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Nathalie Becquart e Paolo Ruffini na sala de imprensa vaticana, 21 outi«ubro 2024. Foto Vatican Media

Papa Francisco e líder da Doutrina da Fé de acordo

Papel das mulheres na Igreja é mais importante do que o tema do diaconato

| 21/10/2024

Nathalie Becquart e Paolo Ruffini na sala de imprensa vaticana, 21 outi«ubro 2024. Foto Vatican Media

Na conferência de imprensa desta segunda-feira, Nathalie Becquart, subsecretária-geral do Sínodo, enfatizou os muitos “lugares importantes” das mulheres na Igreja. Foto © Vatican Media

 

Depois de muita insistência e pressão, o cardeal Victor Manuel Fernández, presidente do Dicastério para a Doutrina da Fé, veio esta segunda-feira, 21, ler perante o plenário dos membros sinodais um comunicado em que dá as explicações que poderia já ter dado no início dos trabalhos do Sínodo sobre a Sinodalidade, sobre os motivos pelos quais o diaconato feminino vai passar para segundo plano.

Em resumo, o comunicado de página e meia, a que o 7MARGENS teve acesso, torna claros os seguintes pontos:

1) O Papa Francisco entende que, “neste momento, a questão do diaconato feminino não está madura” e pediu ao Dicastério para a Doutrina da Fé (DDF) que não se debruce sobre essa possibilidade agora”.

2) Aquilo que efetivamente “muito preocupa” o Papa é o papel da mulher na Igreja, tendo pedido àquele Dicastério, ainda antes do pedido do Sínodo, que “explorasse as possibilidades de desenvolvimento [desse papel] sem se concentrar na ordem sagrada”.

3) Em contrapartida, a comissão de estudo que o Papa tinha nomeado em 2020, presidida pelo cardeal Giuseppe Petrocchi, sobre o diaconato feminino (e que era já a segunda), vai ser reativada, disponibilizando-se para receber e analisar “considerações, propostas artigos ou preocupações sobre este tema”.

Que razões levam o Papa e o cardeal prefeito do DDF a entenderem que “a pressa em pedir a ordenação de diáconas não é hoje a resposta mais importante para a promoção das mulheres”?

A primeira razão, segundo o cardeal Fernández, é que o diaconato seria para “algumas mulheres”, não resolvendo a questão dos “milhões de mulheres na Igreja”. A segunda razão reside no facto de possibilidades já abertas de se avançar em ministérios femininos não foram aproveitadas ao nível das igrejas locais.

Vários exemplos foram dados pelo alto responsável da Cúria Romana. Ei-los:

1) “Quando foi criado o novo ministério do catequista, o Dicastério para o Culto Divino enviou uma carta às conferências episcopais. Aí se propunham duas formas diferentes de configurar o ministério. Uma estava ligada à direção da catequese. Mas a segunda retomava o que o Papa disse em Querida Amazónia sobre os catequistas que apoiam as comunidades na ausência de padres: mulheres que estão à frente, lideram comunidades e desempenham diferentes funções. As conferências episcopais poderiam acolher esta segunda via, mas muito poucas o fizeram. Esta proposta era possível porque o Papa tinha explicado nos seus documentos que o poder sacerdotal ligado aos sacramentos não se exprime necessariamente como poder ou autoridade, e que há formas de autoridade que não requerem a ordem sacra. Mas estes textos não foram aceites”.

2) “O ministério de acólito para as mulheres foi de facto concedido numa pequena percentagem nas dioceses, e muitas vezes são os padres que não querem apresentar as mulheres ao bispo para [que exerçam] este ministério”.

3) “O diaconato masculino: em quantas dioceses do mundo foi recebido? E onde é que foram recebidos, quantas vezes são apenas acólitos ordenados?”

O cardeal Victor Fernández aproveitou a intervenção para pedir “especialmente às mulheres membros deste Sínodo”, que transmitam ao Dicastério propostas contextualizadas sobre possíveis caminhos para a participação das mulheres na direção da Igreja, revelando que tomou já a iniciativa de solicitar que lhe sejam enviados “testemunhos de mulheres que estão efetivamente a liderar comunidades ou a desempenhar papéis importantes de autoridade”, surgidos do “impulso do Espírito, em resposta a uma necessidade do povo”.

O diaconato feminino, que já tinha sido retirado da agenda do Sínodo, foi agora retirado também do grupo de estudo nº 5, que o Papa havia criado, com mais nove, em março último. O tema passará, portanto, para uma comissão que já estudou o assunto, ainda que sem resultados conhecidos, que vai ser reativada. Se os grupos de estudo deveriam trabalhar em estilo sinodal, nada é dito desta comissão, o que permite perguntar se o tema não saiu mesmo da órbita do processo sinodal. Foi exatamente essa a questão que um dos jornalistas colocou no briefing diário sobre o decorrer do Sínodo, que ficou sem resposta.

De resto, para esse encontro com os jornalistas, nesta segunda-feira, foram mobilizadas personalidades de peso: nada menos que Nathalie Becquart, subsecretária-geral do Sínodo, Timothy Radcliffe, teólogo e conselheiro espiritual do Sínodo, ou Mateo Zuppi, arcebispo de Bolonha e presidente da Conferência Episcopal Italiana. E depois de lida a carta do cardeal Fernández na aula sinodal tornou-se incontornável que a quase totalidade das questões se centrasse nesse tema.

O prefeito do Dicastério para a Comunicação, Paolo Ruffini, presença habitual nestes encontros, começou por esclarecer que o chamado grupo 5, que tem sido o foco da polémica, tem caraterísticas especiais e não é exatamente como os outros, porque, disse, além da dinâmica sinodal, tem de lidar também com “o normal modo de proceder da Doutrina da Fé” e trata de um tema que já vem de antes do Sínodo. Estas especificações não tinham sido dadas antes, nem figuravam no documento do Papa, quando criou os grupos de estudo.

Porém, o mais evidente nas respostas da mesa às questões dos jornalistas foi o esforço que todos fizeram de deslocar as questões para os lugares de destaque que muitas mulheres já ocupam – na Cúria Romana, nas universidades católicas, na governação de muitas dioceses, como acontece, por exemplo, em França, em ONG como a Caritas, etc..

A liderança, o protagonismo, os “lugares importantes” foram enfatizados sobretudo por Becquart, o que fez com que um jornalista a inquirisse sobre se não tinha presentes as experiências de tantas mulheres que encontram dificuldades e obstáculos com as hierarquias da Igreja. Ela, em resposta, respondeu que isso acontecia, mas que não poderia ser desligado de um contexto cultural de resistência à mudança, que ultrapassa as fronteiras da Igreja. Citou um encontro recente de mulheres líderes de cerca de uma dúzia de confissões religiosas, no qual se evidenciou que, mesmo nos casos em que as mulheres ocupam funções ministeriais ordenadas, acabam por reconhecer que as desigualdades se continuam a fazer sentir.

Perante a questão de saber se o comportamento que teve nestas semanas o cardeal Fernández não seria pouco sinodal, Becquart não respondeu diretamente à questão, mas foi reconhecendo que “todos estamos a aprender o caminho da sinodalidade através da prática e passo a passo”. “Incluindo na Cúria Romana”, observou.

Quando um jornalista referiu ter duas filhas com idades próximas dos 20 anos que sentiam que as mulheres na Igreja são “cidadãs de segunda classe”, o futuro cardeal Timothy Radcliffe comentou que a questão não reside no que dizemos (em resposta a esse tipo de observações), mas como vivemos. Aludiu à presença de grandes figuras femininas entre o restrito “clube” dos “doutores da Igreja”, que são testemunhas de uma importante função docente e considerou que certos modos de colocar o problema da ordenação das mulheres são, no fundo “muito clericalistas”.

 

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