Jesus Cristo, o estrangeiro aceite pelos povos bantus

17 Abr 19Entre Margens, Últimas

O bantu, que desconhece o Deus de Jesus Cristo, deseja apenas uma felicidade natural; a sua esperança termina numa comunhão vital comunitária, agora e depois da morte. Como sabe que pode adquirir esta felicidade com ajuda destes seres, a eles se dirige, neles confia e a eles teme. Não espera uma ordem nova de coisas […]. (Altuna, 2006: 422)

 

No meu último texto, deixei dois assuntos para conversas futuras e alguns dos que me leram pediram que os retomasse numa próxima oportunidade. O primeiro tinha a ver com a abordagem de Jesus Cristo na perspetiva bantu. O segundo, com a questão da fertilidade, aliada à atribuição de responsabilidade na CRB (Cultura e Religião Bantu).

A afirmação sobre Jesus Cristo surgiu na sequência de que esse povo aceitava a ideia da existência de um só Deus, em três pessoas: Pai, Filho e Espirito Santo. Entretanto, no referido texto mencionei o acesso a Deus, por via deste e por via do Espirito Santo, apontando similaridades entre a CRB e a TCA (Tradição Católica Apostólica), na forma como os recebem. Faltou menção ao Filho, daí a necessidade de retomar o assunto.

Jesus Cristo é uma entidade exterior aos bantu. É estrangeiro, praticamente um desconhecido, mas aceite pelos bantu. Embora se saiba de antemão que Jesus é originário do Médio Oriente e não português, povo que levou o Evangelho para África. Parece um contrassenso? A questão que se coloca é que, antes da evangelização portuguesa, já havia práticas religiosas entre os bantus e essa entidade não era “tida nem achada” no âmbito dos cultos e das orações dirigidas a Deus. Essa figura, sendo anteriormente desconhecida, é aceite, na medida em que o filho do pai de um bantu é irmão desse bantu. É uma questão filosófico-existencial.

Explico melhor. Na filosofia bantu, os filhos das madrastas são sempre irmãos e não se utiliza o conceito de meio-irmão, uma vez que filhos de fora do casamento não são considerados bastardos; até porque na maior parte das comunidades se pratica a poligamia. Também não existe a figura de primo. Os filhos de um tio, irmão do pai de alguém, são também irmãos, pois são filhos do um segundo pai. Uma vez pai, é pai para todos os filhos e sobrinhos. Existe a distinção de que há um pai biológico de uma pessoa, cujos irmãos desse pai funcionam como pais (embora não o sendo biologicamente e sendo, na conceção europeia, tio, irmão do pai). Virá daí a facilidade em aceitar Jesus Cristo, o filho de Deus, como irmão e isso não constitui problema algum. Ele é também um irmão. Mas a Ele não se presta culto, nem se pede intercessão junto a Deus, uma vez que esse papel cabe a pessoas escolhidas pela família, entre vivos e mortos.

A segunda questão tinha a ver com o facto de, entre os bantus, a fertilidade ser um assunto vital, de tal forma que só se dá responsabilidade de zelar por uma família ou outros deveres públicos sociais ou políticos a quem já tenha filhos.

Os bantus são pessoas que estruturam a sua vida comunitária em função da família: a família nuclear, os clãs, as tribos e os reinos. E essa estruturação deve ter impacto na vida social, política e espiritual. Estas dimensões não se dissociam. A família nuclear não é composta de acordo com os mesmos critérios que a dos europeus. Ficou acima mencionada a ideia de que não existem filhos bastardos, nem primos; pelo que  a família nuclear vai para além da existência de uma mãe, um pai e os respetivos filhos. Há muito mais do que isso.

Em termos práticos, existe até a ideia de que, se um homem não for fértil, o assunto fica entre a família e a sua esposa pode ser fecundada por um outro homem da mesma família direta do seu marido ou não, desde que as crianças nascidas dessa mulher e no seu seio ou na comunidade na qual vive o referido homem, que não fecunda, faça parte. Existe até um dito para explicar o facto: “se nasceu no meu quintal, filho da casa é ou meu filhoé” e isso é um segredo guardado entre as famílias. Não se discute.

Com isto quero reiterar, primeiro, a relatividade em aceitar-se um filho ou irmão não consanguíneo, como irmão pleno e a importância de se ser pai ou mãe. A grande realização de um bantu é a de se casar e de ter filhos. Isso confere-lhe riqueza e poder. Nessa condição, a pessoa é muito bem aceite socialmente, dando-lhe o direito de participar na vida social, política e espiritual. Essa ideia da preservação da família vai ao ponto de que, em algumas sociedades, morrendo um dos esposos, deverá ser escolhido o irmão ou  irmã destes para, inicialmente em cerimónia própria, o sororatoou o liverato, desencadear-se um processo que terá como fim o facto de os intervenientes passarem a relacionar-se como um casal, podendo ter outros filhos que daí derivem e tendo a obrigação de cuidar dos filhos de ambos que já existam. Em primeira instância, o ritual serve para purificar a viúva ou o viúvo, mas tem também o propósito de manter o viúvo ou a viúva na mesma família e dar-se continuidade às responsabilidades que já existiam.

Realço um facto que desperta interesse, relacionado com a ideia da importância em se ser casado, para procriar e manter a família. É um exemplo muito antigo que aconteceu numa família que abordei quando estudava este assunto. Um dia um homem, já em idade de se casar, saiu da sua terra no interior do país e foi à capital, à grande cidade na qual ia trabalhar para juntar dinheiro para regressar à sua terra e casar. Sucede que, antes de partir,  já se tinha apresentado a uma família como alguém que pretendia desposar uma determinada menina daquela casa. Saiu, portanto, da terra, deixando uma noiva atrás. O curioso é que, quando regressou, o homem encontrou a noiva casada com um outro homem. Tendo questionado a família da sua noiva, recebeu a resposta e a autorização de se casar com a sua irmã mais nova e o facto consumou-se. Os laços familiares daquele homem continuaram unidos aos laços familiares da família da sua ex-noiva. O mais importante é que ele tivesse a quem desposar naquela família. Viveram juntos até a morte.

No que concerne a questões espirituais, por exemplo, a responsabilidade de encabeçar rituais religiosos cabe a um chefe de família, na maior parte das vezes um primogénito, mas nem sempre. Na sua ausência, em algumas comunidades, toma-lhe o lugar o indivíduo ao qual se tiver dado o nome do falecido, o xará, o seu homónimo – se assim o quisermos designar – após consultado o conselho de família. Em outras comunidades, o papel passa a ser exercido por um ancião escolhido. Mas não basta que seja apenas ancião, tem que ter tido filhos, família e um comportamento socialmente aceite.

A responsabilidade a ser desencadeada do ponto de vista espiritual tem a ver com a ligação entre a família e os antepassados, a invocação dos espíritos e o zelo pelo equilíbrio social, familiar e espiritual, ditando a moral e os costumes a serem seguidos. Nada acontece sem que seja consultado e é por isso que tem que ter demonstrado à sociedade que é pai, procriou. Se pode gerir a sua família nuclear, assume-se que tenha competências para gerir uma comunidade, um clã, uma tribo ou um reino, até mesmo um império.

 É em suma o que, neste momento se me afigura suficiente para explicar. Jesus Cristo, sendo estrangeiro para os povos bantus, é aceite como irmão, filho de Deus Pai, mas na CRB não Lhe é prestado culto. Por outro lado, as responsabilidades sociais, políticas e espirituais no seio deste povo, são atribuídas a pessoas que tenham tido filhos, por se assumir serem capazes de gerir uma família nuclear e por consequência, um clã, uma tribo, um reino ou um império.

 

Sara Jona Laísse é docente de Cultura Moçambicana na Universidade Politécnica (Maputo, Moçambique) e membro do Graal (Movimento Internacional de Mulheres Cristãs) – Moçambique; saralaisse@yahoo.com.br

 

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