Há poucas semanas fui à minha terra natal, em pleno coração da Beira Baixa e pude, uma vez mais, observar que por lá os dias passam devagar. O tempo tem outro ritmo, os rostos são conhecidos, as histórias repetem-se e ainda assim, algo está a mudar. Ou talvez seja mais justo dizer: a desaparecer.
Em muitas aldeias deste interior granítico e desertificado fecharam o banco. A escola tornou-se museu ou armazém. A farmácia foi para outra freguesia. Já não há posto médico nem oficina. A padaria fechou e agora a carrinha do pão vem dia sim, dia não. A associação cultural e recreativa tem sede, mas já sem sócios. O café, que antes era sala de visitas da aldeia, agora abre só à hora do jogo ou antes da eucaristia dominical. A indústria e o comércio foram-se com os filhos, que partiram. E de repente, numa praça onde tudo vai fechando… a igreja, essa continua ali. De portas abertas. De sino a tocar. Às vezes só com meia dúzia de fiéis, mas com uma persistência que desafia o tempo.
E então alguém – pergunta, talvez com ar irónico:
— Mas a Igreja não está envelhecida?
Talvez esteja. É verdade que há bancos vazios e cabelos brancos nos lugares da frente. Que há tradições mais repetidas do que vividas. Que há cansaço, e muitas vezes saudade de uma comunidade que já foi maior. Mas também é verdade que, na hora da perda, é à Igreja que se bate à porta. Na doença, no luto, na esperança, no silêncio… ali está ela. Nem sempre perfeita. Mas sempre presente.
“Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e pela comodidade de se agarrar às próprias seguranças”, dizia-nos o Papa Francisco (Evangelii Gaudium 49). É isso. A Igreja está ali, talvez cansada, talvez pequena, mas ainda de pé. E se sair das sacristias, se se deixar tocar pela vida do povo, então pode voltar a ser sinal de esperança, de proximidade e de novo começo.

Foto: Igreja paroquial da Vila do Carvalho (Covilhã). Retirada do blog da Paróquia Vila do Carvalho.
O que permanece diz muito. E no interior, no meio rural, a Igreja é muitas vezes o último lugar onde ainda se fala de eternidade, de fraternidade e de cuidado mútuo. O último lugar onde alguém reza pelo vizinho. Onde se faz um gesto por amor. Onde ainda se olha para o céu com fé, não só com previsão do tempo. “A paróquia não é uma estrutura caduca; justamente por possuir uma grande flexibilidade, pode tomar formas muito diversas segundo a criatividade do pastor e da comunidade.” (EG, 28) Isso vale também, e sobretudo, nas aldeias. A paróquia pode ser simples, pobre, pequena, mas cheia de humanidade e de Evangelho. O que falta não são recursos; é paixão, é escuta, é conversão pastoral.
Talvez a Igreja não esteja envelhecida — talvez esteja apenas à espera de quem a ame com ardor novo. Porque a Igreja que permanece não é o edifício. É o coração que não desiste de esperar. É o rosto que ainda canta no domingo. É o sino que toca como quem chama à vida. E isso, em tempos de tanto encerramento, já é um milagre.
Pedro Mangana é frade da Ordem dos Pregadores (Dominicanos).








