilo e a atmosfera platónicas, onde a procura de uma representação do mundo como deveria ser, e não como era, estava claramente presente. Nessa medida, A República pode bem ser considerada como o modelo das utopias clássicas, pré-modernas.

Apesar de More ser menos platónico do que ele próprio certamente julgava (veja-se o lugar educativo que ele consagra ao trabalho manual, impensável para um ateniense clássico), a verdade é que o chanceler estadista britânico, e futuro Santo da Igreja Católica, não era ainda um pensador utópico totalmente moderno. Tais características ficarão reservadas para autores como Campanella e, sobretudo, Francis Bacon.

Quais são, então, os traços constitutivos do código genético das utopias modernas? Numa perspectiva sumária eles podem ser enunciados da forma que se segue:

  • Substituição da ética pela fusão da técnica e ciência (Descartes e Bacon).
  • Crença na transferência do infinito teológico e/ou metafísico para o mundo físico: progresso, crescimento exponencial, desenvolvimento, mobilização, aceleração…
  • Recusa da existência de limites intransponíveis pela tecnociência em aliança com o Estado, o Mercado, ou com ambos.

Enquanto para Platão os veículos da procura de uma cidade ideal eram de natureza essencialmente persuasiva, implicando o recurso maciço à educação e à autodisciplina ética, para os modernos, como Descartes e Bacon, o motor essencial da mudança em direcção a uma vida humana mais longa, confortável, previsível, e menos trágica, passaria pelo crepúsculo da “filosofia especulativa”, da Segunda Escolástica, e pela sua substituição por uma “filosofia útil”, resultante da aliança entre conhecimento e manipulação da Natureza, entre ciência e técnica.

Ao longo dos últimos três séculos temos assistido ao vibrante desfilar desta aposta ideológica na abertura indeterminada do mundo às modulações e modelações da nossa tecnociência. O mundo, a Terra, surgem como matéria-prima, amorfa e ilimitadamente robusta, pronta a ser transformada, pela livre decisão de um Demiurgo humano. O infinito deixou de ser um predicado atribuível apenas ao Deus criador do Cristianismo, ou às ideias puras da metafísica antiga, para se transferir para a indefinida e inesgotável capacidade plástica da criatividade humana, armada pelo braço da técnica.

Só no último século, entre 1901 e 2001, a força propulsora da tecnociência fez multiplicar a população humana quatro vezes e a riqueza económica por quarenta vezes. Um crítico do utopismo exponencial moderno chamaria a atenção para o facto de que apesar dessa imensa riqueza, a pobreza e a escassez afectam, ainda hoje, mais de metade da humanidade. Mas um qualquer Doutor Pangloss moderno, profeta e partidário da aliança entre técnica e ciência, não deixará de prometer um mundo cada vez melhor, e mais “infinito”, nos próximos cem anos.

Os valores das utopias modernas assumem características de uma grande e poderosa transversalidade, afectando todas as esfera da vida social. Laconicamente poderemos situar e enquadrar esses valores do modo que se segue:

  • Crença incondicional no progresso e na sua hierarquia vertical de fins. As diferentes modalidades de “progresso” são mutuamente exclusivas e autorizam-se a eliminar o pluralismo, entendido como um indesejável factor de atraso.
  • Cientismo, ciência e técnica como ideologias. A aposta na ciência ultrapassa o patamar epistemológico, tornando-se num verdadeiro acto de crença, num a priori anterior e exterior à esfera crítica. Nas suas manifestações mais recentes, o cientismo afirma-se numa radicalidade demencial, como é o caso dos autores transhumanistas, segundo os quais o hardware actual da condição humana, fruto da evolução natural, é um obstáculo à continuação ilimitada das aplicações tecnológicas, sendo por isso urgente uma nova engenharia do fenómeno humano!. É caso para recordar o lema da Liga Hanseática: navigare necesse, vivere non est necesse…
  • Idolatria do Estado (e/ou do Mercado) e das suas competências. As utopias modernas procuram “sujeitos” que as mobilizem e activem. Nos últimos dois séculos tem sido forte a oscilação entre os dois mais fortes rivais: o Estado e o Mercado.
  • Ideologia do «fim da história». O tempo é “espacializado”, é contemplado como um percurso a realizar, como uma meta a atingir. Nessa medida, ocorre um paradoxo entre o “novo infinito”, inerente aos diferentes tipos de humanismo moderno, e o imperativo de realizar a história, de a “finitizar”, cumprindo definitivamente a missão implícita nos diferentes programas da modernidade.
  • Concepção da política como conflito (Feind-Freund). As utopias modernas exigem um activismo político que não se compadece com compromissos. Reina a política do combate de vida ou de morte, das guerras entre “visões do mundo” (Weltanschauungen). A noção da política como prudência, realismo, e procura de um consenso construído deixa de fazer qualquer sentido, como a dicotomia acima enunciada de Carl Schmitt bem o significa.

Perante uma tão poderosa arquitectura axiológica, aquilo que poderemos detectar, como contravalores sensivelmente comuns, na miríade de discursos ligados à ecologia e ao ambiente pode subsumir-se num domínio essencialmente crítico.

Podemos, pois, falar em valores de uma crítica ecológica da modernidade bem como das suas utopias motrizes, da forma que de seguida se apresenta:

  • Pluralismo de fins, recusa de hierarquia vertical. O pluralismo do mundo humano, como diz Hannah Arendt, deriva do facto de apenas existirem homens e não “Homem”. Isso é válido para as narrativas e projectos de vida. A horizontalidade do respeito deve substituir a verticalidade da arrogância.
  • Crítica à desmesura do tecnologismo e da tecnociência. O que está em causa não é uma atitude ludista de recusa da técnica, mas a recusa de uma visão acrítica e acéfala dos riscos da sociedade tecnológica, bem como o mal fundado de uma visão infinitamente robusta da capacidade da Natureza suportar as nossas investidas plásticas, sem crise nem vacilação.
  • Suspeita face ao Estado e aos seus poderes efectivos. O mesmo vale para o Mercado. Assim como não há fins que mereçam um destaque privilegiado ao ponto de ser legítimo vislumbrar a possibilidade de eliminação de todos os outros, também não há veículos escatológicos de eleição exclusiva.
  • Percepção do futuro como abertura. O tempo é considerado como tal, numa diferença radical em relação à previsibilidade do espaço. O futuro pode apenas ser aberto, e não vislumbrado na previsibilidade de um horizonte cujos contornos se oferecem como disponíveis.
  • Política como cooperação, mesmo que compulsiva. É a resposta inevitável a uma concepção “moderna” de política que esteve prestes a sacrificar a espécie humana num holocausto nuclear (que está, hoje, mais latente, mas ainda não foi vencido nem definitivamente excluído).

 

II. Paisagens da Noosfera actual

O Conceito da Noosfera do filósofo francês Teilhard de Chardin, afirma que assim como há a atmosfera, existe também o mundo das ideias, formado por produtos culturais, pelo espírito, linguagens, teorias e conhecimentos.

A crise ambiental remete-nos para duas atitudes discursivas distintas. Do lado do seu diagnóstico, assume-se como crítica ecológica do impulso utópico. Do lado do discurso dominante, todavia, que com essa crise mantém uma relação ambígua e insegura, conduz a uma reflexão vacilante, titubeante e contraditória.

Nalgumas situações, o discurso do crescimento exponencial, uma das versões do utopismo moderno, transformou-se numa espécie de “double bind” amedrontado. Basta escutarmos o que hoje se escreve pelo mundo quando se fala na construção de novos aeroportos. Quase em simultâneo, surgem as vozes dos defensores de grandes estruturas, tendo em conta a rápida expansão do número de passageiros transportados ao longo da última década. Mas, mesmo ao lado, erguem-se as observações, envergonhadas, dos que chamam a atenção para o provável facto de já termos alcançado o “peak oil” (que se atinge no momento em que mais de metade de todas as reservas úteis existentes de petróleo já foram exploradas), sendo pouco risonha a possibilidade de alimentar indefinidamente um meio de transporte que se alimenta única e exclusivamente dessa fonte de energia. No mesmo campo semântico, está também o discurso oficial que promove o transporte aéreo e, ao mesmo tempo, pretende combater as alterações climáticas.

Outro exemplo de “double bind” reside no discurso oficial sobre demografia. Na mesma frase é possível detectar informações que remetem para: a) a necessidade de controlar o crescimento da população, devido ao seu enorme impacto ambiental; b) chamar a atenção para o grande índice de desemprego juvenil nos países europeus; c) defender a promoção de políticas públicas de incentivo à natalidade…

Não surpreende, portanto, que nos círculos mais próximos das preocupações ambientais as visões do futuro não se traduzam tanto em utopias ecológicas alternativas, mas antes em verdadeiras distopias ecológicas, presentes em obras mais ou menos recentes:

  • O interesse pelo colapso societal com fortes raízes ambientais está presente em autores como: Joseph A. Tainter (1988); Richard Heinberg (2003/4; Jared Diamond (2004); John Michael Greer (2005)
  • A proposta de que o ecossistema terrestre (“Gaia”) “responde” catastroficamente às agressões humanas acumuladas através das alterações climáticas, é patente em James Lovelock (2007)
  • A tese de que o inevitável desaparecimento do petróleo nas próximas décadas dará lugar a uma nova Idade Média, um período de “longa Emergência”, é o tema central, entre outros, de James Howard Kunstler (2005).
  • A hipótese de que a humanidade pode ter esgotado a sua capacidade para dar respostas adequadas à vastidão da crise global, aparece, claramente na tese da “falha de engenho”, avançada por Thomas Homer-Dixon (2006).

 

III: O Jardim como metáfora de uma modernidade alternativa?

Pormenor da capa do livro “The New Atlantis” de Francis Bacon, publicado por Start Publishing LLC

É do conhecimento público que a crítica ecológica não se limita a denunciar o mal fundado das visões de futuro contidas nas utopias modernas, de forte acento tecnocientífico. Ao nível do mainstream político, a partir do Relatório Brundtland, divulgado em 1987, passou mesmo a circular aquela que é hoje a visão canónica do futuro ideal para os ambientalistas: o desenvolvimento sustentável. Há, contudo, vários problemas. Este conceito apresenta uma enorme dificuldade. É demasiado hegeliano, demasiado dialéctico, diria até contraditório, para o gosto do tempo. Tem de ser explicitado, comentado nos seus detalhes e complexidades.

Por outro lado, “desenvolvimento sustentável” é um conceito que visa sobretudo descrever e caracterizar um processo político, económico e social de transformação e mudança. É uma fórmula absolutamente anti-utópica, no sentido em que, à primeira aproximação, é neutra, mesmo cega, do ponto de vista imagético. Pelo contrário, quando pensamos nas utopias modernas, ocorre-nos, de imediato, a visão da Ilha de Bensalem, da New Atlantis de Francis Bacon, com a sua Casa de Salomão, a primeira academia científica do mundo, e o primeiro esboço de tecnocracia alguma vez urdido pela mente humana. Quando pensamos em “desenvolvimento sustentável”, o nosso entendimento parece não conseguir estabelecer qualquer sinapse com a nossa imaginação. As nossas emoções emudecem, a nossa sensibilidade não tem qualquer representação no espaço e no tempo (mesmo imaginários) em que se possa suportar.

Estaremos condenados a não possuir qualquer representação daquilo que poderíamos designar como utopia ecológica? Será que o desenvolvimento sustentável não nos permite abrir nenhuma porta para o campo do simbólico, do iconográfico? Considero que a resposta não é necessariamente negativa, se soubermos ler nas entrelinhas das próprias modernidade, se atentarmos aos Holzwege, para usar uma expressão de Heidegger, se percorrermos caminhos apenas tentados, ou mal explorados.

É por essa via que chegamos à figura do jardim como representação possível para uma utopia ecológica, para uma figuração de uma sociedade sustentável, que, de momento, apenas podemos entrever através de um grande esforço da imaginação.

O primeiro contributo para esta elevação do jardim á condição de ícone da utopia ecológica podemos ir buscá-lo a Voltaire. Em 1759, na sua obra Candide, em pleno período de viragem intelectual da cultura europeia, ainda sob o efeito do estado de choque produzido pelo terramoto de Lisboa de 1755, Voltaire terminava esse seu conto com estas conhecidas palavras: “É preciso cultivar o nosso jardim” (Il faut cultiver notre jardin). Com isso, Voltaire assinalava o crepúsculo de uma longa tradição de metafísica especulativa, de que a teodiceia de Leibniz, e o optimismo de Alexander Pope tinham sido os derradeiros representantes.

Doravante, o remédio para a tragédia da condição humana teria de ser procurado na dimensão da história, no espaço e no tempo, e não através de uma reconciliação racional da nossa mente com os desígnios de uma Providência transcendente. A humanidade teria de aliar-se à Natureza através do trabalho árduo, transformando o mundo num jardim. Ora, aqui vemos a conjugação de dois elementos que terão um diferente sucesso no processo selectivo da modernidade. A transferência do Jenseits, do “para além”, para o “aqui e agora”, definido como o campo construído pelo esforço histórico e colectivo da humanidade tornou-se num traço genético, absolutamente incontornável, dos autores modernos, de Voltaire a Hegel e Marx, de Comte a Feuerbach e Nietzsche. O mesmo não se poderá dizer, contudo, da figura do jardim, e da ideia de aliança com a Natureza. Esses elementos do discurso de Voltaire acabariam por tornar-se residuais e periféricos, tendo em conta o advento do paradigma de dominação técnica, que se sobreporia a todas as vozes que, prudentemente, proporiam a figura da “aliança” ao modelo da “exploração” e “domínio” da e sobre a Natureza.

Um dos mais ilustres seguidores, mesmo que inconsciente, de Voltaire, foi Thomas Jefferson, o autor da Declaração de Independência e terceiro Presidente dos Estados Unidos da América. Rumando contra a força dos tempos, ele sempre criticou os riscos, para a liberdade e os costumes, de uma sociedade dominada pela indústria e pela urbanização. Até ao final da sua vida, manter-se-ia fiel ao que poderá ser designado como um ideal pastoral:

“Aqueles que labutam na terra são o povo escolhido por Deus, se Ele alguma vez teve um povo escolhido (…) Enquanto tivermos terra para amanhar (…) deixemos que as nossas oficinas permaneçam na Europa.”(Those who labor on the earth are the chosen people of God, if ever He had a chosen people […] While we have land to labor […] let our workshops remain in Europe, Notes on the State of Virginia (1785), Query XIX, pp. 678-679).

 

IV. O Jardim como futuro possível

Massimo Venturi Ferriolo “para quem os jardins desempenham uma dupla função como projectos de memória e futuro”

A tese de que os jardins podem ser apresentados como uma antecipação imagética do futuro pode ser surpreendida em diferentes autores. Tal é o caso de Massimo Ferriolo, para quem os jardins desempenham uma dupla função como projectos de memória e futuro (Ferriolo,1998: 169). Ou ainda, assumem-se como “projecto ético e estético do lugar bom e belo” (progetto etico ed estetico del bel luogo buono, Ferriolo, 2002: 164). O jardim pode ser interpretado, ainda, como uma refundação do mundo, como um acto quase “divino”, certamente próximo da figura do demiurgo: “Aquele que desenha um jardim actua como um Deus ou um demiurgo, ele transforma o caos em cosmo” (Celui qui dessine un jardin joue comme um dieu ou un démiurge, il transforme le cahos en cosmos, Baridon, 2002: 19).

Mas ninguém foi tão longe como Rosario Assunto na relação entre a conceptualização do jardim e a crítica da sociedade moderna, urbana, industrial, violentamente tecnológica, e temporalmente insustentável. Nessa medida, o Jardim do Éden não seria tanto um conceito a estudar arqueologicamente, mas sim uma proto-imagem de um futuro alternativo, a metáfora civilizacional de uma humanidade que tivesse sido capaz de vencer o “tecnologismo”, que reduz a santíssima trindade do belo/bom/verdadeiro, à mera funcionalidade do útil, ainda por cima de modo precário e efémero…

Para Assunto, a essência do jardim, como projecto de civilização cumpre uma tripla articulação, que poderemos integrar, sem dificuldade, numa economia semântica do utópico:

  • Equilíbrio entre o útil e o belo.
  • Harmonia entre a produtividade do homem e a fecundidade da Natureza.
  • Equilíbrio entre o jardim e o campo, numa paisagem de conexões e trocas.

Na mesma linha, de articulações e harmonias “sustentáveis”, surpreendemos o longo estudo dedicado por Aurora Carapinha às particularidades do “Jardim português”. Também aí poderemos encontrar a dimensão utópica da figura do jardim:

“À paisagem normalizada, monofuncional e sectorialmente organizada, corresponde um traçado de jardim regular, onde recreio e produção são mundos separados (…) A conciliação entre produção e recreio no jardim português é um facto, um determinismo natural (..)” (Carapinha, 1995: 368).

Para terminar, numa brevíssima síntese, identificaremos agora aquilo que a imagem do jardim não pode ser, e aquilo que ela deve ser, para poder desempenhar o papel de uma representação da utopia ecológica de uma sociedade sustentável.

O jardim não deverá ser concebido:

  • Nem como Wilderness, ou Selva oscura (para usar o termo de Dante), como se os humanos pudessem ser espectadores desinteressados de uma Natureza independente, e em grande medida ameaçadora.
  • Nem como Jardim de Versalhes (modelo da desvinculação), como se a Natureza fosse redutível a mero pano de fundo, a um capital natural, substituível pelo capital artificial.

Pelo contrário, o jardim deverá ser e representar:

  • Uma economia da comunicação, da abertura a um mundo mais vasto do que aquele que é permanentemente mantido pelo trabalho humano, e que deverá ser fonte deste.
  • Um trabalho e uma produção da vida e da sua reprodução que respeita as sources, que existem nos resources, visando sempre a sua regeneração e renovação, em vez do seu consumo destrutivo (Holmes Rolston, III).
  • Um habitat de construção solidária, estabelecendo a justiça no espaço, mas também no tempo, entre os vivos e os que ainda não nasceram (Jean-Marie Pelt, 2005: 136).
  • A plenitude da vida como condição e limite da plenitude tecnológica, ao contrário da insustentável vertigem do primado tecnológico (Hermínio Martins)

Referências bibliográficas

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ASSUNTO, Rosario, Ontologia y teleologia del jardín, tradução do italiano de Mar Garcia Lozano. Madrid, Editorial Tecnos, 1991.
BARIDON, Michel, Les Jardins. Paysagistes-Jardiniers-Poètes, Paris, Robert Laffont, 2002.
CARAPINHA, Aurora da Conceição Parreira, Da essência do jardim português, dissertação de doutoramento apresentada à Universidade de Évora, Évora, 1995, vol. I.
DIAMOND, Jared, Collapse: How Societies Choose to Fail or Succeed, New York, Viking Penguin, 2004.
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FERRIOLO, Massimo Venturi, Etiche del paesaggio. Il progetto del mondo umano, Roma, Editori Riuniti, 2003.
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KUNSTLER, James Howard, The Long Emergency – Surviving the Converging Catastrophes of the Twenty-First Century, New York, Grove/Atlantic, Inc., 2005.
LOVELOCK, James, The Revenge of Gaia. Why the Earth is Fighting Back – and How We Can Still Save Humanity, London, Penguin Books, 2007.
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MARX, Leo, “A dominação da Natureza e a redefinição do progresso”, Progresso: ilusão ou realidade? tradução de Maria Manuel Cobeira e José Gabriel Flores, Lisboa, Bizâncio, 2001, pp. 312-337.
PELT, Jean-Marie, Solidariedade nas plantas, nos animais, nos humanos, tradução Fernando Marques, Lisboa, Mareantes Editora, 2005.
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SOROMENHO-MARQUES, Viriato, Metamorfoses. Entre o colapso e o desenvolvimento sustentável, Mem Martins, Publicações Europa-América, 2005.
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