
Maurizio Cattelan, Father. Obra no Pavilhão da Santa Sé na Bienal de Veneza 2024, instalado na Casa de Reclusão Feminina de Giudecca. Foto © Marco Cremascoli.
Stranieri ovunque (“Estrangeiros por todo o lado”), o título escolhido para a 60.ª edição da Bienal de Veneza, a decorrer naquela cidade italiana desde 20 de Abril e até 24 de Novembro, foi diversamente interpretado pelas diferentes representações nacionais, e também pela exposição geral, que este ano esteve a cargo do curador brasileiro Adriano Pedrosa. A Bienal é nada menos que a mais importante instância de legitimação da arte contemporânea internacional. Marca o lançamento de uma carreira artística fora de fronteiras.
Nesta edição, o tema foi abordado por Pedrosa e por artistas integrados na mostra quase sistematicamente do mesmo modo: trazendo para o âmbito da Bienal artistas e obras que estão fora dos circuitos mais visíveis da arte contemporânea. Estes circuitos seguem os sistemas circulatórios dos produtos da cultura de massas internacional, e não passam, ou só raramente passam por países e regiões – e pelos seus criadores – que estão fora desses périplos. A possibilidade destes artistas chegarem a Veneza, onde se realiza a bienal de arte mais célebre do mundo, é sempre remota, e está sujeita a avultados investimentos.
Nos Giardini e no Arsenal; em palácios, museus e outros locais de prestígio como há tantos em Veneza, cada país mostra o que escolheu levar com maior ou menor felicidade. Longe de tudo isto, e caso único nesta edição da Bienal, a representação da Santa Sé este ano é uma grata e significante surpresa. O comissariado foi entregue ao cardeal português José Tolentino Mendonça, prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação, que delegou a curadoria da representação a dois prestigiados nomes do meio da arte contemporânea: Chiara Parisi, directora do museu Beaubourg (Metz, França), e Bruno Racine, director do Palazzo Grassi, em Veneza. O local escolhido foi a Casa de Reclusão Feminina de Giudecca, em Veneza, e o título da exposição selecionado Con i miei ochi (“Com os meus olhos”).
A visita faz-se apenas por marcação online. No exterior, na parede do edifício (que foi convento antes de ser prisão), ergue-se imensa a obra de arte mural de Maurizio Cattelan: dois pés deitados, representados frontalmente, que recordam a iconografia do Cristo Morto estabelecida desde o Renascimento italiano. De certo modo, prepara o visitante para o que irá encontrar dentro da prisão, onde as reclusas irão guiar os pequenos grupos através dos espaços públicos do edifício: um lugar isolado, onde quem aqui vive protagoniza exemplarmente a definição mais elementar de estrangeiro como aquele que está de fora, que é exterior. A escolha do espaço, dos curadores e dos artistas insere-se no grande tema da acção pontifical do Papa Francisco: a defesa dos direitos humanos e a opção pelos últimos e pelos esquecidos.

Colectivo Claire Fontaine, obra no Pavilhão da Santa Sé na Bienal de Veneza 2024, instalado na Casa de Reclusão Feminina de Giudecca. Foto © Marco Cremascoli.
O título da exposição refere-se a um versículo do Livro de Job (42, 5), “Os meus olhos viram-te”, bem como a um fragmento de um verso do soneto 141 de Shakespeare: “Não te amo com os meus olhos” (141). Em conjunto, as duas frases convocam um modo de ver que vai além da fisiologia da percepção para incluir o toque e a emoção. Tolentino Mendonça, no texto distribuído à imprensa, refere que este olhar não é o olhar voyeurista do espectador da arte contemporânea, mas um olhar simultaneamente “disruptivo e profético: propõe um passo numa direcção cultural diferente, questionando este nosso tempo em que a visão humana é cada vez mais diferida e menos directa, capturada pelo artifício dos ecrãs e a explosão dos dispositivos digitais.”
E assim é. De facto, entrar numa prisão, ver-se privado de telemóvel e de identificação durante toda a visita, tem como consequência a imersão imediata no quotidiano carcerário, que por uma vez não nos chega através de uma imagem mas através do próprio contacto com a realidade. São as próprias reclusas que conduzem a visita, vestidas a rigor com trajes feitos no atelier de costura da instituição. Percebe-se que trabalharam conjuntamente com artistas e curadores, e que as obras que mais as tocam são aquelas em que participaram de modo directo. A primeira peça que vemos é justamente uma dessas, num corredor que separa a entrada formal do espaço da prisão propriamente dito: uma sequência de transcrições gravadas em pedra de lava a partir de textos, fragmentos de diário e poemas das reclusas. O projecto é assinado por Simone Fattal, e precede um grande signo de um olho barrado, da autoria do colectivo Claire Fontaine, muito semelhante ao que nos indica frequentemente a proibição de fotografar. De notar que este último assina também a inscrição a néon que nos acolhe nos outros pavilhões da Bienal com o título da mesma, Straniere ovunque.
Do corredor segue-se para a cafetaria. Aqui, o espaço está decorado com reproduções de cartazes de carácter político imaginados por Corita Kent, uma religiosa conhecida pelo nome de Irmã Maria Corita, já falecida, que foi “activista, pacifista e artista”, autora de uma obra que, globalmente, deixa muito clara a vontade de imbricar activismo social com obra plástica. Atravessamos depois o grande pátio, onde as reclusas podem descansar durante quatro horas por dia; as nossas guias fazem-nos notar um grande círculo amarelo pintado no chão, e dizem-nos, com orgulho, que foi o local onde o helicóptero do Papa Francisco pousou a 28 de Abril. Foi esta a primeira vez que um papa visitou a Bienal de Veneza. Aqui, encontramos também uma segunda peça dos Claire Fontaine: a inscrição a néon que diz Siamo com voi nella notte (“estamos convosco na noite”).

Sónia Gomes, Sinfonia, obra no Pavilhão da Santa Sé na Bienal de Veneza 2024, instalado na Casa de Reclusão Feminina de Giudecca. Foto © Marco Cremascoli.
Mais adiante, há restos de um parque infantil, um marco de estranheza num espaço uniformemente austero e funcional. Era para os filhos das reclusas, que podiam viver com as mães até que uma recente lei o viesse proibir. Muito perto projecta-se o filme de Marco Perego e Zoe Saldana, uma curta-metragem sobre a vida dentro dos quatro muros da prisão, protagonizada também pelas próprias residentes. É a segunda peça em que os sinais da sua participação activa são visíveis, e precede uma instalação belíssima de Claire Tabouret, com uma parede repleta de monotipias que reproduzem as fotografias dos filhos e das próprias reclusas quando crianças. Constituem marcas visíveis da identidade resgatada do anonimato do universo carcerário.
A visita termina dentro do espaço da igreja, no exterior do qual estava o mural de Cattelan. Aqui, encontramos 36 esculturas suspensas feitas pela brasileira Sónia Gomes, uma Sinfonia que convoca a memória de cada uma das 36 mulheres que faleceram enquanto viviam na prisão. As esculturas, em tecidos de cores vivas, respondem à decoração barroca do espaço e criam um contraste forte com a austeridade que o precedeu. Antes disso, tínhamos passado por adereços de uma performance realizada por Bintou Dembélé, que também incluiu a participação activa das residentes.
No balanço da visita, fica a certeza de que muitas das características da arte contemporânea foram aqui não apenas questionadas, mas abaladas na sua imutabilidade. Não apenas o olhar predador, egoísta e narcisista que é o olhar do apreciador de arte, do coleccionador, do público privilegiado que frequenta o meio das bienais e das grandes manifestações internacionais da arte contemporânea. Mas também de tudo aquilo que é a própria natureza do objecto artístico: algo que é feito por um artista, reconhecido como tal pela sociedade, e que está inserido num contexto que o legitima. E o que se passa é que, como este abalar, é da própria transformação de quem olha, como de quem faz, que se trata aqui. A missão da arte é transformar-nos.
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Luísa Soares de Oliveira é crítica de arte e docente universitária.










