
Um mar de nuvens belíssimo, a perder de vista, flocos de espuma celeste pairam no firmamento.
Parto numa viagem adiada, rumo a França, País do Loire, Nantes, cidade que anualmente oferece um itinerário estival a céu aberto pela arte contemporânea. Das esculturas permanentes às temporárias, os olhos arregalam-se face à criatividade humana, capaz de fazer despontar palmeiras numa cabeça, uma mão numa árvore ou uma menina numa fonte, empoleirada, num “Elogio à Transgressão” (Eloge de la Transgression).
A arte tem o poder de nos devolver a um lugar interior de contemplação do belo. A fotografia não é a do local: é a apropriação do momento singular de êxtase, de gratidão diante do majestoso, a evocação da vivência. E é isso que torna cada viagem singular, única, irrepetível.
Muitas viagens acontecem numa só viagem

Escultura de Max Coulon. Foto © Maria Carla Crespo
Percorrer quilómetros e quilómetros a pé, de barco, de elétrico, de avião. Cruzar outras culturas, novos olhares sobre o mundo. Admirar a variedade de modos de andar, correr, trajar. Pensar e falar noutra língua e dela me apropriar como da minha língua materna. Participar da vida local. Experimentar diferentes gastronomias, como “metáfora da própria existência humana”, “numa mobilidade que não é só geográfica”, como evoca Tolentino Mendonça (2012), recordando o antropólogo Claude Lévi-Strauss. São inúmeras as vantagens que encontro no rasgar o coração e partir com destino marcado para o país favorito. (Há quem diga que é “pancada”… Seja!)
Poderia ser no bairro ao lado, ao virar da esquina. Porém, ganha intensidade no país inscrito na alma. É uma espécie de contacto identitário, como se mergulhasse nas águas amnióticas. Algo inexplicável, que me arrebata e engrandece, abrindo-me a cada gesto de bondade (num esclarecimento, quando estou perdida, mapa de pernas para o ar, sem saber para onde ir; quando me servem uma refeição à medida das minhas restrições alimentares; quando alguém se levanta no metro para me ceder o lugar…). São, sem dúvida, os gestos humanos que nos aproximam uns dos outros, para além da aparência, da cor da pele, do traje, da língua, da cultura.
Viajar é, para mim, sinónimo de captar em silêncio o pulsar da cidade, da sua vida quotidiana, das suas ruas, cafés, lojas, livrarias. Ter vagar para apreciar, ainda que atónita, como uma cadeia livreira internacional cedeu à tecnologia e quase não expõe livros nos seus 3 andares de jogos, equipamentos tecnológicos, material escolar para a rentrée! E como, em contrapartida, as pequenas e emblemáticas livrarias de bairro mantêm informação atualizada, com a política internacional em destaque. Holocaustos, limpeza étnica, armadilhas da História, malfadado espelho da sociedade contemporânea, compõem alguns títulos. Mas também a jardinagem, a literatura, a psicologia, os ensaios sobre o conceito de família e o cuidado dos outros nas sociedades capitalistas, a náutica, a arte e toda uma panóplia de temáticas, que acenam a distintos perfis de leitor, da ficção à não ficção, da literatura “light” aos clássicos consagrados.
Viajar é ainda sorrir perante visões que, noutro contexto, me pareceriam (ainda mais) estapafúrdias, como a ideia de que fumar é subscrever um ideal capitalista e ser politicamente de direita.
Enfim, sentido de humor, rasgos de brincadeira, divertimento com pequenos nadas é algo que trago sempre na bagagem quando viajo.
E, para arrebatar esta experiência de veraneio, a cereja em cima do bolo: o encontro com amigos franceses de longa data e a partilha de pequenos símbolos aos quais todos conferimos valor. Tudo é viagem. Tudo refresca o pulsar interior e alimenta para a vida quotidiana: umas conchas da praia pela qual passaram, uma caneta dos Jogos Olímpicos 2024, umas preciosas orientações para quem não foi dotado de orientação espacial…
Oiço Álvaro de Campos: “Come chocolates, menina, come chocolates”. Acredito, ao contrário do heterónimo de Fernando Pessoa, que há mais metafísica no mundo do que na chocolataria e que é preciso fruir o mundo, porque, mesmo se “Não sou nada” (…) / À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”.
Boas viagens!

Lady Palm e Sir Palm de Jean-François Fourtou. Foto © Maria Carla Crespo
Maria Carla Crespo









