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Jesus e a opção preferencial pelos pobres

| 15/07/2025

A opção preferencial pelos pobres e vulneráveis está, sem dúvida, amplamente atestada nos evangelhos. Do início ao fim daqueles quatro pequenos, mas sublimes livros, Jesus toma claramente o partido dos mais fracos numa sociedade em que não era possível sequer sonhar com o mais ínfimo equilíbrio de forças. Uma casta de privilegiados ocupava os lugares cimeiros, dominando assim tanto no plano político, como no plano económico e religioso. O conluio entre os protagonistas — agentes políticos, económicos ou religiosos — era claro e dele decorria a total subjugação do povo. Numa sociedade inteiramente blindada aos anseios dos mais vulneráveis, era praticamente impossível qualquer pretensão de ascensão social e as classes elevadas eram imunes a todo e qualquer desafio que pudesse conduzir à sua desclassificação ou à intrusão de elementos que lhe fossem estranhos. Enfim, quem nascesse pobre, morreria pobre. Quem nascesse privilegiado, legaria o mesmo privilégio aos seus descendentes.

Mas Jesus destoava. As suas investidas contra o poder político, económico e religioso foram tão insistentes que fizeram tocar os alarmes junto das cúpulas. Era preciso neutralizar um tal ativista. A sua doutrina e o seu comportamento minavam as bases do edifício social tal como fora solidamente construído pelos antepassados, sob o olhar complacente de um deus desenhado de acordo com os interesses das classes dominantes. Quem era, então, este “carpinteiro”, oriundo de uma aldeia remota, numa província sem protagonismo na história sagrada de Israel? Decerto seria um zé-ninguém que era urgente eliminar antes que o povo se reunisse sob o seu comando e acreditasse seriamente na possibilidade de uma sociedade igualitária, sob o comando de um Deus misericordioso, protetor dos desvalidos. E não deixaram por mãos alheias a consecução desta decisão. Num conluio entre o poder político e o poder religioso, prenderam-no, julgaram-no e crucificaram-no, alimentando a esperança na dispersão dos seus discípulos e na morte dos seus ideais, perigosamente igualitários.

A Igreja Imperial

Papa, Ucrânia

“O papa Francisco inscreve-se hoje naquelas exceções que a história vai gerando, inspiradas no comportamento e na mensagem do protagonista dos quatro evangelhos.” Foto captada em em entrevista à RTV Suíça.

Os dois mil anos que se seguiram contam uma história de contradições entre a tímida defesa das suas ideias (em parte domesticadas ou mesmo esquecidas logo depois da sua morte) e o claro alinhamento da Igreja cristã com os poderes constituídos, votando ao abandono os menosprezados da história. A Igreja imperial — saída da decisão oficial de dar liberdade ao cristianismo, num primeiro momento, e torná-lo, num segundo momento, religião oficial do império — estava plenamente empenhada em defender os interesses das classes possidentes, ainda que para tal usasse indignamente determinadas doutrinas religiosas. Infelizmente — com algumas e surpreendentes exceções (claramente enraizadas no originário evento cristão) — a estrutura eclesial usou o seu poder espiritual para amparar o poder político vigente e o consequente poder económico que com ele colaborava, mantendo inalterada a estrutura desigual em que a sociedade assentava. Tudo isto, obviamente, contra os interesses do povo, dos pobres e dos deserdados da terra.

O papa Francisco inscreve-se hoje naquelas exceções que a história vai gerando, inspiradas no comportamento e na mensagem do protagonista dos quatro evangelhos.

A urgência de clarificação

Pobreza, sem-abrigo, Roma

Pobreza, sem-abrigo, Roma. Foto © António Marujo/7MARGENS

Cada vez estou mais consciente de que todos os seres humanos (e, por maior força de razão, todos os cristãos) são confrontados com a necessidade de tomarem uma opção fundamental e decidirem de que lado estão nesta “luta” incessante entre os interesses dos poderosos e os interesses do povo, uma vez que uns e outros têm interesses antagónicos. Essa interpelação não nos é necessariamente dirigida por ninguém em particular, nem há nenhum momento da nossa existência em que tenhamos publicamente de aderir a um ou outro lado. É no reino interior da nossa consciência que esta injunção se nos coloca e é ali — nesse espaço sagrado onde não há lugar à mentira — que a opção fundamental tem de ser tomada. Dir-me-ão que muita gente nem se coloca o problema. Porém, quando confrontada com a realidade na sua crueza, ao silenciar a defesa dos párias da história, coloca-se efetivamente do lado dos opressores. O silêncio é, de facto, um tácito apoio à ordem estabelecida, na sua profunda injustiça, e aos interesses das classes dominantes.

Mas não será possível assumir ora uma posição ora outra, de acordo com as circunstâncias? Afinal, nenhum “partido” tem a verdade toda! No que diz respeito à defesa dos justos interesses dos mais vulneráveis, não há espaço a qualquer tergiversação. Transigir com uma sociedade injusta que explora os fracos para benefício dos poderosos nada tem de cristão. Se observarmos atentamente o mundo tal como ele se nos apresenta, na sua crueldade organizacional, nas suas clivagens sociais, na sua desigualdade sempre maior, não podemos deixar de nos indignarmos.

Embora a indigência extrema tenha diminuído a nível mundial, a pobreza mantém-se em valores constantes desde os anos 90 do século passado. Contudo, a riqueza produzida aumentou muitíssimo. Quem se apoderou desses bens? Alguns estados puderam usufruir deles, mas há sobretudo um conjunto de multimilionários cujo poder é tão grande ou maior do que o de muitos estados. 10% das pessoas mais ricas do mundo detêm 45% da riqueza total! Se isto não é profundamente injusto…

Por que razão chegámos a esta situação? O sistema capitalista tende a privilegiar a concentração de riqueza nas mãos de poucos e a excluir uma fatia enorme da população. Ainda assim, acredito que o sistema capitalista pode ser mantido dentro de limites aceitáveis se os poderes políticos estiverem realmente interessados em governar para benefício do povo e não em função dos interesses dos mais ricos. Infelizmente, não é isso que tem vindo a acontecer nas últimas décadas. O que observamos é o poder do Estado a ser capturado pelas classes economicamente dominantes e os governos, por interesses pessoais (cada político quer pensar na construção do seu sucesso pessoal e familiar), a gerir a coisa pública em função dessas classes.

Participação política

“Bem sei que Joe Biden nunca entusiasmou, mas parece ser o homem certo para devolver a dignidade à Casa Branca. Voltaremos a ter um ser humano na presidência do país mais poderoso do mundo.” Foto: Direitos reservados.

Apesar de a implementação de uma sociedade mais justa não depender apenas de cada cidadão, a forma como agimos tem relevância. A pior atitude que podemos tomar é a que resulta de sentirmos que estamos à partida derrotados, que tudo está pré-determinado, que há poderes ocultos (ou manifestos) que não controlamos e que, quer votemos quer não o façamos, quer elejamos A ou B, tudo estará como sempre esteve. Cada cidadão, pelo contrário, pode fazer a diferença se assumir um comportamento interventivo, se procurar influenciar os outros, se ousar pensar a situação política e económica. A participação cívica não se esgota nem deve esgotar-se no ato de votar, ainda que o sufrágio universal seja uma conquista civilizacional de que não devemos jamais abdicar. Porém, influenciar o poder a tomar decisões não se fica pelo voto que depositamos na urna, também se concretiza através de outras intervenções cívicas, sejam protestos, apoios a determinadas políticas ou propostas de resolução de problemas concretos.

É preciso, no entanto, ter em consideração que uma participação cívica coerente com as nossas convicções depende da nossa literacia política. Sem informação correta acerca da realidade social, económica e política não podemos tomar decisões justas. Um dos grandes desafios da atualidade é sabermos distinguir as meras opiniões dos factos e, no que se refere aos últimos, distinguir os reais dos fictícios, propagados pela mentira descarada ou mascarada. Sem esta atitude crítica, não há decisões informadas.

Os partidos políticos não são religiões nem clubes de futebol aos quais entreguemos a nossa afeição perpétua. Num dado momento, pode acontecer que um partido se me apresente favorável à defesa de uma sociedade mais justa, mas noutro momento, o mesmo partido não corresponda às minhas expectativas. Não devo nenhuma obediência absoluta a qualquer partido! Embora haja uma ideologia subjacente a cada um, os atores políticos também têm um papel relevante na orientação dada às políticas concretas. Não nos deixemos enganar pelas suas promessas, sobretudo quando sistematicamente não as cumprem.

No que se refere ao mundo cristão, muito por influência de discursos conservadores no seio das Igrejas, observa-se uma clivagem entre as palavras que proferimos e as decisões que tomamos. É quase certo que poucos cristãos rejeitariam o princípio da opção preferencial pelos pobres, mas o voto nas urnas e o débil empenhamento na defesa dos direitos sociais revelam que as nossas palavras estão, em larga medida, vazias de conteúdo, são a mera repetição de frases feitas, sem que a elas corresponda convicção profunda.

Jorge Paulo é católico e professor do ensino básico e secundário.

 

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