No dia 14 de outubro de 2024 coloquei na parede do espaço de primeiro acolhimento do Serviço de Apoio Integrado (SAI) da Quinta do Loureiro (Lisboa) o cartaz A Poesia está na rua da pintora Maria Helena Vieira da Silva e o poema Escuto da Sophia de Mello Breyner Andresen.

Escuto
Escuto mas não sei
Se o que oiço é silêncio
Ou deus
Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do universo
Me decifra e fita
Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco
(Sophia de Mello Breyner Andresen)
Nas mesas daquela sala de acolhimento fui colocando folhas com frases escolhidas de poemas de Luís de Camões, Mia Couto e Ruy Belo. E desenhos de Amadeu de Sousa Cardoso, Henri Matisse e Pablo Picasso. E deixei também folhas de papel em branco e lápis e canetas. O convite implícito era para quem frequenta o SAI pudesse escrever ou desenhar algo a partir destas propostas. Interessava, sobretudo, a expressão do que ia na alma de cada um.
Mas quem são estes meus amigos do SAI? E o que é o SAI?
O Serviço de Apoio Integrado (SAI) funciona desde maio de 2021 na Rua Quinta do Loureiro, nº 14, em Lisboa, não muito longe de Alcântara e junto à Avenida de Ceuta. Foi criado pela Câmara Municipal de Lisboa no âmbito das respostas de redução de riscos e minimização de danos, tem gestão técnica da Associação Ares do Pinhal e destina-se a servir exclusivamente pessoas com comportamentos aditivos e dependências. Muitas dessas pessoas faziam, por vários motivos, o seu consumo em espaços públicos, a céu aberto.
O equipamento da Rua do Loureiro oferece a dignidade necessária àquelas pessoas, promovendo a literacia em saúde individual e pública e permitindo a possibilidade de os consumos de substâncias serem realizados sob supervisão clínica em espaço asséptico. No local há um espaço adaptado para consumo endovenoso e outro para consumo fumado, um gabinete médico, um gabinete de enfermagem, um gabinete de apoio psicossocial, uma lavandaria e casas de banho/balneários. E há também uma sala de acolhimento onde decorrem ações de informação, sensibilização e convívio – a Sala Café Conforto. É nela que uma vez por semana passo uma manhã com os meus amigos.
Os meus amigos são os frequentadores habituais do SAI. Muitos deles sofrem de visão muito fraca e para outros a capacidade de concentração é muito difícil. Deixo aqui o registo da poesia construída coletivamente em resposta ao desafio lançado naquela manhã. Mostra bem o que lhes vai na alma:
O começo é metade da ação
O que define o homem são as ações
Os teus passos ecoam em mim
Uma pétala sem chão
É como um oceano sem mar
Se não houver respeito e carinho
Isso tudo se acaba por matar
Estou perdido
Neste grande mundo cão
Com vergonha de pedir
A quem me estende a mão
Nesta vida um pouco triste
Quase perco a sanidade
Com medo de caminhar
e não encontrar a liberdade
Liberdade liberdade
Já não sei onde a perdi
Com bastante saudade
Da vida que já vivi
Apetece-me tudo
e tudo é pouco
para o nada que eu quero
Ana Cordovil é pintora e animadora de projetos na comunidade










