Na autobiografia do Papa Francisco Esperança, surpreendeu-me o modo claro e consciente como o Papa escreve como a vergonha foi um dos desafios que o levou a atuar. O desafio estava lançado e aceitei! Surgiu assim o título deste texto: Vergonha.
Uma palavra da qual temos algum receio.
Do que vem aí quando usada.
De sentir vergonha individual ou
… por atos da humanidade
De levarmos os outros a ter vergonha
ou se têm vergonha de nós…
E, no entanto, sentir vergonha não é mal nenhum. A maior parte das vezes sentimos vergonha porque somos olhados com reprovação sem sentido, outras vezes cometemos erros e devemos ter a coragem de os corrigir. O mal faz parte do nosso ser e a coragem que temos para o enfrentar depende das capacidades que fomos ganhando ao longo da nossa vida. Somos seres sociais e, neste caminho de enfrentar o mal, a comunidade que nos rodeia tem um papel muito importante na formulação de respostas pedagógicas às dificuldades de cada ser.
Mas afinal do que vos quero falar?
De sexualidade!
Cada ser tem uma identidade própria. Nascemos assim e acredito que Deus quer que sejamos todos felizes na diversidade de identidades.
O prazer que desde bebés vamos sentindo no nosso corpo é uma maravilhosa parte da nossa realização como indivíduos. Conhecermos o corpo e a nossa sexualidade faz parte do crescimento sem receios, com autoestima e naturalidade.
Na base da nossa identidade há uma energia sexual que não pode ser motivo de vergonha nem de exclusão. É uma realidade biológica que engloba as nossas caraterísticas físicas.
A descoberta do nosso corpo não pode ser causa de sofrimento. Devemos antes aprender a conhecer, cuidar e respeitar o nosso corpo e o corpo de cada um.
A sexualidade faz parte do nosso corpo, tal como a necessidade de falar, comer, cheirar, ouvir, andar e correr, aprender a mexer todo o nosso corpo.
Mas muitas sociedades fizeram da sexualidade e do prazer uma triste vergonha.

“Aprendemos a sofrer, sem partilhar com outros.” Foto © Jorge Wemans
Aprendemos a desconhecer o corpo e a não nos sabermos defender de abusos desde novos.
Aprendemos a sofrer, sem partilhar com outros.
Aprendemos a ver e não denunciar.
Aprendemos a não respeitar diferenças no amor e na sexualidade.
Aprendemos a não falar de assuntos “proibidos”.
Aprendemos a ter vergonha e esta pode ser uma causa de nos deixarmos dominar por outros (para sermos dominados por quem quiser).
Aprendemos a usar sites e propostas de encontro online porque não sabemos, ou não conseguimos comunicar com gosto.
Mas não tem de ser sempre assim.
Gostava que cada cuidador, pai, mãe ou educador ajudasse cada ser que lhe foi entregue a crescer na consciência clara da totalidade do seu ser, procurando a felicidade de cada um nas suas maravilhosas diferenças.
Gostava que aprendêssemos com algumas das pessoas de gerações mais novas que procuram e sabem acolher a diferença na identidade sexual. E vivem relações que são sinal de um amor maior.
Gostava que a Igreja fosse sinal deste tipo de educação, tal como Jesus nos ensinou a acolher a diferença e vivê-la na alegria de que ela é origem e fonte.
Gostava que cada responsável por qualquer comunidade eclesial procurasse ser exemplo de integridade na clareza da sua afirmação de identidade sexual sem que isso fosse reprovado, podendo assim ser um sinal de honestidade e exemplo/referência para todos.
Gostava que olhássemos com maior cuidado para os conteúdos digitais que os mais novos que nos foram entregues vão procurando.
Gostava que o comércio sexual de crianças, jovens e adultos fosse banido do nosso planeta para pôr cobro a medos, choros escondidos e desumanidade selvagem.
Até quando vamos suportar ver e ignorar tanta vergonha?
Ana Cordovil é pintora e animadora de projetos na comunidade.










