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Casamento Foto Henriette Lohman
A nova nota doutrinal reafirma o valor do matrimónio como “união exclusiva e pertencimento recíproco” entre um homem e uma mulher. Foto © Henriette Lohman

"Una caro"

Nota doutrinal sobre monogamia lembra a todos – e não apenas aos bispos africanos – o “valor de um amor exclusivo”

| 25/11/2025

Chama-se Una Caro (em português, “Uma só carne”) e o subtítulo – Elogio da monogamia – resume desde logo a ideia principal da nota doutrinal publicada esta terça-feira, 25 de novembro, pelo Dicastério para a Doutrina da Fé: sustentar “o valor de um amor exclusivo, reservado a uma única pessoa”. O documento surge em resposta às preocupações manifestadas por parte de diferentes bispos africanos com a prevalência da poligamia nas suas comunidades, mas dirige-se “à Igreja universal” e “pode ser considerado em qualquer lugar”, num tempo em que o valor desse amor “é facilmente obscurecido”.

A nota – que se estende por 40 páginas, divididas em sete capítulos e 156 pontos – está disponível online. para já apenas em língua italiana. A sua apresentação (que pode ser vista no vídeo abaixo) ficou a cargo do cardeal Victor Manuel Fernández, prefeito do dicastério, que sublinhou a importância do seu conteúdo no contributo para a “defesa da dignidade” de cada pessoa, não só face aos casos de poligamia, mas também das “diversas derivações no que diz respeito ao amor” que “a nossa época conhece”, nomeadamente a “banalização do adultério” ou a “promoção do poliamor”.

“O documento, de facto, leva a sério o atual contexto global de desenvolvimento do poder tecnológico, no qual os seres humanos são tentados a considerarem-se criaturas ilimitadas, capazes de alcançar tudo o que imaginam. Dessa forma, o valor de um amor exclusivo, reservado a uma única pessoa, é facilmente obscurecido, o que, por si só, implica a renúncia livre a muitas outras possibilidades”, lê-se na introdução, que adianta ainda: “a intenção desta Nota é fundamentalmente proposicional: extrair das Sagradas Escrituras, da história do pensamento cristão, da filosofia e até mesmo da poesia, razões e motivações que nos impelem a escolher uma união de amor única e exclusiva, uma rica e abrangente pertença mútua”. Até porque, sublinha o texto, a monogamia “não é simplesmente o oposto da poligamia. É muito mais do que isso”. E só “uma compreensão mais profunda” da mesma permite “conceber o matrimónio em toda a sua riqueza e fecundidade”. 

Já “a poligamia, o adultério ou o poliamor baseiam-se na ilusão de que a intensidade de uma relação pode ser encontrada na sucessão de rostos”. Mas, “como ilustra o mito de Dom Juan, o número dissolve o nome: dispersa a unidade do impulso amoroso”.

Recorrendo, assim, a múltiplas citações – entre as quais se destacam as de alocuções e textos dos Papas João Paulo II, Bento XVI, Francisco e Leão XIV, mas também de documentos saídos do Concílio Vaticano II, e de outros mais antigos, como a Suma Teológica de São Tomás de Aquino – a nova nota doutrinal reafirma o valor do matrimónio como “união exclusiva e pertencimento recíproco” entre um homem e uma mulher, e defende que a monogamia não deve ser vista como “uma limitação”, mas sim como a possibilidade de “um amor que se abre ao eterno”.

 

A importância da liberdade, do diálogo e da sexualidade

O próprio vazio nunca deve ser preenchido “por meio do domínio do outro”, destaca a nova nota doutrinal. Foto © Emmanuel Obuobi, Gana

Sendo uma união “totalizante” e “indissolúvel”, o matrimónio “não é posse”, salvaguarda no entanto Una Caro, destacando que é preciso não esquecer dois elementos que nele surgem como decisivos: o pertencimento recíproco e a caridade conjugal. O primeiro, “fundado no consentimento livre” dos cônjuges, é reflexo da comunhão trinitária e torna-se “uma forte motivação para a estabilidade da união”. Trata-se de um “pertencimento do coração, onde somente Deus vê” e onde só Ele pode entrar, “sem perturbar a liberdade e a identidade da pessoa”.

Assim entendida, “a mútua pertença própria do amor recíproco exclusivo implica um cuidado delicado, um santo temor de profanar a liberdade do outro, que tem a mesma dignidade e, portanto, os mesmos direitos”. Porque quem ama sabe que “o outro não pode ser um meio para resolver as suas próprias insatisfações” e que o próprio vazio nunca deve ser preenchido “por meio do domínio do outro”. A esse respeito, a Nota condena “as tantas formas de desejo doentio que desembocam em várias manifestações de violência explícita ou subtil, de opressão, de pressão psicológica, de controlo e, por fim, de asfixia”, que revelam “falta de respeito e de reverência diante da dignidade do outro”.

Ao contrário, o matrimónio tem de ser constituído por um “nós dois” saudável, e que implica “a reciprocidade de duas liberdades que nunca são violadas, mas se escolhem mutuamente, deixando sempre intacto um limite que não pode ser ultrapassado”.

Um casal, admite ainda a Nota, poderá necessitar de um momento de reflexão ou algum espaço de solidão ou autonomia pedido por um dos cônjuges, visto que o matrimónio não é “pretensão de tranquilidade absoluta”, nem libertação total da solidão (segundo o documento, apenas Deus pode preencher o vazio sentido por um ser humano), mas sim confiança e capacidade de enfrentar novos desafios. Ao mesmo tempo, convida-se os cônjuges a não se recusarem mutuamente, porque “quando a distância se torna muito frequente, o ‘nós dois’ expõe-se à sua possível eclipse”. Um diálogo sincero permitirá, em vez disso, sanar as causas do afastamento recíproco e encontrar o equilíbrio justo.

O documento refere ainda que a questão da monogamia “está intimamente ligada à finalidade unitiva da sexualidade”, e reconhece que esta “não se limita a assegurar a procriação, mas contribui para enriquecer e fortalecer a união única e exclusiva e o sentimento de pertencimento mútuo”.

 

Educar para o amor que “não é um mero impulso”

Casal a usar telemóveis, redes sociais. Foto Anton Estrada

No atual “mundo das redes sociais, onde a modéstia se esvai e a violência simbólica e sexual prolifera”, é urgente uma nova pedagogia. Foto © Anton Estrada

Mas será realmente possível este “amor que se abre ao eterno” nos dias de hoje? Una Caro argumenta que sim, e a chave reside na educação. Como afirma o cardeal Victor Manuel Fernández, “não basta denunciar os fracassos; partindo dos valores ainda presentes no imaginário popular, é necessário preparar as gerações para abraçar a experiência do amor como um mistério antropológico“. E isso torna-se ainda mais evidente no atual “mundo das redes sociais, onde a modéstia se esvai e a violência simbólica e sexual prolifera”, demonstrando “a urgência de uma nova pedagogia”.

Uma pedagogia que mostre que “o amor não pode ser reduzido a um mero impulso: ele exige sempre a responsabilidade e a capacidade de esperança da pessoa na sua totalidade”, enfatiza a Nota, destacando o valor do namoro como “um tempo de prova e amadurecimento, no qual o outro é acolhido como uma promessa de infinito”. “Assim, a educação na monogamia não é uma restrição moral, mas uma iniciação na grandeza de um amor que transcende a imediatidade. Ela direciona a energia erótica para uma sabedoria duradoura e uma abertura ao divino”.

Entendida deste modo, conclui o texto, “a monogamia não é arcaísmo, mas profecia: revela que o amor humano, vivido na sua plenitude, antecipa de alguma forma o próprio mistério de Deus”.

 

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