
Imagem do filme Conclave: O Papa morreu, inicia-se o conclave. A acção desenrola-se entre a Casa de Santa Marta e a Capela Sistina, entre os cardeais Lawrence, Bellini, Tremblay, Tedesco e Adeyemi.
Imagine-se a morte de Francisco, um Papa amado e reconhecido por muitos como aquele que veio devolver a esperança num catolicismo aberto ao mundo, embora firme na defesa de princípios que expressam a sua forma particular de entender a condição humana. No filme, as bombas e os atentados lá fora vão sugerir um combate sem quartel sob as bandeiras das teocracias do Médio Oriente e as religiões seculares dos restantes despotismos, orientais e ocidentais.
O Papa morreu, inicia-se o Conclave. A acção desenrola-se entre a Casa de Santa Marta e a Capela Sistina. Entre os cardeais Lawrence, Bellini, Tremblay, Tedesco e Adeyemi. Perfis a traço grosso, excepto, talvez, Bellini (a sua súbita, incontida ira a sugerir a impaciência de alguma esquerda católica), e certamente Lawrence, o decano, aquele que mais serena e fielmente transporta consigo a esperança do Vaticano II.
Podia ser apenas mais uma história edificante de luta pelo poder, e nem é o desenlace o que mais impressiona, ainda que contenha uma mensagem católica certeira sobre matéria que até a alguns católicos causa enorme confusão. E podia ser, sem dúvida, mais uma história de poder e incapacidade de transformação: desde o início nos é dito que se a fé em Deus pode não ter vacilado, já a parte de crédito reservado à Igreja se quebrou, talvez definitivamente. E mesmo se pensarmos nos contendores, até em Tedesco, o conservador (a sugerir um retorno a Bento XVI?), há uma espécie de saudade da promessa de universalidade do catolicismo, que se vê exemplarmente desmentida pelo simples alinhamento linguístico dos comensais no refeitório de Santa Marta. Mas é certamente outra coisa que trabalha no interior do filme, e essa coisa é que é linda, como diria o poeta.

Pieter de Bloot (1601-1658), Jesus em Casa de Marta, Museu Nacional de Arte Antiga (imagem reproduzida da Wikimedia Commons): O texto do Evangelho de Lucas amplifica a metáfora visual dos alimentos, antepostos à figura de um Cristo sereno interpelado por Marta: que alimento deve o crente/espectador preferir? («Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada.»)
Eis, então, o que me parece ser uma das chaves mais interessantes do filme. Não se trata propriamente da decifração de uma mensagem oculta, mas apetece pensar numa explícita remissão para um aspecto central da mensagem evangélica, contido em versículos de Lucas, no episódio em que, de visita à casa das irmãs Marta e Maria, a primeira, desembaraçada de volta dos tachos e panelas, mas farta de não ter quem a ajude, enfrenta o Filho de Deus: Então? Eu aqui a fazer-vos o almoço e a minha irmã sentadinha a Teus pés na conversa?
Conhecemos a resposta, mas talvez nos escape a consequência brutal da enviesada interpretação da premissa verdadeira enunciada exemplarmente em João. Sim, no princípio é o Verbo, mas como se decide quem há-de proferir a boa mensagem, em nome de Deus, pelos séculos vindouros? E por que razão Deus se fez Homem-homem, e disso resultou uma indisfarçada vanglória masculina comum a todas as religiões do Livro? E por que razão, a despeito de todos os panegíricos à santidade imanente da gestação e à eminência da outra Maria, as mulheres não partilham a confiança que em si mesmos depositam, há milénios, os homens implacáveis que, despidos da fé no divino, amam, com soberba, o poder e a glória terrenos. Outro homem, porém, vindo de Cabul, o lugar da mais extrema misoginia, da mais bárbara violentação e supressão da voz, do rosto e da pessoa de Marta, sugere o caminho.
Diria, com Isabella Rossellini e as três freiras que, em alegre companhia, atravessam o pátio na última cena do filme: Marta continua à espera de resposta mais convincente.
Conclave
Realizador: Edward Berger
Elenco: John Lithgow , Lucian Msamati , Stanley Tucci , Ralph Fiennes , Isabella Rossellini
2024, EUA/GB, 120 min
João Santos é professor









