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Meditando a partir de uma festa de São João

| 26/06/2025

 

1. Como vem acontecendo desde há décadas, passei o dia de São João numa festa de aldeia, nos arredores do Porto, cujo ponto culminante é uma batalha entre Bugios e Mourisqueiros – cristãos e mouros, respetivamente – cada qual no seu castelo.

A encenação do combate inclui uma prolongada sessão de tiros de ‘canhão’, em simultâneo com a troca de mensagens entre as partes através de uma embaixada a cavalo e de tentativas de negociação entre advogados de um e outro lado.

Quando, a dada altura, as munições se acabam do lado bugio, os adversários, percebendo a vulnerabilidade, descem do seu palanque e após vários exercícios, atacam o outro castelo, prendem o Velho da Bugiada e levam-no preso para o cativeiro.

Aparentemente, não podia ser de outro modo, já que os Mourisqueiros são os jovens solteiros da comunidade. São umas escassas dezenas, mas muito bem organizados sob o comando do Reimoeiro. Em contrapartida, os Bugios, todos mascarados e empenachados, são às centenas, crianças, jovens e idosos, homens e mulheres e, nos seus movimentos, fazem uma enorme algazarra, com os guizos dependurados nos trajes coloridos e com as castanholas que levam na mão.

Quando tudo parecia terminado e decidido, eis que no caminho seguido pela Mouriscada irrompe uma numerosa coluna de Bugios, trazendo à frente uma gigantesca Serpe. O ímpeto e a surpresa da aparição levam os mouros a abrir brechas no círculo de espadins em que segue o Velho. Este aproveita a oportunidade e foge adiante da sua gente.

No final, as duas formações reorganizam-se, volta tudo à situação inicial e, cada uma na sua vez, vão fazer a Dança do Santo, junto ao adro de igreja paroquial.

Saída dos Bugios da casa do Velho da Bugiada. Foto retirada do vídeo de Martin Dale (CECS). Site Festivity.

2. Quando estava a assistir à “Prisão do Velho” (assim é designado o momento da festa aqui relatado), e ao troar dos canhões que feriam os tímpanos, não pude deixar de pensar nos teatros de guerra real que diariamente as televisões nos mostram (se é que mostram, já que vemos aquilo que o poder político-militar autoriza ou quer mostrar).

Ao longo do dia de São João, surgem, na festa referida, em vários momentos e contextos, cenas de provocação, crítica mordaz, rapto, jogo do pau, arremesso de objetos enlameados e até pancadaria. Mas é de uma violência simbólica e ritualizada que se trata. Procura-se não ferir ninguém e fazer da gestão das tensões e conflitos motivo de riso.

A própria luta que põe em confronto Bugios e Mourisqueiros, que incorpora reminiscências da relação dos autóctones com os estranhos, os de fora, o outro diferente, pode ser vista como um ritual ou conjunto de rituais de coesão e afirmação do grupo dos jovens face à comunidade (diversa e até um pouco caótica) da qual procedem, como acontecia em muitos outros lados, em particular no Nordeste transmontano com a Festa dos Rapazes, no solstício de Inverno.

É certo que, numa festa que, mais do que uma reconstituição, é uma “re-presentação” com implicações sérias na vida quotidiana dos implicados que a vivem com “paixão”, esta ritualização da violência não resolve nem anula as tensões e os conflitos. Mas cria tempos, espaços e formas estruturadas de relacionamentos e funções, que podem enquadrar e dar significado à violência (à do dia a dia e à das disputas de papéis, de precedência ou de reconhecimento que nascem da própria dinâmica do festejar).

Como este, há certamente outros caminhos de relacionamento social e de socialização – voluntariado, associativismo, movimentos … – que podem ter esse papel de ligar, enquadrar e significar. Mas estaremos a progredir neste terreno ou, pelo contrário, a regredir?

Saída dos Mourisqueiros para o jantar na casa do Bugio. Foto retirada do vídeo de Martin Dale (CECS). Site Festivity.

3. Os testemunhos e sinais que nos chegam não são tranquilizadores. Com crianças que são, desde bebés, treinadas pelos pais para estarem quietas e caladas em frente dos ecrãs e que, um pouco mais tarde, comunicam umas com as outras por emojis e monossílabos, mesmo quando se encontram presencialmente umas ao lado das outras, o ponto de partida não é certamente o desejável (também não o será o de outras crianças que são treinadas para serem as melhores e mais avançadas nos estudos e em mil outras ‘competências’, já que nem sequer terão tempo para brincar umas com as outras, como é seu ofício).

As redes sociais são, para muitos – jovens e menos jovens – um submundo em que a maioria vê e reage ao que uma minoria produz, numa lógica de agregar por afinidades e desqualificar e escorraçar os diferentes ou opostos – ou meramente inquiridores. Preocupante é quando a bolha em que se movem é confundida com o real, porque além de ser muito pobre, esse real é também muito enviesado.

O exemplo dos mais crescidos deixou de ser carta de recomendação. Discutir aos berros, atacar e insultar, mentir descaradamente é algo que sempre existiu. Mas não era o registo tendencialmente normal. Também é verdade que as pessoas mais empáticas, mais pedagógicas, mais dadas à escuta, quando existem, frequentemente não dizem nada que desperte atenção.

Faltava, neste “caldo” requentado, que aqueles que voltaram a achar que os problemas se resolvem à bomba, fazendo de militares e civis carne para canhão, começassem a exibir aquilo que Edgar Morin chamou a “escalada da desumanidade”, a caminho da guerra global.

“Podemos escapar dessa lógica infernal?”, perguntava o mesmo autor. Sim, a nossa sensação de pequenez e impotência parece esmagar-nos. Mas ninguém nos pode, por ora, impedir opções por estilos de vida que sejam acolhedores de todos, aproveitando as oportunidades que a vida dá.  E são mais do que parece.

Procissão de São João do Sobrado. Foto retirada do vídeo de Martin Dale (CECS). Site Festivity.

Nota: os interessados em conhecer mais sobre a festa em referência neste texto podem aceder aqui.

 

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