Brasil

Júlio Lancellotti, o padre elogiado pelo Papa que a direita acusa de “lucrar com a miséria”

| 12 Jan 2024

Padre Julio Lancellotti. Foto Adriana Spaca, via Missionários da Consolata

O presbítero de 75 anos está a ser acusado por um vereador da cidade de explorar a situação dos dependentes químicos em São Paulo. Foto © Adriana Spaca, via Missionários da Consolata

 

Estar ao lado dos mais pobres de São Paulo (Brasil), em particular os sem-abrigo e toxicodendentes da região conhecida como Cracolândia, já tinha valido ao padre Júlio Lancellotti muito insultos e até ameaças de morte. Agora, o presbítero de 75 anos está a ser acusado por um vereador da cidade de liderar a “máfia da miséria” e “lucrar com o caos na Cracolândia” e a sua ação poderá ser alvo de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) em fevereiro. Várias instituições e personalidades do país manifestaram já o seu apoio a Lancellotti, alertando que se trata de um caso de “perseguição política”.

As mais recentes acusações ao padre Júlio Lancellotti, cujo trabalho foi já publicamente elogiado pelo Papa Francisco e que venceu um prémio de Direitos Humanos, surgiram no início deste mês. No dia 3 de janeiro, o vereador de direita Rubinho Nunes disse à imprensa brasileira que havia conseguido 30 votos entre os seus colegas, dois a mais que o mínimo exigido, para lançar um comité de investigação imediato, com o objetivo de investigar o papel de Lancellotti e de algumas instituições de solidariedade com as quais estaria envolvido.

De acordo com Rubinho Nunes, as organizações não-governamentais e respetivos ativistas, entre os quais o padre Lancellotti, que atuam na Cracolândia exploram a situação dos dependentes químicos, limitando-se a distribuir kits de alimentação e higiene sem combater eficazmente o seu vício. Na sua opinião, eles continuam o problema em vez de o resolverem, enquanto “lucram politicamente com o caos na Cracolândia”. “Existe uma chamada ‘máfia da miséria’ que lucra com a boa fé do povo e isso não é ético nem moral. O padre Julio é um verdadeiro mafioso da miséria em São Paulo”, disse o vereador ao jornal O Globo, citado pelo Crux.

“A comissão de inquérito que estou lançando na Câmara Municipal de São Paulo vai investigar toda essa máfia da miséria que se perpetua no poder através de ONG de esquerda”, terá escrito Nunes nas redes sociais, de acordo com o mesmo jornal.

O vereador e advogado foi um dos fundadores do Movimento Brasil Livre (MBL), organização de direita que ficou conhecida por promover protestos em massa contra a ex-presidente Dilma Roussef. Já em 2020, elementos do MBL terão tentado incriminar Lancellotti, “fabricando um vídeo” para acusá-lo de exploração sexual, mas ex-membros da organização revelaram que o clipe teria sido manipulado e a polícia decidiu não abrir inquérito sobre Lancellotti.

Em resposta a este novo pedido de investigação, Lancellotti emitiu um comunicado nas redes sociais no dia 3 de janeiro esclarecendo que não é membro de nenhuma ONG e que as ações que realiza junto dos necessitados são no âmbito da sua missão na Igreja.

Desde então, vários bispos, padres, artistas e líderes políticos têm vindo a elogiar o trabalho do padre, e já há uma campanha de apoio com milhares de partilhas nas redes sociais, intitulada “Protejam o padre Júlio Lancelotti”.

Em comunicado emitido logo após as primeiras notícias sobre a CPI, a arquidiocese de São Paulo emitiu um comunicado onde questionava “por que motivos se pretende promover uma CPI contra um sacerdote que trabalha com os pobres, justamente no início de um ano eleitoral?”. E esclarecia: “Padre Júlio não é parlamentar. Ele é o vigário episcopal da Arquidiocese de São Paulo para o ‘Povo da Rua’ e exerce o importante trabalho de coordenação, articulação e animação dos vários serviços pastorais voltados ao atendimento, acolhimento e cuidado das pessoas em situação de rua na cidade”.

“Essa atitude fascista e antidemocrática da extrema-direita, encampada por políticos sem nenhum compromisso com a justiça social, precisa de ser repudiada”, escreveu por seu lado o SINASEFE (Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação Básica, Profissional e Tecnológica) na sua página oficial. “Neste momento em que o neofascismo busca atacar o padre Júlio Lancellotti em busca de visibilidade eleitoral, as forças democráticas precisam de criar um amplo movimento em defesa da dignidade do Padre e da justeza de seu trabalho, de maneira a fortalecer e ampliar o importante e imprescindível trabalho de denúncia das violações de direitos e também de proteção social realizado em prol do povo em situação de rua”, lê-se no comunicado.

O jornal de esquerda Diário do Centro do Mundo assinala que, além dos vários ataques de que já foi alvo o padre Lancellotti, outros presbíteros têm vindo a sofrer “chantagens, coações e riscos, e desde o governo Bolsonaro, até ameaças políticas” no país. Recordando casos como o de José Aparecido Bilha, que em novembro de 2022 foi encontrado com um golpe profundo na garganta, depois de ter manifestado apoio ao Presidente eleito, Lula da Silva, ou do bispo de Livramento de Nossa Senhora, na Bahia, Vicente de Paula Ferreira, que “colecionou ameaças de morte quando esteve à frente da Comissão de Ecologia Integral e Mineração da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil”, o jornal digital fala em “caçada aos padres” ligados às chamadas Pastorais Sociais da parte da extrema-direita. E, apesar de nos últimos dias alguns vereadores terem já retirado as suas assinaturas do pedido de CPI, alerta: “uma coisa é certa: não vão parar no padre Júlio”.

 

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