
O cardeal Victor Manuel Fernández, prefeito do Dicastério da Doutrina da Fé desde 2023. Imagem reproduzida a partir da transmissão via Youtube
Não queria tocar já no assunto. Pensara que era importante deixar o Sínodo correr, acompanhar a questão de longe e depois, sem ímpetos ou impulsos, escrever (se as coisas para aí se virassem) sobre o tema.
Só que na segunda-feira, 21, tropecei nas pérolas do comunicado que o prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, cardeal Victor Manuel Fernández, divulgou aos participantes da Segunda Sessão do Sínodo da Família, “depois de muita pressão e insistência”.
Por estar com certeza muito ocupado com temas relevantes, mandou que esse comunicado acerca das “diaconisas” fosse lido pelo diretor de comunicação do Sínodo, Paolo Ruffini. E enviou, como descreve Manuel Pinto [no 7MARGENS], pesos-pesados para esse encontro com jornalistas: Nathalie Becquart, subsecretária-geral do Sínodo, Timothy Radcliffe, teólogo e conselheiro espiritual do Sínodo, e Mateo Zuppi, arcebispo de Bolonha e presidente da Conferência Episcopal Italiana. Já suspeitávamos que o Dicastério para a Doutrina da Fé tem “características especiais”, isto é, funciona numa base de opacidade e fechamento, o oposto de uma lógica sinodal e aberta – e pensámos, curiosos: e é logo este Dicastério que vai desenvolver os trabalhos relativos à participação das mulheres na Igreja? Mas agora ficámos também a saber que o seu prefeito (por sobranceria? cobardia?) não gosta de prestar contas públicas do que faz ou pensa, preferindo enviar recados aos fiéis através de enviados especiais
Com segurança, afirma nesse comunicado: “Sabemos que o Santo Padre expressou que, neste momento, a questão do diaconato feminino não está madura e pediu que não consideremos essa possibilidade agora”. Estando verde (mas para quem?), a questão não merece pois discussão ou aprofundamento numa reunião como a do Sínodo – é enviada preguiçosamente para um limbo institucional. Levantar ondas para quê? Afinal, e continua, certamente para nos deixar descansados e confiantes: “Por sua vez, o Santo Padre está muito preocupado com o papel das mulheres na Igreja e, mesmo antes da solicitação do Sínodo, ele pediu ao Dicastério para a Doutrina da Fé que explorasse as possibilidades de um desenvolvimento sem se concentrar na ordem sagrada”. Acautelem-se, porém. Prossegue o prefeito: “Pensar no diaconato para algumas mulheres não resolve a questão dos milhões de mulheres na Igreja” – mas resolve para os milhões de homens, é isso? E, cereja no topo do bolo, ei-lo que proclama do alto da sua cátedra: “A pressa em pedir a ordenação de diaconisas não é a resposta mais importante hoje para promover as mulheres”. Aqui temos, pois, alguém que vê pressa na resolução de uma questão que considera menor, e que ignora a relevância que ela assumiu em muitos relatórios produzidos pelas comunidades católicas por esse mundo fora, na preparação dos trabalhos deste Sínodo. Para o cardeal, certamente esquecido do encorajamento à “escuta ativa”, a questão das mulheres é descartável.
Tenho para mim que este é um notável exemplo de clericalismo, típico de uma Igreja fechada sobre si própria, medrosa e incapaz de compreender o mundo que a envolve. É a Igreja que exclui e discrimina para defender uma casta que ocupou e ocupa o poder e dele não quer abrir mão. É a tal casta que se eleva servindo-se dos outros, e não a que os serve e procura o bem do próximo.

Marcha pela ordenação de mulheres, promovida pela Women’s Ordination Conference, assinalando o início do Sínodo sobre a sinodalidade. Roma, 6 Outubro 2023. Foto © António Marujo/7MARGENS
Nós, muitas mulheres católicas praticantes (e outros tantos homens, obviamente), sentimo-nos insultadas com declarações como as que transcrevi. Estamos cansadas de as ouvir. Muitas vezes, demasiadas vezes. A argumentação é sempre a mesma. O mais frequente é darem-nos os exemplos da Virgem Maria e das santas, modelos femininos de veneração de toda a Igreja, começando nos papas e cardeais, e acabando nos fiéis. Ou lembrarem-nos a dignidade do trabalho das mulheres anónimas que, nas paróquias, se ocupam das tarefas do cuidar dos párocos, da limpeza dos altares, da lavagem dos chãos, do passar a ferro e remendar os paramentos. E mesmo a obediente Nathalie Becquart, no dito encontro com os jornalistas, fez questão de lembrar “os lugares de destaque que muitas mulheres já ocupam – na Cúria Romana, nas universidades católicas, na governação de muitas dioceses”. Como nos atrevemos a dizer que as mulheres são discriminadas se afinal se tornaram símbolos insubstituíveis da fé, assumem papéis de liderança em estruturas associadas à Igreja, ou se bem reconhecemos que sem elas as comunidades não seriam uma casa bem gerida?
Gostava de lembrar, para quem anda arredado destes assuntos, que as mulheres no mundo, e no mundo católico em particular, não são demograficamente uma minoria, pelo contrário. Este é um dado objetivo: se as mulheres desaparecessem dos bancos da Igreja, as missas ficavam quase vazias de pessoas. Para não falar do facto de as mulheres serem tendencialmente mais instruídas do que os homens. É um detalhe, mas até talvez uma razão implícita para lhes vedar a entrada na hierarquia: mais qualificação escolar significa mais poder para tomar a palavra, mais exercício de pensamento crítico – qualidades que certamente não se apreciam nas esferas altas de algumas prefeituras do Vaticano ou em alguns círculos episcopais.
A discriminação contra as mulheres está sobejamente conceptualizada, estudada, ilustrada, exemplificada – tanto no passado histórico como no nosso presente. E é de discriminação, exclusão que se deve falar quando se pensa no lugar das mulheres na Igreja Católica. É chocante e insuportável o fosso entre os valores jurídicos e sociais das sociedades democráticas em que vivemos, os quais colocam em pé de igualdade homens e mulheres, e a realidade masculina da hierarquia da Igreja Católica – aberta a “todos, todos, todos”? Como podem os prefeitos instalados no Vaticano pensar que muitas jovens e mulheres dos nossos dias entendam acefalamente ser tratadas como fiéis de segunda? Que aceitem sem discussão que os homens possam ascender ao topo e elas, por um simples marcador biológico, dele sejam naturalmente excluídas?
Só por desonestidade intelectual se pode considerar estas expetativas de mudança “muito clericalistas” (afirmações do futuro cardeal Timothy Radcliffe, no mesmo encontro com jornalistas). Por um lado, o clericalismo parece não incomodar os sumos sacerdotes quando vem do topo masculinizado e, numa penada, chuta discricionariamente a questão da ordenação das mulheres para canto. Por outro, e justamente, a perturbação “objetiva” da ordem estabelecida que a entrada das mulheres na hierarquia eclesial inevitavelmente traria (imaginam bispas a ordenar padres? Sacerdotes do sexo feminino a consagrar o pão e o vinho?), pode contribuir para desarrumar valores e processos de poder enquistados numa organização envelhecida, pelo contrário encorajando democracia, transparência e prestação de contas. E, como role models, essas mulheres ordenadas abririam a todas as outras novos horizontes de realização espiritual e serviço ao próximo. Que Igreja viva se pode dar ao luxo de dispensar o enriquecimento interno que viria desse contributo da diversidade?
E vamos, finalmente, aos Evangelhos, onde se soltam essas extraordinárias palavras de esperança, libertação, amor ao próximo. E onde nos é contado o quotidiano de Jesus Cristo, caminhando de terra em terra, rodeado de gente simples e procurando construir comunidades. Filho de Deus, sente os outros como irmãos, companheiros de caminhada, lado a lado. Recusa glórias e medalhas, exércitos e honras, hierarquias de qualquer espécie. E encontramos, depois, a beleza radical destas palavras: “Não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos são um em Cristo Jesus.” Só que, afinal, depende… porque para a hierarquia católica o batismo não nos torna iguais. Pelo contrário: abre oportunidades aos homens, ao mesmo tempo que as fecha para as mulheres.
Muitas vezes penso o que faço, eu, nesta Igreja obsoleta e totalmente incapaz de entender os sinais do tempo. Consolo-me, pensando: há muitas igrejas dentro da Igreja e, portanto, cabe-me escolher comunidades de prática com as quais sinto sintonia e partilha de valores. Talvez, com a força de muitos, consigamos abrir janelas e arejar a casa. Por enquanto, tresanda a mofo.
Ana Nunes de Almeida é socióloga, ex-membro da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica em Portugal.










