
Membros do Sínodo votam de braço no ar (Londres, novembro 2023). Foto © Geoff Crawford/Church Times
Mais de 130 membros do Sínodo Geral da Igreja de Inglaterra (anglicana) assinaram uma carta contra a proposta de se recomeçar a partir de zero a reflexão realizada ao longo de seis anos sob o lema Viver no Amor e na Fé (LLF, no acrónimo em língua inglesa) que conduziu à aceitação de serviços religiosos especiais destinados a abençoar casais do mesmo sexo.
A carta – revelada na edição de 1 de fevereiro do Church Times – foi dirigida aos bispos co-presidentes do processo LLF, o bispo de Newcastle, Helen-Ann Hartley, e o bispo de Leicester, Martyn Snow, que, em artigo publicado naquele mesmo jornal, tinham defendido o reinício de todo o processo LLF para permitir “a reconciliação e a construção de pontes” entre as posições extremadas quanto à doutrina cristã em matéria de sexualidade, género e homossexualidade.
No texto assinado por ambos pode ler-se: “Acreditamos que chegou a hora de reiniciar o processo [LLF]. Estamos numa encruzilhada: ou chegamos ao ponto de rutura, aceitando que diferentes pontos de vista não podem coexistir dentro da mesma Igreja, ou devemos mudar o debate para a questão de como convivemos bem com a diferença. Acreditamos firmemente nesta última abordagem e, por isso, lançamos um apelo à reconciliação e à construção de pontes.”
O grupo de membros do Sínodo Geral que recusa tal “reinício” entende que os bispos estão a propor não avançar com a orientação pastoral definida por aquele Sínodo em novembro último [ver 7MARGENS] que permite aos padres abençoar as uniões entre pessoas do mesmo sexo. O grupo de 130 membros do Sínodo escreve: “Qualquer atraso no avanço será visto como um fracasso da Câmara dos Bispos em concretizar as votações aprovadas no Sínodo. (…) Isto não redefinirá o tom do debate numa direção positiva, nem criará confiança para quaisquer discussões de reconciliação sobre a manutenção da unidade.”
A vontade de preservar a unidade e de encetar um processo de reconciliação entre as fações que se opõem visceralmente a propósito da alteração do modo como a Igreja de Inglaterra entende a sexualidade, a afetividade e o amor e os valoriza à luz da fé, motivou a crítica dos dois bispos à última reunião do Sínodo Geral em novembro: “as últimas reuniões do Sínodo Geral não foram edificantes. Algumas contribuições durante as horas de debate sobre a LFF foram ponderadas e justas, mas muitas outras estiveram tão focadas em ‘ganhar’ o debate que deram a entender que os ‘perdedores’ deveriam simplesmente deixar a Igreja. Isto não pode continuar.”
Embora o debate pareça dizer apenas respeito à Igreja de Inglaterra e do país de Gales e às ameaças de rutura por parte de várias comunidades e seus pastores, a verdade é que ao admitir um rito próprio para a bênção de cassais do mesmo sexo, o Sínodo Geral daquelas Igrejas aprofundou a crise global que se vive na Comunhão Anglicana [ver 7MARGENS].
Desde que a maioria dos participantes da Conferência de Lambeth (agosto de 2022) se manifestou favorável à revisão da doutrina cristã em matéria de sexualidade e afetividade e reconheceu as relações homossexuais como lugar de resposta ao amor de Deus, têm-se sucedido os movimentos ‘cismáticos’ que afirmam ter deixado de reconhecer o Arcebispo de Cantuária como “o primeiro entre iguais”. Tais movimentos ganharam forte expressão em África e na Oceânia, regiões que representam 85 por cento dos anglicanos de todo o mundo.









