
Manuel Cargaleiro: “A minha relação com Deus? É boa. Eu estou tranquilo.” Foto © Fundação Manuel Cargaleiro, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons
“Morreu tranquilo, rodeado pelos seus. Adormeceu.” Foi deste modo que a morte de Manuel Cargaleiro, neste domingo, 30 de Junho, foi testemunhada pela sua mulher, Isabel Brito da Mana, numa declaração prestada à agência Lusa. O percurso do artista plástico de 97 anos encontra-se documentado no site da fundação que criou em Castelo Branco em 1990.
Esse itinerário, caracterizado “pela relação intrínseca entre diferentes tipologias de arte: cerâmica, desenho, escultura, gravura, pintura, e têxteis”, começou nos anos 40, com a criação de objetos simples e utilitários, moldados em barro com motivos em relevo, e prosseguiu até à sua morte. O Governo decretou um dia de luto nacional para terça-feira, dia do funeral. De acordo com o jornal Reconquista, de Castelo Branco, a cerimónia decorre na Costa da Caparica, ao meio-dia, onde viveu com a família depois de deixar a Beira Baixa e onde iniciou as primeiras experiências de modelação de barro, na olaria de José Trindade, no Monte da Caparica. O velório, diz a mesma fonte, decorre na Igreja de São Tomás de Aquino (Laranjeiras, em Lisboa), a partir das 18h desta segunda-feira, dia 1 de Julho.
Algumas das suas obras encontram-se expostas em lugares públicos. Nos metropolitanos de Paris (na estação Champs-Elysées Clémenceau) ou de Lisboa (estação Cidade Universitária), na escola com o seu nome no Seixal, por exemplo. Ou no Santuário de Fátima. Numa entrevista concedida a João Pacheco, publicada no Expresso (5 de Fevereiro de 2023), contou que fez a Via Sacra para o Santuário de Fátima com alunos da Escola António Arroio.
A encomenda tinha sido feita a Lino António, que, segundo Manuel Cargaleiro, não sabia pintar um azulejo. O trabalho demorou dois anos. “Eu e os melhores alunos, os mais velhos. Eles trabalharam muito mais do que eu. Eu fazia as tintas, naquela altura não havia. E então misturava os pigmentos em pó com o esmalte, fazia as tintas, e eles depois pintavam”.
Na conversa com João Pacheco, Manuel Cargaleiro falou sobre a relação com Deus. Recordando a amizade com Maria Helena Vieira da Silva, referiu questões que obcecavam a pintora “O que é que está para lá das estrelas? E dos planetas? O que é que está depois? E depois? E depois? E depois?” A estas interrogações, Manuel Cargaleiro respondia “Ó Maria Helena, aí há uma coisa. É Deus. Aquilo que tu não sabes explicar é Deus. Deus está lá. Quer dizer, quem resolveu estes problemas todos é um senhor que se chama Deus.” Conta o pintor que Maria Helena se ria, “gostava muito desta explicação”. A história veio a propósito da “maldade” de que Manuel Cargaleiro era vítima: “Diziam que eu copiava a Vieira da Silva”. Mas, acrescenta: “Eu não copiava, eu era sincero com aquilo que fazia. O grande esforço da minha vida foi sempre dizer a verdade, até na pintura.”
“O que é que eu pretendo com a minha pintura?”, pergunta o pintor, respondendo: “É vertical, horizontal. É ali, é aquilo. É na frente, mas gosto também que haja segredos por trás. Tenho a mania dos segredos, tenho a mania dos símbolos. Há uma grande escola de pintura [em cerâmica] na Turquia, do século XVI: Iznik. É uma coisa… Nunca ninguém no mundo fez aquilo. Os chineses foram os que foram mais longe. Os chineses, porque nós não percebemos nada. Uma geração de chineses transmitia à outra. São coisas só através de uma cor, do esmalte, por exemplo do celadon. Mas as pessoas não se interessam por isto, nem isto tem interesse para um jornal.”
João Pacheco retoma a conversa sobre Deus, perguntando qual a relação de Manuel Cargaleiro com Deus. “A minha relação com Deus? É boa. Eu estou tranquilo. É verdade que podia ter tratado melhor algumas pessoas. Podia ter feito mais em determinadas coisas e não fiz. Mas, no fundo, tive uma vida sincera, tranquila, não menti. Fiz o possível para nunca mentir. Porque a vida é uma mentira. Nós todos tentamos. Queremos mostrar aos outros que somos bonzinhos, que somos muito bonitos, que temos tudo de muito bom.”
“O que digo a Picasso? Nada.”

Pormenor do painel frontal da entrada da igreja de Santo António, em Moscavide (Loures), da autoria de Manuel Cargaleiro. Foto: Direitos reservados.
Manuel Cargaleiro está associado ao Movimento de Renovação de Arte Religiosa, fundado em 1953 por António Freitas Leal, o padre António dos Reis Rodrigues, Flórido de Vasconcelos, Henrique Albino, João Braula Reis, João Correia Rebelo, João de Almeida, José Maya Santos, Madalena Cabral, Maria José de Mendonça e Nuno Teotónio Pereira. O movimento, que era “uma comunidade católica de artistas e de outras pessoas interessadas, com o fim genérico de promover, em todos os domínios da arte religiosa, o encontro de uma verdadeira criação artística com as exigências do espírito cristão”, agregou também, entre outros, José Escada, Diogo Lino Pimentel, Sebastião Formosinho Sanchez, Nuno Portas, Luiz Cunha, Maria Luísa Marinho Leite, Erich Corsépius, padre Albino Cleto e Vitorino Nemésio.
O painel de azulejos policromados da Igreja de Santo António de Moscavide, datado de 1956, é uma das suas obras de referência nessa área.
No ano seguinte, Manuel Cargaleiro iria viver para Paris. Em 2017, ao entregar-lhe a medalha de Grand Vermeil, a mais importante condecoração da capital francesa, a presidente da Câmara, Anne Hidalgo, afirmou que a cidade também é portuguesa e que o português Manuel Cargaleiro também é parisiense.
Chegado a Paris, sendo um dos primeiros bolseiros da Fundação Gulbenkian, Manuel Cargaleiro morava na mesma rua de Pablo Picasso, com quem nunca contactou. “A primeira vez que o vi, pensei: ‘Estou em frente do génio!’. Mas não lhe falei. O que é que eu ia dizer ao Picasso? Nada…”.
Alexandre Farto, aka Vhils, foi um dos mais novos artistas com quem se relacionou. Nasceram com 60 anos de diferença e, em 2023, apresentaram um trabalho realizado em conjunto, intitulado Mensagem. “Parte de passados distintos, de percursos próprios dos seus tempos, mas converge na ressonância de vontades e esperanças unidas”, diz um texto divulgado pela Fundação Manuel Cargaleiro no ano passado. “Trespassando tudo que é técnica, meio, material e composição, respira e vive de tudo que é humano na sua materialização.”
Também em 2023, Manuel Cargaleiro ofereceu o painel de azulejos instalado ao longo das laterais da Capela da Misericórdia, na paróquia de S. Tomás de Aquino, em Lisboa. Foi “como escrever uma oração”, afirmou o autor, referindo que pretendeu expressar uma mensagem positiva a cada pessoa que entra na capela, para que “sinta a aproximação a Deus, que está naquele sacrário”. Manuel Cargaleiro disse ter querido “fazer esta riqueza para Deus”, “como uma pessoa simples que faz o ramo mais bonito para Deus”.









