O novo arcebispo de Braga manifesta-se disponível para a escuta e diz que não tem um programa, antes quer conhecer a diocese. Neste domingo, com a presença de muitos convidados, José Cordeiro celebra a sua primeira missa já no novo cargo.

D. José Cordeiro assinando o registo da sua posse como novo arcebispo de Braga. Foto © DACS.
Pouco passava das 16h30 deste sábado, 12, quando, sentado a uma pequena mesa colocada na capela-mor da Sé de Braga, José Cordeiro assinou a ata da sua tomada de posse. Com essa assinatura que se realizou no decorrer da celebração de “vésperas”, entrava em funções o sucessor de Jorge Ortiga como arcebispo primaz e metropolita de Braga.
A anteceder esse momento, o chanceler do Cabido havia lido a bula pontifícia em que “Francisco, bispo, servo dos servos de Deus”, ou seja, o Papa, havia anunciado a sua escolha: “Pensámos em ti, irmão venerável, que na Diocese de Bragança-Miranda desempenhaste com diligência as funções episcopais, sobressaindo pela caridade, pela prudência, e pela integridade pastoral”, diz o texto. “Por isso pareces-nos apto para assumires esse múnus. E assim (…) com autoridade apostólica, nomeamos-te arcebispo metropolita de Braga, com correspondentes direitos e obrigações, segundo as normas do Código do Direito Canónico.”
O documento que ficará como memória foi assinado pelo núncio apostólico Ivo Scapolo, que presidiu, pelo nomeado, pelo titular cessante e seu auxiliar, bem como pelos cónegos do Cabido. Após a saudação do deão, faltava apenas, no protocolo dos procedimentos da passagem de testemunho, proceder à substituição do brasão de armas (da fé) de Jorge Ortiga, pelo de José Cordeiro na cátedra (ou cadeira) a partir da qual o novo arcebispo anunciará a palavra de Deus e presidirá à Eucaristia.
Na despedida, feita de improviso, o arcebispo cessante chamou à baila o Sínodo que a Igreja Católica está a viver, para dizer ao sucessor que quer caminhar com ele. “Pode estar tranquilo, que o peso desta catedral, nos séculos da história e nos santos que por aqui passaram não lhe podem meter medo”, salientou Jorge Ortiga. “Ele sabe que o caminho será duro, será difícil, mas ele sabe que não caminha sozinho”, observou.
Longe vão os tempos em que a tomada de posse de um novo arcebispo era feita de tensão ou mesmo de conflito aberto. Até ao final do século XVIII, ocupar o cargo significava ser também o “senhor” de Braga e arredores. Os ritmos com que se superavam as fases de sede vacante eram por norma longos e ao Cabido competia gerir os assuntos eclesiásticos, mas também os terrenos. Talvez provenha desse tempo o que se viu na cerimónia deste sábado: o núncio apostólico a ir mostrar a bula pontifícia de nomeação com a assinatura do Papa, para que cada um dos presentes na capela-mor verificasse a conformidade do documento. Todos acenavam com a cabeça, fazendo de conta que tinham verificado. Ecos de tempos idos, provavelmente.
Trabalho, desclericalização e pedofilia

O novo arcebispo de Braga, José Cordeiro, na conferência de imprensa inaugural do ministério, em 12 Fevereiro 2022. Foto © DACS.
Os atos do primeiro dia da posse do novo arcebispo incluíram também uma conferência de imprensa, que teve lugar em instalações do restaurado Museu Pio XII, no Largo de Santiago, dinamizada pelo padre Paulo Terroso, responsável pelo Departamento de Comunicação da Arquidiocese.
Foram muitos os jornalistas que ali se juntaram para ouvir o que o novo responsável tinha para dizer e foram bastantes as questões que lhe foram colocadas. Algumas delas pretendiam conhecer que prioridades ou linhas de ação ou mesmo pontos programáticos traria para o exercício do seu ministério. Das respostas que deu, ficou uma ideia que pode denunciar uma atitude em sintonia com o espírito sinodal para que o Papa Francisco convoca a Igreja: “Como compreendem, eu não trago um programa. O que pretendo é inserir-me na vida da diocese, colocar-me à escuta, para que aquilo que seja de fazer se faça com a colaboração de todos os membros da Igreja” – disse o arcebispo.
Foi, entretanto, afirmando que, quando foi nomeado, recebeu uma carta que o tocou, bastante. Era de um jovem que lhe pedia que tivesse especial atenção a dois grupos de pessoas: os pobres e os jovens. Nesta linha, alguém lembrou que, em Bragança, à frente de cuja diocese esteve, referia frequentemente estas duas categorias, juntando as periferias. Mas José Cordeiro não saiu do guião que tinha: “O desafio é o da missão.”
O 7MARGENS perguntou-lhe como via as novas problemáticas do trabalho e dos trabalhadores, nomeadamente a precariedade, o desemprego, o teletrabalho e outras mudanças e que papel a Igreja poderia assumir nesta diocese. Na resposta, o arcebispo disse que iria ouvir empresas e setores de atividade económica, admitindo reunir com a Comissão Diocesana de Justiça e Paz sobre esta matéria.
Perguntou-lhe também como assumia o desafio lançado pelo Papa Francisco de combater o clericalismo e “desclericalizar” a Igreja. D. José reconheceu que o clericalismo é um mal, e que a “desclericalização” é um processo pessoal que diz respeito a todos. Acrescentou que os padres são poucos e que está em curso um processo de tomada de consciência sobre o sacerdócio de todos os fiéis batizados, sendo desejável que “todos ocupem o lugar que lhes compete”.
Sobre a pedofilia na Igreja, outro tema que apareceu, o arcebispo disse que o problema suscita “vergonha e humilhação”; que “a sociedade despertou tarde para ele, assim como a Igreja” e que há, agora a “oportunidade de dar voz ao silêncio”, em alusão ao trabalho da Comissão Independente recentemente criada, que disse ser “de estudo” e não de investigação. A cura das feridas de todos os envolvidos é “uma purificação” que liberta a Igreja de modo a que seja lugar de paz e bem-estar, em segurança, adiantou.
Por fim, foi-lhe colocada a questão da participação da diocese no processo da candidatura de Braga a Capital Europeia da Cultura. Recorde-se que o agora arcebispo emérito suscitara recentemente a incomodidade da Igreja pelo facto de a candidatura supor uma utilização significativa de edifícios e espaços diocesanos, sem no entanto ter envolvido representantes da diocese na candidatura. O sucessor de Jorge Ortiga não se comprometeu com nenhuma medida em concreto, mas observou que é sensível ao potencial do mote da candidatura (“Tempo de Contemplação”) e disse que irá conhecer em profundidade a candidatura, manifestando, ao mesmo tempo, a convicção de que “a Igreja há-de acompanhar” este processo e que é possível “poder colaborar”.
Ao contrário dos atos deste sábado, neste domingo, 13, José Cordeiro vai apresentar-se à Igreja bracarense, no decorrer de uma celebração eucarística com muitos convidados, incluindo titulares de órgãos de soberania – Presidência, Assembleia da República e Governo – e autarquias locais, para além de instituições da sociedade civil. Os interessados em participar que não tenham lugar no interior da catedral, por razões sanitárias, poderão seguir a Eucaristia através de ecrãs gigantes colocados no Rossio da Sé e no claustro da catedral.










