“…Ah! Tenho amor a rodos para dar
Do que sou.
Eu!
Homem qualquer
Cidadão duma Nação que ainda não existe.”
(José Craveirinha, Prémio Camões 1991, Poema do futuro cidadão)
Tive ocasião, em tempos, de visitar a missão de S. João Batista de Marrere, em Nampula. Éramos um grupo de cinco pessoas que, à descoberta de Moçambique, pretendia apoiar alguns projetos que das formas mais diversas contribuíam para melhorar as condições de vida de milhares de pessoas. O nosso destino era a Ilha de Moçambique, primeira capital do país, com paragem obrigatória na missão de Marrere.
Nampula é uma cidade pioneira no contexto do país. Desde logo, na luta armada pela independência a partir de 1964. Depois, protagonista na terrível guerra civil, que se prolongou até 1992. É bom não esquecer a riqueza pastoral da Igreja de Nampula, que sob a liderança de D. Manuel Vieira Pinto, o “visionário de Nampula”, marcou significativamente a história da Igreja de Moçambique.
Presentemente, tudo está muito afetado pelos tempos conturbados que se vivem. Trata-se de uma região que fica na encruzilhada entre o Sul e o Norte, o litoral e o interior, longe de Maputo e sujeita à forte influência dos países mais chegados, como a Tanzânia (onde nasceu a Frelimo) e o Malawi. Estamos numa província densamente habitada, rica em recursos naturais, disputada por grandes empresas e mais uma vez duramente afetada pela insegurança, destruição e deslocações forçadas dos povos.
A missão

“Vencendo muitas contrariedades, construíram um enorme hospital, escolas, residências de apoio, plantaram, cultivaram, ajudaram à fixação das populações, trataram das águas e das colheitas.” Foto: Oficina de Construção Civil. © Manuel Ludovino
Os primeiros missionários chegados às terras de Nampula fixaram-se na zona de Marrere. Ao longo de décadas, desbravaram capim, matas, florestas, construíram a igreja, que é a mais antiga de Nampula. Mas não se ficaram por aí. Vencendo muitas contrariedades, construíram um enorme hospital, escolas, residências de apoio, plantaram, cultivaram, ajudaram à fixação das populações, trataram das águas e das colheitas.
A missão chegou a cuidar de cerca de 300 hectares. Queria ser autossuficiente e reduzir a dependência alimentar. A terra era cultivada para e com os locais sendo fundamental no abastecimento do hospital, escolas e oficinas.
Conseguimos reservar duas noites para a missão, o que nos deu a oportunidade de conhecer e perceber como era a vida por ali. Tivemos o gentil apoio de um voluntário português, que ali permanecia há um ano.
Também encontrámos um outro colaborador belga, que ali trabalhava com a sua mulher, enfermeira, com seis filhos (cinco dos quais nascidos em África), vivendo numa casa alugada à missão.
Como chegámos aqui?
Por indicação de um jovem português a trabalhar em Moçambique há longo tempo, tomámos um voo da Ethiopian Airlines (grande companhia aérea no contexto africano) a partir de Maputo. Apesar de o aeroporto ser acolhedor e bem iluminado, a noite africana caiu abruptamente por volta das 18 horas.
À nossa espera, estava um taxista de trinta anos, que assegurava regularmente as deslocações para os cantos mais remotos da região. Com três filhos de cultura muçulmana, dominante nesta província. De salientar que, através do prático e do possível, sentimos a normal convivência dos vários credos religiosos. Nos últimos anos, esta tranquilidade, alterou-se completamente com os ataques terroristas que têm assolado a vizinha província de Pemba e os muitos deslocados que chegam a Nampula.
Noite cerrada. A falta de iluminação pública, a estrada de terra batida, julgávamos atravessar um descampado. Porém, nesta escuridão, íamos cruzando com dezenas de vultos. Eu própria começava a ter medo da noite, mas tínhamos de confiar no nosso condutor e guia. Finalmente, respirámos de alívio e ficámos mais tranquilos com o caloroso acolhimento que nos esperava.
Um porto seguro

“Sendo o hospital da missão tão importante para as populações, vários benfeitores, nomeadamente uma família portuguesa, participaram na conservação da casa de acolhimento de voluntários.” Foto: Hospital. © Manuel Ludovino
O padre responsável da missão vivia com a sua pequena equipa de trabalho numa velha casa que foi sendo melhorada consoante as possibilidades. Tratava-se de um projeto da diocese que, tal como o país, tinha passado por tempos melhores e piores. Com a aproximação da época das chuvas, era urgente tratar da cobertura da casa.
Sendo o hospital da missão tão importante para as populações, vários benfeitores, nomeadamente uma família portuguesa, participaram na conservação da casa de acolhimento de voluntários. Estava reservada para acolher prioritariamente médicos, enfermeiros e estudantes, provenientes sobretudo da Universidade de Coimbra. As instalações eram boas e funcionavam como um porto seguro para quem ia trabalhar junto de uma realidade tão forte. Essa, foi a nossa casa de pernoita.
Após a independência em 1975, o hospital foi nacionalizado. Com a posterior evolução da situação política, voltou novamente à guarda da Diocese e o Governo assegurava o pagamento dos profissionais de saúde. Apesar de ser o segundo hospital da província, a situação era muito débil em termos de recursos humanos e instalações.
O que encontrámos foram centenas de pessoas, sobretudo mulheres e crianças, apinhadas em salas de espera ou na rua. A capacidade de internamento era de cem camas, com prevalência para doenças respiratórias e cardíacas. Esta é uma zona em que a malária e muitas outras doenças são abundantes. Alguns benfeitores italianos tinham apoiado alguns melhoramentos na cozinha e no bloco cirúrgico.
Os familiares dos doentes aguardavam na rua, ao frio, ao sol e à chuva. A missão fornecia algum apoio alimentar e desejava reunir meios para construir uma casa de acolhimento. Sonhava-se com uma estrutura com cerca de 300 metros quadrados, apta a prestar apoio de cozinha e higiene pessoal a cerca de quarenta pessoas. Não consigo imaginar o que terá sido viver na missão durante a pandemia…
Farinha, água, esperança e uma escola modelar

“A enfermeira, voluntária residente, reuniu meios para construir e manter em funcionamento o centro materno-infantil que, para além de prestar aconselhamento e atendimento, assegurava a distribuição de bens alimentares (…)” Foto: Centro materno-infantil. © Manuel Ludovino
A enfermeira, voluntária residente, reuniu meios para construir e manter em funcionamento o centro materno-infantil que, para além de prestar aconselhamento e atendimento, assegurava a distribuição de bens alimentares que, basicamente era farinha que, após ser fervida com água, é conhecida como xima. Na verdade, esta é a base alimentar da população. Quando visitámos o centro, estava repleto de mulheres e crianças, algumas delas aguardando de pé durante muitas horas. Que milagres aconteciam ali…
Na Casa da Esperança viviam cerca de quarenta rapazes sem família ou deslocados. Para além de um abrigo, a Casa da Esperança acompanhava os rapazes na educação, aprendizagem nas oficinas e inserção no trabalho… com muitos insucessos e recaídas. As preocupações eram enormes com a evolução deste projeto.
Com cerca de mil e quatrocentos alunos, a escola secundária gozava de grande credibilidade, sendo a sua gestão assegurada pela missão. Os professores eram maioritariamente pagos pelo Ministério da Educação. Junto da escola funcionava um Centro de Formação de Professores, em regime de internato, uma vez que as distâncias a percorrer são gigantescas, obrigando a grandes canseiras para ali chegar.
A Escola Profissional, foi construída sob a coordenação do François, que conseguiu angariar fundos através de benfeitores de Espanha, Itália e Noruega. A Helpo, ONG Portuguesa, também estava presente.
O que vimos foi uma escola modelar, cuja principal valência era a carpintaria. Relembro que esta é uma zona com madeiras nobres e de boa qualidade. Um outro grupo trabalhava a arte da serralharia. Carpintaria e serralharia faziam uma boa combinação. Também se encontrava a funcionar a especialidade de construção civil, muito útil para a própria missão.
Cada uma das áreas profissionais tinha um coordenador e formadores. Alguns dos produtos concebidos tinham até sido premiados. A escola de serralharia era considerada exemplar a nível nacional, tendo sido visitada pelo Presidente da República de Moçambique.
Comunidades de cristãos adultos
Também convivemos com uma comunidade, constituída por quatro religiosas que se ocupavam basicamente do acompanhamento da escola secundária, da escolinha e do hospital – para além, naturalmente, da animação da vida religiosa.
O hospital incorporava nas suas instalações uma igreja, que por sinal precisava de conservação urgente. Mais recentemente, tinha sido construída uma outra no exterior, onde decorria o culto e até tinha ocorrido uma ordenação.
O padre José Luzia, beirão, que fez parte da equipa de D. Manuel Vieira Pinto, apesar de jubilado, continua a viver na missão, apoiando também a Diocese, sobretudo na área da comunicação social. Trata-se de um profundo conhecedor da realidade moçambicana, que se integrou entre as pessoas, o clima e a vida como um “pato na água”, com grande paixão e sentido crítico.
São múltiplas as suas publicações, onde procura compreender o povo, a sua cultura e a terra. A Igreja das Palhotas, com várias reedições, ou Manuel Vieira Pinto – O Visionário de Nampula, testemunham o corajoso empenho do bispo missionário no diálogo com todos e na formação de cristãos e comunidades adultas que marcaram a Igreja em Nampula.
Urgências e aflições

“As debilidades eram imensas, mas quantos mais obstáculos os responsáveis enfrentavam, mais dignos se tornavam a fazer acontecer milagres.Foto: Oficina de carpintaria.” © Manuel Ludovino
As debilidades eram imensas, mas quantos mais obstáculos os responsáveis enfrentavam, mais dignos se tornavam a fazer acontecer milagres. Algumas das prioridades:
- Construção da casa de acolhimento para os familiares dos doentes;
- Centro de acolhimento para mulheres em fase final da gravidez;
- Cozinha comunitária;
- Furo artesiano para reforço do abastecimento de água no hospital;
- Medidas de proteção de saúde, especialmente contra a malária;
- Acolhimento de voluntários, sobretudo para apoio ao hospital ou outras tarefas. Apesar de desejados, a sua rotatividade dificultava a continuidade de alguns trabalhos.
- Recursos financeiros para a concretização destes projetos. Este apoio pode ser remetido de forma expedita, diretamente para a missão, através dos serviços Western Union, que operam junto dos balcões CTT e de outros agentes.
Recordando o que vi. Ainda me impressiona a dimensão do país e os seus desafios. Como é possível fazer tanto com tão pouco? É tocante a dignidade das pessoas, apesar de tantas contrariedades. Fiquei com a perceção de que, apesar de todas a vicissitudes, Portugal, antiga colónia, está presente no imaginário coletivo. Poderíamos fazer mais. Moçambique fica longe, muito longe. Mas, foi com grande surpresa que encontrámos a presença de outros países no apoio a projetos deste país irmão.
Manuela Ludovino, economista, trabalhou na Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo; integra grupos da ACR (Ação Católica Rural) e da Cáritas na Diocese de Lisboa. Casada, duas filhas e cinco netos.










