Filmes, debates e edições

Jean Moulin enterrou a pistola, mas cumpriu o “banal dever cívico” de resistir; agora, será evocado em Lisboa

| 27 Set 21

Quando se tornou líder da Resistência francesa ao nazismo, foi-lhe dada uma pistola que ele enterrou e nunca usaria. Jean Moulin foi um cidadão banal que entendeu que o seu dever era resistir à barbárie. Uma quinzena de actividades em Lisboa evoca a sua passagem por Portugal, onde durante cinco semanas redigiu um importante relatório que permitiria unir a Resistência.

 

Ilustração do livro Jean Moulin: A Sombra Não Apaga a Cor © Tiago Albuquerque

 

Em Lisboa ele redigiu um relatório sobre a Resistência ao nazismo em França, que permitiu unificar os movimentos de oposição à barbárie. Há 80 anos, Jean Moulin, um jovem prefeito francês, “capaz de resistir e fazer disso um banal gesto de dever cívico e republicano”, passou cinco semanas em Lisboa, a partir de 13 de Setembro de 1941, a preparar a unificação da Resistência, recorda João Paulo Cotrim ao 7MARGENS. Moulin estava a caminho de Londres, onde se encontraria com o general Charles de Gaulle. A partir desta segunda-feira, 27 de Setembro, a sua passagem por Portugal será evocada com um programa que inclui edições, exposições e debates em Lisboa.

A iniciativa começa com a apresentação de um postal inteiro dos CTT, na estação de correio do Largo Camões (dia 27, 18h). Prossegue com a inauguração de duas exposições: Jean Moulin Lisboa 1941 (dia 28, 18h, na Casa da Imprensa, até 10 de Outubro); e Dançar nas Ruínas (dia 30, 18h30). Continua com a exibição de quatro filmes sobre Jean Moulin e a Resistência, nos dias 30 de Setembro, 1, 2 e 3 de Outubro (sempre às 21h15, no Cinema Ideal). “Resistência e heróis” é o tema para um debate com os historiadores José Pacheco Pereira e António Araújo e a moderação de Ana Sousa Dias (8 de Outubro, 18h, Casa da Imprensa). A apresentação do livro ilustrado Jean Moulin: A Sombra Não Apaga a Cor, de João Paulo Cotrim e Tiago Albuquerque (dia 9, 17h), completa o programa, que pode ser consultado na íntegra na página da Casa da Imprensa. “Jean Moulin é uma figura muito interessante”, diz o editor João Paulo Cotrim, uma das pessoas do grupo informal que se juntou à volta do antigo presidente da Câmara Municipal de Lisboa, João Soares, para promover esta iniciativa. Além de ambos, a iniciativa junta ainda o designer Jorge Silva, o jornalista José Manuel Saraiva e a historiadora Manuela Rêgo, com o apoio da Casa da Imprensa.

 

Postal dos CTT que assinala a passagem de Jean Moulin em 1941, que será apresentado nesta segunda-feira, 27.

 

As cinco semanas que Moulin passou em Lisboa são “simbólicas: ele escreveu aqui o relatório que fez o ponto de situação sobre a Resistência e permitiu unificar os que se opunham ao nazismo”, acrescenta Cotrim. Não tendo nunca integrado qualquer partido, era um jovem com “princípios republicanos”, que optou pelo funcionalismo público deixando a carreira artística que tinha em perspectiva.

O relatório escrito em Lisboa viria a dar início à “Operação Rex” que, sob o comando de Jean Moulin, unificou as várias forças de Resistência anti-nazi dispersas. “O modo exemplar como se colocou ao serviço dos valores republicanos, dizendo não! em nome da liberdade, até ter sido morto às mãos dos torturadores nazis, começou a ser celebrado pela França”, recorda a nota de imprensa sobre a Quinzena Jean Moulin. Esse movimento de evocação do resistente ainda não parou, depois de ter sido iniciado “aquando da sua entrada no Panteão, nos anos 1960, pela mão do general De Gaulle e André Malraux. O então ministro da Cultura de De Gaulle afirmou, sobre Moulin: “Hoje, juventude, pudesses tu invocar este homem de modo a tocar com as tuas mãos a sua pobre face naquele seu último dia, tocando os lábios que não falaram, naquele dia ele foi o rosto da França…”

Jean Moulin, que ao longo dos anos tem sido alvo de muitas investigações e homenagens em França, tinha sido o mais jovem subprefeito (cargo semelhante aos antigos governadores civis) de França, em 1926. Em 1937, tornou-se também o mais jovem prefeito, no departamento de Aveyron (a metade do caminho entre Toulouse e Montpellier, no Sul de França). Foi nesse cargo que, recorda Cotrim, se recusou a assinar uma declaração preparada pelos nazis, segundo a qual os militares africanos das colónias franceses tinham cometido atrocidades. Demitido pelo Governo colaboracionista de Vichy, é nessa altura que parte para Londres, com passagem por Lisboa.

Regressaria depois para a parte sul não ocupada de França, com a tarefa de organizar a Resistência unificada sob a supervisão de De Gaulle. Em Maio de 1943, tornar-se-ia o primeiro presidente do Conselho Nacional da Resistência mas enterrou a pistola que lhe foi dada e que não usaria nunca.

Pouco depois, é traído e preso pelos nazis, sendo interrogado e torturado por Klaus Barbie, chefe local da Gestapo e conhecido como “carniceiro de Lyon”. Acabaria por morrer a 8 de Julho, quando estava a ser levado para a Alemanha, nunca tendo sido encontrados os seus restos mortais. Desde 1964, o Panteão nacional de França homenageia-o com um memorial.

Quando estava preso, ainda escreveu uma carta à mãe, na qual considerava não ter feito nada de especial: “Não sabia que era tão fácil cumprir o meu dever.”

Cartaz da Quinzena Jean Moulin em Lisboa.

 

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Onde menos se espera, aí está Deus

Onde menos se espera, aí está Deus novidade

Por vezes Deus descontrola as nossas continuidades, provoca roturas, para que possamos crescer, destruir em nós uma ideia de Deus que é sempre redutora e substituí-la pela abertura à vida, onde Deus se encontra total e misteriosamente. É Ele, o seu espírito, que nos mostra o nosso nada e é a partir do nosso nada que podemos intuir e abrir-nos à imensidão de Deus, também nas suas criaturas, todas elas.

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This