
Neil Postman: “No já longínquo ano de 1998, propôs cinco ideias sobre mudança tecnológica, que reclamam algumas virtudes de que políticos profissionais crescentemente carecem: ponderação, estudo, humildade, prudência e similares.” Foto: Wikipedia
O linguajar corrente chama ‘tecnologia’ ou ‘a tecnologia’ ao que, a partir dos anos 70, chamámos tecnologias de informação e comunicação (TIC para os amigos), já de si uma restrição de campo que privilegiava o computador e conexos em detrimento de modalidades primitivas de partilha massificada, como o manual escolar, o postal ilustrado, a televisão, a rádio, o telefone.
Outrora, tecnologia era o saber das técnicas (o logos da techné) e respeitava a todos os domínios da vida (do agro-industrial à construção de pontes e calçadas, à saúde ou à aeronáutica). Agora apresenta-se como aquilo que os GAFA ou GAFAM ou GAMAM [1] nos vendem. E se o poder se mede pelos efeitos, podemos bem dizer que o Governo Mundial já chegou e os recreios das nossas escolas, as ruas das nossas cidades e os mais pequenos gestos do quotidiano são dele tributários, bem como todas as inflexões na formação da nossa configuração psíquica [2], nos modos de vida, de trabalho, de relação.
Sabemos, apesar de tudo, que o meio não é só a mensagem. É, ainda e sempre, seu veículo, ou os hackers bons e maus que por aí andam, ao serviço dos governos, das políticas e das marcas globais, não estariam ocupadíssimos a capturar, partilhar e traficar informação sobre pessoas reais e instituições. Ou o jogo online não produziria miséria bem real. Ou o recurso a um motor de busca, para ser consequente, não dispensaria uma educação bem conduzida, o conhecimento de vocabulários específicos e o uso criterioso do dicionário. Pelo menos.
Parafraseando Hegel, o que quero dizer é que, se é verdade que todo o real é virtual e todo o virtual é real, isto é, que não há duas realidades, mas uma só, e que o virtual não é o que existe em potência mas o que sempre já nos habita (ideias, imagens, crenças), as consequências da mudança tecnológica devem ser pensadas sem concessões ao comerciante, muito menos ao oligopólio mundial e aos seus agentes não intencionais – quero ser prudente – nomeadamente instituições e organizações integrantes do que historiadores e sociólogos chamam ‘sistema mundial da educação’, e não conheço quem o tenha feito com maior clareza do que o norte-americano Neil Postman (1931-2003).
No já longínquo ano de 1998, Postman, em palestra incluída na conferência The New Technologies and the Human Person: Communicating the Faith in the New Millennium, que decorreu em Denver, no Colorado, propôs cinco ideias sobre mudança tecnológica. São muito simples, mas obrigam a decisões que reclamam algumas virtudes de que políticos profissionais crescentemente carecem: ponderação, estudo, humildade, prudência e similares.
A primeira ideia é que pagamos sempre um preço pela tecnologia: quanto mais poderosa a tecnologia, maior o preço. E exemplifica: “A imprensa deu a prosa ao mundo ocidental, mas transformou a poesia numa forma de comunicação exótica e elitista. Deu-nos a ciência indutiva, mas reduziu a sensibilidade religiosa a uma forma de superstição extravagante.” Conclusão: à pergunta, comum a todos os entusiastas, “O que é que uma nova tecnologia vai fazer?” deveríamos contrapor estoutra “O que é que uma nova tecnologia vai desfazer?” [3], mais importante do que a primeira, “precisamente pelo facto de ser tão pouco frequente.”
A segunda: na mudança, há sempre vencedores e vencidos (é o que em português se chama digital divide), mas pior, os vencedores tentam sempre persuadir os vencidos de que são também eles vencedores. Depois de lembrar que o entusiasmo dos professores que introduziram a televisão na sala de aula tem de ser apreciado à luz da questão da importância que atribuímos à palavra impressa na educação [4], Postman lembra a história do ferreiro que, no início do século XX, cantava loas ao automóvel, convencido de que o seu negócio se iria expandir na mesma medida. Impõe-se, então, perguntar: “Quem é que beneficia, em concreto, com o desenvolvimento de uma nova tecnologia? Que grupos, que tipo de pessoa, que tipo de indústria serão favorecidos? E, claro, que grupos de pessoas serão prejudicados?”. E antecipa os desenvolvimentos do que que rapidamente conduzirá ao emergir do que Soshana Zuboff chama capitalismo de vigilância, com o seu longo estendal de meios de controlo e de captura de informação pessoal. Retenha-se sobretudo a pergunta pelo tipo de pessoa que a tecnologia digital produz ou favorece.
Em terceiro lugar, e aqui deparamo-nos com o cerne do problema que nos ocupa, Postman sublinha que em todas as grandes tecnologias está presente um preconceito epistemológico, político ou social, umas vezes vantajoso, outras não: “A imprensa aniquilou a tradição oral; a telegrafia aniquilou o espaço; a televisão humilhou a palavra; o computador talvez venha a degradar a vida em comunidade. E assim por diante.” Em síntese, “toda a tecnologia encerra uma filosofia” que se revela “no modo como […] faz as pessoas usar as suas mentes, no que nos leva a fazer com os nossos corpos, no modo como codifica o mundo… nos sentidos que amplifica, nas tendências emocionais e intelectuais que descarta”. Aqui, de novo, o corpo próprio em relação com o(s) outro(s) e a questão do declínio das esferas de pertença e partilha, que traz consigo o inevitável declínio do espírito cívico e da consciência da universalidade da lei, como já podemos observar na generalidade das democracias.
A quarta ideia é igualmente importante e, de algum modo, central na reflexão sobre novos ambientes educativos, os caminhos da pedagogia e a reforma necessária da escola de massas: a “mudança tecnológica não é aditiva; é ecológica, o que significa que muda tudo e é, portanto, demasiado importante para ser deixada inteiramente nas mãos de Bill Gates.” [5] (!!)

“A mudança tecnológica não é aditiva; é ecológica, o que significa que muda tudo e é, portanto, demasiado importante para ser deixada inteiramente nas mãos de Bill Gates.” Imagem reproduzida de um noticiário da Sic Notícias, 12/09/2024.
O carácter ecológico da mudança tecnológica pode ser ilustrado com um episódio pessoal. Em férias, aconteceu-me cruzar-me na piscina com um bebé de nove meses e respectivos progenitores. Conversámos, ali mesmo, sobre crescimento e aprendizagens, das primeiras aquisições, que vinham testemunhando com desvelo, à natação (o ‘povo de marinheiros’ não sabe nadar, concordámos). A certa altura, resumi apressadamente, ainda e só a pensar na água: ler, escrever e nadar, eis o que é preciso. O pai replicou: “Ler e nadar, sim. Já escrever…”. Alguém nos interrompeu, pelo que não cheguei a saber o que objectaria. Mas suspeito: parece que nalguns estabelecimentos mais avançados já quase só se ensina a dar ordens à IA (pseudo-pessoa do sexo feminino, pelo que se percebe quando se quer marcar uma consulta), e é isso que alguns docentes também muito avançados pretendem avaliar no ensino universitário. Ora, se é a gentil IA que faz os trabalhos de casa, a pesquisa e o exame, limitando-se o ‘docente’ a vigiar o seu bom uso, está bem de ver que quase só resta a qualquer infante aprender a ler e a nadar. Enfim, aquele pai parecia bem informado e cheio de razão. (E Bill Gates nem veio à conversa, apenas porque já está completamente incorporado no nosso ethos social e firmemente implantado nas instituições.)
Finalmente, quinta e última ideia, que explica amplamente o relato anterior, “a tecnologia tende a tornar-se mítica, ou seja, [a ser] percebida como parte da ordem natural as coisas”, de tal modo que se torna inconcebível, para os cidadãos como para os agentes políticos, fixar-lhe limites ou conceber segmentos da vida em sociedade que a dispensem [6]. É esta naturalização – ‘ela já aí está, é incontornável!’ (‘ela’ é sempre a enésima vaga digital) – com foros de inevitabilidade cósmica, que faz de toda uma corte de fazedores, na administração e nas agências interessadas, uma espécie de Pangloss genérico, sorridente e disponível para mais uma aventura no meio dos escombros da nossa imprevidência.
Notas
[1] GAFAM – Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft; GAMAM – Google, Apple, Meta, Amazon e Microsoft.
[2] Cf. Nicolaci-da-Costa (1995), Primeiros contornos de uma nova “configuração psíquica”, Cad. Cedes, Campinas, vol. 25, n. 65, p. 71-85, jan./abr. 2005.
[3] Todos os destaques são do autor deste texto.
[4] Veja-se, a propósito, a discussão sobre a nova disciplina de Literacia e Dados, no artigo de António Guerreiro Uma escola de pobres
[5] Dizia recentemente o cardeal Michael Czerny, citando o Relatório de Síntese da XVI Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos: «O ambiente digital é uma cultura, um “lugar”, onde as pessoas – todos nós – passam uma parte significativa das suas vidas. Não é apenas uma ferramenta ou uma tecnologia, “a cultura digital representa uma mudança fundamental na forma como concebemos a realidade e, consequentemente, nos relacionamos connosco, com os outros, com o que nos rodeia e até com Deus.», A new world and a new mission, in Thinking Faith, 27.6.24 .
[6] A bem-humorada análise de Miguel Esteves Cardoso, em Virar o ananás (Público, 2 de Setembro), veio sugerir uma lusa resistência analógica ao engate digital online e a possibilidade de um mundo de relações sem mediação electrónica.
João Santos é professor.










