Quando se entra pelas portas automáticas de uma urgência hospitalar o tempo cronológico fica lá fora. Ali dentro, a medida é outra: é a da ansiedade, do compasso de espera e do sobressalto. Sentei-me numa das cadeiras azuis de plástico, geometricamente alinhadas, que parecem desenhadas para lembrar a nossa própria fragilidade. Cheira a uma mistura de desinfetante, café de máquina e suor frio, aquele que o medo sabe destilar.
A cadência deste limbo é ditada por ecrãs suspensos nas paredes, cujas luzes piscam sempre que o destino de alguém avança. É uma roleta digital a chamar os corpos através de uma voz automática e desprovida de qualquer emoção, que ecoa pelas colunas: «UG637, Sala de Observação A; UG701, RX…» A cada bip elétrico que antecede a voz, um sobressalto percorre a sala e as cabeças levantam-se fixando os números azuis com a esperança, ou o pavor, de verem chegar a sua vez.
À entrada, o silêncio institucional é quebrado por um aglomerado de pessoas. Uma família de etnia cigana junta-se em peso à porta, falando alto, gesticulando com uma energia que contrasta com a apatia da sala. Há quem lance olhares desaprovadores pelo ruído e pela quantidade de pessoas, mas aquela presença é, na verdade, a expressão pura de uma questão cultural profunda: o espírito de comunidade.
Uma vivência semelhante por parte de outra qualquer família seria impensável porque o espírito que se vive atualmente na maioria das famílias já não é de proximidade efetiva. Há videochamadas e mensagens de WhatsApp, e a presença física perdeu valor. Ali, naquele aparato ruidoso, não há filtros digitais, há carne, osso e amparo mútuo, ninguém fica sozinho na dor. E não tenho dúvida de que, no aspeto da solidariedade familiar, dão-nos uma grande lição — queiramos e saibamos nós ter a humildade e a sabedoria para o entender.

“Uma família de etnia cigana junta-se em peso à porta, falando alto, gesticulando com uma energia que contrasta com a apatia da sala. Há quem lance olhares desaprovadores pelo ruído e pela quantidade de pessoas, mas aquela presença é, na verdade, a expressão pura de uma questão cultural profunda: o espírito de comunidade.” Foto: Direitos reservados.
Nas urgências, os olhares cruzados preenchem o vazio. Pelo corredor, passa uma cadeira de rodas que chia a cada rotação, é uma lamúria metálica e estridente. Faltam-lhe os apoios para os pés e quem lá vai sentado arrasta-os, tentando encolhê-los de quando em vez.
A geografia humana deste lugar divide-se entre a partilha e o abandono, e a poucos metros de mim, uma tosse cavernosa e profunda que não sossega. Uma mulher de cabelo grisalho treme de febre, mas a inquietação levanta-a constantemente da cadeira. Deambula de um lado para o outro, num vaivém sem destino, agarrando um saco plástico azul e uma mochila cor-de-rosa, como se temesse perder a identidade.
Perto dela, desenha-se uma dor calada. Uma mãe acompanha a filha, uma jovem visivelmente perturbada em termos mentais. Não há gritos, mas a jovem senta-se e levanta-se da cadeira, volta a sentar-se e a levantar-se, em impulsos repetitivos. Fala baixo, num murmúrio incessante, dizendo que se quer ir embora dali, acusa a mãe de não a tirar daquele lugar por estar ao telemóvel com o amante. A mãe já tinha desistido de a tentar acalmar há muito tempo e permanece em absoluto silêncio. O seu olhar é de uma resignação profunda, as lágrimas correm-lhe pela cara sem que faça qualquer gesto para as limpar. É a imagem viva do cansaço crónico do cuidar.
Alguns idosos são trazidos por funcionários de lares que esperam com um olhar baço, mecânico, destituído daquele afeto familiar que se vê em alguns dos outros cantos da sala.
Aqui e ali, ouvem-se conversas telefónicas: «Sim, já fizemos a triagem… Não, disseram para aguardar… Não, não venhas, não vens para aqui fazer nada…»
O coração da urgência, a sala de observações, é uma barafunda organizada, uma coreografia caótica onde se cruzam destinos e cores. O bordeaux e o branco, o azul-escuro e o laranja das batas dos enfermeiros e dos médicos cortam o ambiente cinzento. As portas automáticas abrem-se e entra uma maca que é imobilizada no meio da sala. Nela está um homem que, pelo que percebo, terá feito um bypass há dois meses. No pulso tem uma pulseira laranja, risco iminente. Vem ligado a um emaranhado de fios e monitores que apitam. Ao lado da maca, uma mulher. Usa uma máscara cirúrgica que lhe tapa rosto, sobressaindo apenas os olhos. Um par de olhos que imploram silenciosamente por uma certeza que ninguém parece ter para lhe dar.
Naquele lugar, reduzidos a uma cor presa no braço, tornamo-nos um número. E é nesta quase desumanização que a cortina da frieza se rompe: um auxiliar, brasileiro, de passo calmo, cruza a azáfama da sala. Vai parando e falando com cada uma das pessoas. Dirigiu-se até ao meu cadeirão azul e olhou-me nos olhos. Não um olhar clínico, mas o olhar de quem vê a pessoa e não o paciente UG637. Com um sorriso aberto, daqueles que trazem o sol mesmo quando a noite acabou de cair, e com sotaque cheio da alegria do samba, pergunta: a senhora pode comer? Vai querer chá e bolachinha?…
“Quem assim procede,
Caminha até à Luz,
Pode até não saber,
Mas segue Jesus.”
(Do cântico Quem as mãos estende, autor desconhecido)
Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.
O 7MARGENS aceita e incentiva a reflexão e o debate livre e plural. Os textos de opinião publicados traduzem a opinião dos seus autores.










