
O padre Mário de Oliveira, da Lixa. Foto da sua página de Facebook.
O funeral do padre Mário de Oliveira terá lugar este sábado, dia 26 de fevereiro, às 16h00, saindo do Barracão da Cultura para o cemitério da Lixa (concelho de Felgueiras), terra de que foi pároco nos anos setenta do século passado antes das suas posições anticoloniais, a sua oposição à ditadura e o seu pensamento teológico o terem levado a ser preso pela PIDE e retirado da paróquia pelo então bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes. Nenhuma outra missão pastoral lhe foi posteriormente atribuída.
O padre Mário da Lixa (como também era vulgarmente conhecido) morreu no dia 24 de fevereiro na sequência de um desastre de viação (ver 7MARGENS). Tinha 84 anos.
Tudo leva a crer que o velório e o funeral decorram conforme às disposições concretas e minuciosas que o Padre Mário deixou expressas no prólogo do seu Novo Livro do Apocalipse ou da Revelação lançado no verão do ano passado. Nelas escrevia: “Ao meu cadáver — nunca o confundais comigo que, a partir daquele Novíssimo Instante, já serei definitivamente vivente convosco — vesti-o com alguma das roupas que me vedes utilizar diariamente, e depositai-o depois na urna, uma das mais baratas que houver no mercado.” E desejava que tudo estivesse “totalmente despojado de quaisquer símbolos religiosos, como o terço, o cálice, ou a cruz (do Império romano), tudo coisas beatas e deprimentes, por isso, inumanas, pelo menos, simbolicamente”.
Além deste despojamento, foi também seu desejo, coerente com a radicalidade do seu pensamento e da sua vida, que a urna seja “depositada numa campa rasa, em terreno comum destinado aos Sem-jazigo, do cemitério de Macieira da Lixa, a terra que, desde a década de setenta do Século XX (…), se colou para sempre ao meu nome de homem presbítero da Igreja do Porto”. A sua campa deverá ficar assinalada com “um pequeno retângulo em madeira, com estes dizeres e sem nenhuma data: Mário, presbítero da Igreja do Porto”.

O padre Mário foi fazendo um corte radical ao longo da vida com práticas instaladas que apontava como opostas à mensagem evangélica. Foto da sua página de Facebook.
“Nada de toque de sinos. Nada de anúncios pagos nos jornais. Nada de pagelas panegíricas, sempre despropositadas” — recomendou naquele prólogo em que igualmente excluiu qualquer ofício fúnebre tradicional — “nenhum clérigo/pastor de Igreja, enquanto tal, presidirá ao cortejo, rumo ao cemitério. (…) Nenhuma missa — ouvistes bem? Nenhuma missa! — deverá ser celebrada por mim. Nem durante as primeiras 24 horas, após a minha Explosão/Ressurreição, nem depois, nos dias/meses/anos subsequentes. Confio tanto em Deus, nosso Abbá Deus de vivos, e não de mortos, que sei que o seu Nome é muito mais glorificado assim, do que com todo esse obsceno negócio eclesiástico das chamadas ’missas pelos mortos’, que por aí se faz nas paróquias.”
Neste texto, o autor sublinhava o corte radical que foi fazendo ao longo da vida com práticas instaladas que apontava como opostas à mensagem evangélica e estipulava que os seus parcos haveres e os futuros direitos de autor que viessem a ser pagos pela venda dos seus livros deviam por inteiro beneficiar as obras em curso nas instalações multiusos do Barracão de Cultura, em Macieira da Lixa.
Escrito em 2009 e publicado em 2021, este “testamento” terminava com o apelo aos que com ele participavam na Associação Cultural e Recreativa As Formigas de Macieira: “Não esqueçais nunca este meu último apelo que aqui vos deixo em testamento: Amai-Vos umas às outras, uns aos outros, pelo menos tanto como eu Vos amo. Se possível, ainda mais, muito mais do que eu Vos amo.”










