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Kimia Yousofi. Foto DR via UNICEF España

Kimia Yousofi, atleta dos 100m

Não queriam deixá-la correr pelo Afeganistão, ela correu por todas as afegãs

| 07/08/2024

Kimia Yousofi. Foto DR via UNICEF España

“Eu só quero representar o povo afegão com esta bandeira, a nossa cultura. As nossas meninas no Afeganistão, as nossas mulheres, elas querem direitos básicos, educação e desporto”, disse Yousofi, após concluir a corrida dos 100 metros em Paris. Foto: Direitos reservados via UNICEF España

Kimia Yousofi não era favorita a ganhar nenhuma medalha, nem sequer a chegar à final dos 100 metros, modalidade onde competiu na semana passada em Paris. Mas todos tinham os olhos postos nela. De lenço na cabeça, camisola de manga comprida e calças, Kimia não levava apenas mais roupa que as outras atletas, ela transportava consigo um pesado fardo. E quando passou a meta, dois segundos depois da vencedora, todos puderam entender: nas costas do seu dorsal, que mostrou para as câmaras, tinha escrito “Educação”, “Desporto”, “Os nossos direitos”. Era por esses direitos que ela tinha acabado de correr.

As palavras estavam escritas a preto, verde e vermelho, as cores da bandeira do Afeganistão, país cujo governo não a reconhece como sua representante. “Apenas três atletas estão a representar o Afeganistão”, disse Atal Mashwani, porta-voz do gabinete de desporto do governo Talibã, no mês passado, referindo-se aos competidores masculinos. “Atualmente, no Afeganistão, os desportos femininos foram interrompidos. Quando o desporto feminino não é praticado, como é que elas podem entrar para a seleção nacional?”, insistiu Mashwani, em declarações à AFP.

Desde que regressaram ao poder, em 2021, os Talibã impuseram fortes restrições que impedem as mulheres de praticar desporto e frequentar as escolas secundárias e a universidade. Os Jogos de Paris são as primeiras olimpíadas de verão desde que o grupo assumiu novamente o governo, e a decisão do Comité Olímpico Internacional foi diferente da tomada para os Jogos de Sydney, em 2000, durante o primeiro período de governo Talibã, entre 1996 e 2001, numa altura em que as mulheres também foram proibidas de praticar desporto. Nessa altura, o COI proibiu mesmo o Afeganistão de participar nos jogos. Desta vez, adotou uma abordagem diferente: aprovou a equipa afegã, num sistema que pretende garantir que todas as 206 nações estejam representadas, mesmo nos casos em que os atletas não se classificariam de outra forma. E, neste caso, não consultou as autoridades Talibã sobre a equipa, a qual foi selecionada pelo Comité Olímpico do Afeganistão, que opera fora do país.

Quanto a Kimia Yousofi, 28 anos, fugiu para o Irão quando os Talibã voltaram ao poder, e conseguiu depois um visto para si e para a sua família na Austrália, com o apoio do Comité Olímpico Australiano. Inicialmente, queria ficar em Cabul, mas rapidamente percebeu que isso significaria desistir dos seus direitos, e dos direitos das restantes mulheres afegãs.

“Eu só quero representar o povo afegão com esta bandeira, a nossa cultura. As nossas meninas no Afeganistão, as nossas mulheres, elas querem direitos básicos, educação e desporto”, disse Yousofi, após concluir a corrida. A atleta disse que, no seu país, as mulheres não são consideradas seres humanos. “Ser capaz de decidir as suas vidas, isso foi-lhes tirado nos últimos dois anos. Estamos a lutar por isso”. E acrescentou, dirigindo-se diretamente às mulheres afegãs: “Não desistam, não deixem que outros decidam por vocês. Procurem oportunidades e usem essas oportunidades”.

O gesto e as palavras de Kimia Yousofi não terão passado na televisão no Afeganistão. As competições femininas não são transmitidas porque o governo Talibã as considera “escandalosas e imorais”. Mas Kimia promete que não vai desistir de levar a sua mensagem o mais longe possível.

 

As irmãs ciclistas que tiveram de se esconder da própria família

Irmãs Hashimi, ciclistas do Sfeganistão, nos Jogos Olímpicos de Paris. Foto Road to Equality

As irmãs Fariba e Yulduz Hashimi, ciclistas do Afeganistão, fugiram de Cabul com a ajuda da ex-ciclista e campeã mundial italiana Alessandra Cappellotto. Foto © Road to Equality

O mesmo garantem Fariba e Yulduz Hashimi, as outras duas mulheres que compõem a equipa do Afeganistão em Paris. Irmãs e ambas ciclistas, as duas atletas estavam em Cabul quando a capital foi tomada pelos Talibã e escaparam por pouco da cidade sitiada, com o apoio da ex-ciclista e campeã mundial italiana Alessandra Cappellotto, que as ajudou a embarcar num avião rumo ao norte de Itália, e por estes dias esteve em Paris para aplaudi-las.

As irmãs Hashimi contaram ao canal France 24 que nunca imaginaram poderem tornar-se ciclistas profissionais, mesmo antes de os Talibã regressarem ao poder, e muito menos serem as primeiras ciclistas afegãs de sempre (entre mulheres e homens) a representar o seu país nos Jogos Olímpicos. Tendo crescido na conservadora província de Faryab, na fronteira com o Turquemenistão, tiveram que manter a sua paixão em segredo durante muito tempo, até mesmo das próprias famílias.

“Quando fiz a primeira prova, a minha família não viu que eu estava na corrida porque eu usava um hijab e óculos escuros… Corri três vezes na minha cidade, e de todas as vezes eu e a minha irmã vencemos. Então, depois da segunda prova, alguns jornalistas tiraram-me fotos – e foi aí que a minha família percebeu”, recorda a mais nova das duas irmãs, Fariba.

Embora a família tenha acabado por tornar-se uma fonte de apoio para as duas irmãs, Fariba partilha que a visão de duas jovens a praticar ciclismo nas ruas da sua cidade natal foi recebida com indignação pelo resto da comunidade. “Quando tentei treinar do lado de fora da minha casa, as pessoas começaram a atirar pedras e a dizer que as mulheres eram apenas para ficar em casa, que aquela não era a coisa certa a fazer”, conta.

O objetivo das irmãs Hashimi, de 19 e 22 anos, é mudar esta mentalidade. “Vou tentar fazer isso pelo meu povo, para mostrar que o ciclismo é algo bom que todos podem fazer, não apenas os homens, mas também as mulheres”, afirmou na mesma entrevista, explicando que foi por isso que quis competir pelo seu país, e não sob a bandeira dos refugiados, nem sob a bandeira branca do autoproclamado Emirado Islâmico do Afeganistão, dos Talibã, mas sob a anterior bandeira tricolor preta, vermelha e verde, a mesma que Kimia Yousofi quis recordar no seu cartaz improvisado. “Esta é a minha bandeira, e estou a lutar com esta bandeira”, disse Fariba. “É a nossa bandeira, tem uma longa história para nós. É vida para nós”.

E apesar de viver em Itália e estar em Paris, é no Afeganistão que pensa constantemente. “Espero que um dia possa voltar para o meu país e para a minha família. Eu realmente sinto falta do meu país. Eu realmente, realmente, realmente sinto falta dele. E quero voltar um dia. Espero que a situação mude, e que eu possa praticar o meu desporto no meu país”, concluiu, emocionada.

 

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