É o caso da garrafa meio cheia ou meio vazia: após quatro anos de trabalho sobre o tema dos abusos na Igreja Católica, só (ou já, consoante se queira ver o facto) metade das dioceses pediram acções de formação nesta área ao Grupo Vita.
“Tem sido um caminho gradual”, disse esta tarde a coordenadora desta estrutura criada há um ano e meio pela Conferência Episcopal Portuguesa (CEP). Ao apresentar o terceiro relatório de trabalho do Vita, Rute Agulhas acrescentou: “No início, tínhamos dioceses – o bispo, a comissão diocesana – e alguns institutos religiosos que diziam ‘não precisamos de formação’, ‘nem sequer temos nenhum caso’”. Agora, após um ano e meio de trabalho do Grupo Vita, que já realizou várias acções de formação em diferentes contextos, Rute Agulhas acredita que “nos próximos seis meses chegaremos aos 100%”.
As dioceses que já tiveram acções de formação são as de Algarve, Évora, Funchal, Vila Real e Portalegre-Castelo Branco, estando as de Aveiro, Bragança-Miranda, Leiria-Fátima, Porto, Setúbal e Viseu na lsita das que se seguem já em breve.
Além das dioceses, o Grupo Vita tem trabalho com institutos religiosos, professores de Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC), catequistas e outros grupos, tendo já atingido 2700 pessoas. Da parte do Secretariado Nacional da Educação Cristã (SNEC), que coordena o trabalho da disciplina de EMRC e das catequeses de infância e juventude a nível nacional, e da Associação Portuguesa das Escolas Católicas, o Grupo Vita tem tido uma grande receptividade, destacou Rute Agulhas.
Em Novembro, o Grupo Vita espera organizar um congresso internacional sobre o tema dos abusos sexuais, que contará com a presença do padre jesuíta alemão Hans Zollner, director do Instituto de Antropologia da Universidade Pontifícia Gregoriana, de Roma, e ex-membro da Comissão Pontifícia para a Proteção de Menores; e também da irlandesa Mary Keenan, uma das maiores especialistas no tema, que tem trabalhado na Irlanda e na Austrália na investigação sobre os abusos na Igreja Católica. Durante este ano de 2025, explicou ainda a coordenadora, o Grupo espera também apresentar dois programas de prevenção primária para crianças e jovens: o programa Girassol (seis a nove anos) e um jogo digital (10-14 anos). Na sessão, foram apresentados também dois folhetos destinados a jovens e adultos, além de um marcador de livros para crianças, que enunciam algumas regras básicas de prevenção neste campo.
“Não há revitimização”

Ilustração do Manual de Prevenção de Abusos, publicado há meses pelo Grupo Vita.
Na sessão de apresentação do relatório (que pode ser lido na página do Vita) os membros do Grupo destacaram alguns dos dados recolhidos nos últimos seis meses – ou, em alguns casos, os números acumulados. Há até hoje 61 pedidos de compensação financeira apresentados por vítimas. Dessas, apenas duas são de opinião que o valor da compensação financeira – que ainda não foi estabelecido pela Conferência Episcopal Portuguesa, o que só poderá acontecer a partir de Abril – deve ser igual para todas as vítimas, todas as outras aceitam a diferenciação estabelecida no regulamento para estes casos e definido pela Conferência Episcopal Portuguesa em Julho passado.
Algumas vítimas já vieram a público contestar o facto de terem de ser ouvidas segunda vez sobre os seus casos. Trata-se de uma revitimização, de reabrir feridas, dizem. Rute Agulhas contesta. Admitindo que há que entender o nexo de causalidade entre o abuso sofrido e a situação que hoje vivem, e que para isso são pedidos às vítimas alguns detalhes adicionais, a coordenadora do Vita afirma que várias vítimas saíram dessas conversas a dizer que se sentiam muito bem. “Não vejo qualquer sombra de revitimização”, que “pode ser evitada pela conversa”, pelo facto de não haver pressa no diálogo. E enfatizou: “Não entendemos que estas entrevistas sejam qualquer processo de revitimização, depende da forma como a entrevista é conduzida, também da forma como os temas são abordados e da liberdade que a pessoa sente” na conversa.
O Grupo Vita entende também que o valor deve ser diferenciado, segundo os critérios definidos no regulamento. O jurista David Silva Ramalho, consultor do Grupo Vita para as questões jurídicas, defendeu a mesma solução, tendo em conta que também na justiça civil os tribunais têm em conta os detalhes de cada caso, definindo indemnizações e compensações a partir daí.
Rute Agulhas acrescentou que prevê que até Março ou Abril esteja terminado o processo de averiguação dos casos de cada pessoa, de modo a estabelecer os valores das compensações. O dinheiro para as pagar virá, recordou ainda a coordenadora, de um fundo comum da CEP, e não de cada diocese.
Mais raiva nos homens, mais medo nas mulheres

O Grupo Vita identificou até agora 118 vítimas de abuso (mais 13 do que em Junho de 2024) e um leigo abusador. Foto © Vatican News
Outros dados do relatório indicam que o Grupo Vita identificou até agora 118 vítimas de abuso (são mais 13 do que em Junho do ano passado) e um leigo abusador, que pediu ajuda psicológica; há mais 19 vítimas a receber esse apoio, além de cinco com apoio psiquiátrico, sete com ajuda social, uma com apoio jurídico e outra com apoio espiritual; em média, as vítimas levam 43 anos a ganhar coragem para conseguirem falar do que se passou; os casos de abuso acontecidos nos últimos 25 anos são muito poucos, já que a maioria ocorreu nas décadas de 1960 e 1980.
As vítimas têm, em média, mais de 50 anos, são homens na sua maioria e 38,7% têm o 9.º ano de escolaridade (a par de 37,1% com formação superior e 24,2% com o ensino secundário). A maior parte sofreu o abuso quando tinha entre 10 e 11 anos – nos relatórios anteriores, este dado estava nos 13/14 anos. Há mais raiva nas vítimas homens e mais medo nas mulheres.
O Grupo Vita comunicou já 70 casos de abuso sexual às instituições católicas (comissões diocesanas ou institutos religiosos), além de 25 comunicados à Procuradoria-Geral da República e à Polícia Judiciária. As dioceses com mais casos relatados são as de Lisboa (10), Porto (9), Braga (7) e Guarda (6).
Na sessão, Joana Alexandre e Ricardo Alexandre, outros dois membros do Grupo Vita, apresentaram também os resultados dos três estudos sobre o modo como os professores de EMRC e os catequistas olham para a realidade dos abusos, e cujas principais conclusões o 7MARGENS divulgou em primeira mão.
Os estudos, que tiveram também uma colaboração activa da parte do SNEC, foram feitos há um ano e meio, quando não havia ainda praticamente nenhuma acção de formação. Os estudos foram respondidos por mais de 1.500 catequistas de 19 dioceses (num universo que pode estar acima de 20 mil pessoas em todo o país, mas do qual não há números exactos) e 214 professores de EMRC, do total de 1280 existentes em Portugal.
(Foto de destaque: Apresentação do terceiro relatório do Grupo Vita. Da esquerda para a direita: David Silva Ramalho, Ricardo Barroso, Joana Alexandre, Rute Agulhas e Jorge Neo Costa. Foto © António Marujo/7MARGENS.)
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